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Filósofos, cientistas e pesquisadores, em geral, partem dos mais variados princípios de acordo com as suas doutrinas filosóficas para classificar os objetos das ciências (quadro 25), e estão sempre envolvidos na tarefa de propor novas categorias (quadro 26), isto é, novos instrumentos conceituais (quadro 27) de investigação e de expressão linguística.

Com os quadros-síntese das classsificações filosóficas dos seres (categorias) é possível constatar que desde Platão, segundo a concepção epistemológica, vigoram dois princípios quanto à essência das categorias: princípio realista e objetivista e princípio idealista e apriorístico. Historicamente, iniciou-se a teoria das categorias com o primeiro princípio, quer em Platão (summum genus), quer em Aristóteles (kategoria) como determinações da realidade, conceitos que servem para conhecer a própria realidade. Com Kant, a teoria das categorias ganha uma nova elaboração, dessa vez idealista e apriorista, como conceitos puros do entendimento, condições de ligação que o espírito estabelece entre as coisas.

A Epistemologia Contemporânea não mais se ocupa de constituir uma tabela das categorias, pois passa a conceber o pensamento como virtualidade (independente das estruturas linguísticas), como “sistema aberto” (expressão de Hartmann) que não pode constituir-se numa rede “estranguladora” do pensamento (HARTMANN, 1940).

PERÍODO FILÓSOFO PRINCÍPIOS

427-347 a.C. Século IV a.C.

Platão Platão admite a existência de idéias inatas. É a alma, com as suas três faculdades (racional, passional, apetitiva) o princípio das idéias, das categorias. O idealismo platônico separava as idéias e as coisas, considerava os fenômenos como aparência ilusória e as idéias como conhecimento verdadeiro. O princípio (realista) da doutrina do fundamento real das categorias é aquele que confere realidade às idéias e faz corresponder a realidade e o discurso.

384-322 a.C. Século IV a.C.

Aristóteles Aristóteles defende oprincípio que todo conhecimento provém das sensações. As categorias são obtidas por uma espécie de percepção

intelectual. Nada há no entendimento que antes não tenha estado nos sentidos. A alma, para ele, era uma tabula rasa em que nada está escrito. A substância é o ser por excelência, é o indivíduo que se apresenta como síntese de todas as determinações. Essas determinações essenciais da realidade formam as suas dez categorias. Aristóteles buscava nas essências (universais) a razão das coisas e dos fatos, supondo-as no interior das coisas: une as idéias e as coisas e defende o princípio da correspondência entre a realidade e o

discurso por meio das proposições categoriais. “Expressões sem enlace” ou “coisas ditas sem complexão”, para Aristóteles, “categorias”, são palavras simples, “sem ligação”, não combinadas com outras, presentes no pensamento e na linguagem, e que indicam o que uma coisa é, está ou faz, quando aplicada. O que esse conceito, bem diferente, tem em comum com os anteriores é implicar, ele também, um princípio de organização. Pode-se dizer que Aristóteles deduziu as categorias sob o ponto de vista lógico-gramatical.

205-270 Século III

Plotino Em Plotino, o aspecto ontológico da teoria prevalece sobre o aspecto semântico. Seguindo, em parte, Platão, Plotino admite que os gêneros são distintos entre si, porém pertencem à Unidade Suprema (são como partes ou elementos dela): o Ser, o “Um”, o Ente, o Absoluto é o que constitui o fundamento e o princípio comum das categorias.

1285?-1349? Século XIV

Ockham Ockham se caracteriza por um empirismo radical: só existe o que pode ser captado pelos sentidos, só o objeto individual é real e apenas há indivíduos. Defendia o princípio do caráter puramente verbal das categorias.

1561-1626 Século XVII

F. Bacon Em Bacon vigora oprincípio racional que objetiva descobrir a causa (princípio constitutivo dos entes) das coisas naturais, pois saber

verdadeiramente é saber pelas causas. 1588-1679

Século XVII

Hobbes Para Hobbes, a sensação é o único fundamento (princípio) de todo conhecer. 1632-1677

Século XVII

Spinoza Spinoza defende oprincípio racional de determinação da Substância (substância finita pensante e substância infinita) em que atributo é

extensão (da substância) e modo é acidente (da substância). 1632-1704

Século XVII

Locke Locke acredita no princípio racional de distinção entre idéias simples e idéias complexas: prega que frente à idéias simples o sujeito humano é passivo, porquanto só se torna ativo ao estabelecer relação, ou seja, entrar em contato com idéias complexas. Primeira vez que aparece, na Filosofia, o conceito de categoria como funcionalidade. Para Locke, não existem idéias inatas, porque contradizem a experiência e não podem ser averiguadas ou fundamentadas. O nexo causal é o único vínculo que existe entre as coisas e as sensações que se têm delas. Consequentemente a causalidade é o único caminho para o conhecimento, enquanto a existência é a única realidade captada pelo conhecimento mediante a causalidade.

1646-1716 Século XVIII

Leibniz Em Leibniz vigora o princípio racional de idéias inatas: primeiros princípios, que não podem provir da experiência porque têm uma necessidade do absoluto que os conhecimentos empíricos não têm: princípio de identidade: idéias inatas (todo ser é igual a si mesmo); princípio de não-contradição: idéias inatas que governam as verdades de razão - necessárias (um ser não pode ser senão ele) e princípio de razão suficiente: idéias inatas que governam as verdades de fato - contingentes (tudo o que acontece não acontece necessariamente e nem pelo arbítrio de alguém, mas por um motivo razoável que a justifica plenamente, mesmo que não o conheçamos.

QUADRO 25 - PRINCÍPIOS DAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SERES

1711-1776 Século XVIII

Hume Em Hume atua o princípio da subjetividade empírica segundo o qual se pode observar os fenômenos, mas o seu mecanismo íntimo não é passível de experiência e as relações entre os objetos, como não podem ser observadas, não pertencem aos objetos.

1724-1804 Século XIX

Kant Na lógica kantiana as categorias são deduzidas do únicoprincípio comum: da faculdade do juízo (dedução trascendental). Com Kant o mundo a ser classificado era o mundo dos conceitos enquanto formas a priori do conhecimento. O sujeito do conhecimento é a razão universal e não uma subjetividade pessoal e psicológica. As categorias não mais se referem ao ser, mas ao conhecer. A realidade transcende o conhecer e necessita conceber o conhecer como procedente do sujeito, produto deste. As categorias cessam de ser a revelação da estrutura da realidade como na Filosofia Greco-Medieval, até o século XVIII. Kant nega o realismo da concepção clássica e afirma o idealismo da concepção que considera as categorias como conceitos fundamentais do entendimento puro que prescrevem leis aos fenômenos. Kant não se refere ao ser, mas ao conhecer. As categorias não se referem mais ao objeto a ser conhecido, mas ao entendimento como faculdade de conhecimento. Pode-se dizer que Kant deduziu as categorias sob o ponto de vista totalmente lógico. 1770-1831

Século XIX Hegel

Em Hegel predomina o princípio da “realidade- pensamento” (consciência da realidade). Forma e conceito se correspondem. As formas de ser (ontológicas) se correlacionam com as formas de pensar (conceitos). Na lógica de Hegel as categorias são deduzidas da atividade pura do espírito.

1815-1903

Século XX Renouvier

A proposta de Renouvier é mostrar que o conjunto das relações categoriais não é só uma maneira de pensar o mundo, mas também um modo do pensamento averiguar e descobrir acerca da constituição última do real e que a formação das categorias se deve às oposições dialéticas de termos correlativos que mutuamente se implicam.

1882-1950

Século XX N. Hartmann

Para Hartmann, são quatro os princípios que regem as categorias: de validez, segundo o qual as categorias determinam incondicionalmente os seus elementos concretos; de coerência, segundo o qual as categorias se encontram somente na estrutura do estrato categorial; de estratificação, que afirma que as categorias do estrato inferior se acham sempre contidas nas do estrato superior e não o inverso e o de dependência, para o qual as categorias superiores dependem das inferiores. Esses princípios produzem categorias comuns ao ser real e ao ser ideal. Hartmann alude também à modificação ou flexão das categorias nos estratos particulares do universo. 1900-1976

Século XX Ryle

Ryle embasado no Empirismo lógico, propõe-se a classificar os seres sob o ponto de vista (princípio) lógico-gramatical (semântico) indicando que o modo como pode aplicar-se o critério categorial aos termos da linguagem é o modo como um termo pode converter-se em princípio de coleção (coleta) de certos outros termos com o intuito de fornecer informação acerca da natureza das coisas.

1926-1984 Século XX

Foucault Para Foucault, é a relação entre as palavras e as coisas, traço distintivo de cada episteme (entendendo-se por episteme o período histórico específico, único, incomunicável e independente dos demais, que estabelece uma relação específica entre palavras e coisas), o

princípio responsável pelo estabelecimento de categorias.

QUADRO 25 - PRINCÍPIOS DAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SERES

conclusão FONTE: a autora.

PERÍODO FILÓSOFO CATEGORIAS

427-347 a.C. Platão 5: Ser. Repouso. Movimento. Identidade (igualdade, idêntico). Diferença (alteridade, distinto). 384-322 a.C. Aristóteles 10: Substância. Qualidade. Quantidade. Relação. Lugar. Tempo. Ação. Paixão. Posição. Hábito. 205-270 Plotino 5: Ser. Movimento. Repouso (estabilidade). Identidade (o mesmo). Diferença (o outro).

1285?-1349? Ockham 3: Substância. Qualidade. Relação.

1561-1626 F. Bacon 18: Nove pares de categorias: 1. Maius. Minus. 2. Multum. Paucum. 3. Idem. Diversum. 4. Potentia. Actus. 5. Habitus. Privatio. 6. Totum. Partes. 7. Agens. Patiens. 8. Motus. Quies. 9. Ens. Non. Ens.

1588-1679 Hobbes 3: Matéria. Extensão. Movimento.

1632-1677 Spinoza 3: Substância. Atributo. Modo.

1632-1704 Locke 3: Substância. Modo. Relação.

1646-1716 Leibniz 6: Substância. Quantidade. Qualidade. Ação. Paixão. Relação.

1711-1776 Hume 3: Substância. Causalidade. Qualidade Associativa (semelhança, continuidade no tempo e no espaço, causa e efeito).

1724-1804 Kant 12: Quatro grupos de três categorias cada: 1. Quantidade (unidade, pluralidade, totalidade). 2. Qualidade (realidade, negação, limitação). 3. Relação (inerência, causalidade, comunidade). 4. Modalidade (possibilidade, existência, necessidade).

1770-1831 Hegel 3: Ser (quantidade, qualidade, medida). Essência (fundamento, fenômeno, realidade). Conceito (objetivo, subjetivo, idéia).

1815-1903 Renouvier 9: Relação. Número. Extensão (posição). Duração (sucessão). Qualidade. Devir (porvir), Causalidade (força). Finalidade, Personalidade.

1882-1950 N. Hartmann 19: Três grupos: 1. Modais (Possibilidade, Realidade, Necessidade). 2. Elementares, Bipolares ou de Oposição (princípio-concreto; estrutura-modo; forma-matéria; interno-externo; determinação-dependência; qualidade-quantidade; unidade-multiplicidade; acordo- desacordo; oposição-dimensão; discreção-continuidade; substrato-relação; elemento-estrutura). 3. Do Real: Validez (valor). Coerência (crença). Estratificação (planificação). Dependência.

1900-1976 Ryle 4: Qualidade. Estado. Substância. Número.

1926-1984 Foucault Foucault tem um entendimento muito particular (amplo) da extensão do termo categoria. Ele não se refere a um grupo pequeno de categorias; ao contrário, aponta uma rede muito vasta: cão, homem etc. A lógica de Foucault não é uma lógica que o leve a estabelecer categorias universais.

QUADRO 26- CATEGORIAS FUNDAMENTAIS DAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SERES FONTE: a autora.

PERÍODO FILÓSOFO O QUE É CATEGORIA?

427-347 a.C. Século IV a.C.

Platão Idéia perfeita das coisas, objetos ou fenômenos, em que a reunião de cada objeto concreto com outro da mesma ordem, com a mesma característica, participam de uma Idéia: um Gênero supremo; uma Idéia-modelo; uma Idéia-guia; um princípio de organização; uma Idéia-que-guia a ordenação do mundo.

384-322 a.C. Século IV a.C.

Aristóteles Determinação do ser.

Numa interpretação linguística ou semântica: modo de enunciação (trata-se de falar do ser e de analisar os modos como é possível falar acerca do que é); predicado ou atributo da substância; possíveis grupos de respostas a certos tipos de perguntas; expressão ou termo sem enlace ou complexão. Numa concepção ontológica: distinto modo de ser (como o ser aparece); Gênero supremo ou Primeira divisão do ser. Numa combinação das duas interpretações: linguística-lógica e ontológica: conceito original ou básico de todos os outros; conceito ou termo de alta generalização, - uma vez que não se encontra “aplicado” - e que ao ser aplicado funciona como princípio de divisão. Determinação do real, predicação pertencente ao próprio ser e da qual o intelecto deve utilizar-se para conhecer o ser e revelá-lo em palavras, pois categoria é conceito real que guia a dedução de conceitos reais, dando algum contorno à realidade sensível. Para Aristóteles, existir é ser uma coisa de certa categoria.

205-270 Século III

Plotino Determinação do ser.

Gênero supremo, determinação do real, predicação pertencente ao próprio ser e da qual o intelecto deve utilizar-se para conhecer o ser e revelá-lo em palavras.

1285?-1349? Século XIV

Ockham Termo de primeira intensão, simples nome, signo das coisas, dotado da capacidade de ser predicado de várias coisas, ou, nome que se refere a grupos de objetos.

1561-1626 Século XVII

Bacon Possibilidade de formulação de uma identidade dos entes e das coisas naturais a partir da aplicação do modelo dicotômico de divisão (critério de oposição).

1588-1679 Século XVII

Hobbes Explicação do real.

1632-1677 Século XVII

Spinoza Determinação do Ser Absoluto. 1632-1704

Século XVIII

Locke Determinação do pensamento.

Função do pensamento: tipo fundamental de idéia complexa. 1646-1716

Século XVIII

Leibniz Idéia simples sem complexão, designada por um só termo, que pode ser combinada e associada. 1711-1776

Século XVIII

Hume Determinação do pensamento.

Produto da subjetividade empírica.

QUADRO 27- A NOÇÃO DE CATEGORIA NAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SERES

1724-1804 Século XIX

Kant Determinação do pensamento. Condição da validazde objetiva do conhecimento.

Conhecimento puro; forma que o sujeito põe nas coisas; estrutura (a priori) que permite o conhecer racional e verdadeiro. Conceito puro do entendimento, as categorias são constitutivas, isto é, constituem o objeto do conhecimento e permitem, portanto, um saber da Natureza e uma verificação da Verdade. Conceito fundamental mediante o qual se torna possível o conhecimento da realidade fenomênica, posto que, das coisas em si, não se pode saber nada racionalmente. Categorias são conceitos que prescrevem leis aos fenômenos.

1770-1831

Século XIX Hegel

Determinação do pensamento e simultâneamente determinação da realidade (pela formulação de uma identidade entre realidade e razão). Forma de ser e forma de pensar. Determinação do ser e determinação do pensamento. “Momento” do Absoluto. Determinação do desenvolvimento dialético - o desenvolvimento dialético começa no ser, que é a determinação ou categoria mais “pobre”, e culmina na Filosofia, que é o “supremo” da evolução.

1815-1903

Século XX Renouvier

Elemento principal da representação. Noção abstrata que exprime relações de ordem geral.

Lei primária e irredutível do conhecimento; relação fundamental que determina a forma do conhecer; noção a priori, isto é, independente da experiência que, ao exprimir relações gerais, permite organizar e pensar a experiência.

1882-1950

Século XX N. Hartmann

Determinação do ser.

Forma do ser. Fundamento unitário de todo o mundo real. Estrutura necessária ao ser em si que permite a estratificação do mundo real numa série de planos.

Para Hartmann conhecer é captar alguma coisa que existe antes de todo o conhecimento e independentemente dele. Consequentemente, categorias são fundamentos estruturais do mundo real, princípios constitutivos do ser e só podem ser referidas ao ser.

1900-1976

Século XX Ryle

Regra convencional que rege o uso dos conceitos.

Tipo ou categoria lógica de um conceito é o conjunto de modos nos quais, por convenção, é lícito utilizar o termo respectivo (noção mais geral e menos dogmática que a Filosofia tem proposto).

1926-1984 Século XX

Foucault Conceito (inventado ou construído) a partir do qual se pensa sobre o mundo e sua função é primeiramente epistêmica. Categoria é produto de sistema de classificação historicamente condicionado e funciona como padrão ou procedimento estabelecido. A marca de uma categoria e do mundo inteiro que se tem construído acerca delas é que a cada categoria pode ser assinalado um significado preciso e um conteúdo demonstrável. É a maneira pela qual se organiza o mundo.

QUADRO 27- A NOÇÃO DE CATEGORIA NAS CLASSIFICAÇÕES FILOSÓFICAS DOS SERES

conclusão FONTE: a autora.