Após a realização do Congresso de Lausanne,os membros da FTL organizaram o CLADE II, que foi realizado em Huampani, um bairro da cidade de Lima, no Peru, de 31 de outubro a 9 de novembro de 1979. O evento teve como tema: “Para que a América Latina ouça a voz de Deus.”
Este congresso foi convocado pela FTL, esta que,ao longo de dez anos de trabalho,conseguiu estabelecer um ambiente propício para o diálogo, por haver tratado com idoneidade a tensão existente entre evangelicais e evangélicos fundamentalistas. Essa convocação feita por parte da FTL foi um diferencial, pois o CLADE I, como se pode constatar, foi convocado e dirigido por missionários norte-americanos; já no CLADE II a iniciativa por uma reflexão autóctone começa a ganhar força.
O auditório deste congresso foi composto por delegações de 21 países da América Latina e Caribe. Do total de 220 participantes, 22 eram mulheres.As palavras
de abertura proferidas por Samuel Escobar revelavam os objetivos visados para o evento:
1.Estimular a mobilização dos evangélicos do continente para uma evangelização autêntica e eficaz. 2. Considerar os desafios e oportunidades que a América planeja para a missão evangelizadora da igreja às vésperas de uma nova década. 3. Tomar consciência dos recursos humanos e espirituais com que conta o povo evangélico latino-americano para a realização de sua missão evangelizadora. 4. Traçar linhas diretrizes para uma comunicação profunda e eficaz do evangelho no contexto latino-americano. 5. Servir de agente catalisador para uma melhor cooperação entre os cristãos evangélicos na comunicação e vivência do evangelho nos diferentes setores do continente. (apudLONGUINI, 2002, p.185)
O CLADE II adotou um método para a participação dos congressistas que possibilitou uma maior relevância do conteúdo elaborado no congresso. Inicialmente houve um período preparatório, no qual os participantes tiveram um tempo de leitura e análise detalhada da realidade latino-americana de cada região, observando aspectos políticos, socioeconômicos, culturais, religiosos, morais e espirituais da evangelização.
Cada região teve liberdade para apresentar e organizar seu relatório, trabalhando assim a multifacetada realidade de cada contexto. O material que foi preparado por esses grupos serviu de base para a reflexão teológica, de amostragem da situação da América Latina e do papel das Igrejas nesses contextos. O objetivo dos organizadores com isso era refletir sobre algo concreto; tomar a realidade como ponto de partida. Segundo Longuini,“O tema da evangelização foi tratado procurando abranger o trabalho já realizado das igrejas ou instituições paraeclesiásticas, buscando, também, apontar os desafios para o futuro.” (2002, p.186).
Ao olhar para a metodologia que o congresso adotou para a reflexão dos temas, pode-se dizer que é eminente o fato de que o caminho escolhido não visava a imposição de uma teologia estranha ao terreno que a receberia, mas buscava promover a participação e reflexão de todos. Esta forma como foi realizado o congresso contribuiu muito para a notável produção dos grupos de trabalho.
Outro fator digno de nota sobre o CLADE II é que este não produziu um:
“Superdocumento” como pacto, compromisso ou declaração; firmou- se uma pequena carta, simples, porém rica em conteúdo. A atenção voltou-se para os Documentos de Projeção e Estratégia, que registram a visão teológica, a teologia da missão, as propostas para o movimento evangelical em particular, e para o protestantismo em geral na América Latina. (LONGUINI, 2002, p.186).
Ao analisar o CLADE II, pode-se encontrar fatores que denominamos pontos de contato e ecos Lausanne. Denominam-se pontos de contato elementos que aparecem de maneira convergente nos congressos sem ter havido necessariamente influência de um sobre outro. Por se tratar de congressos cristãos protestantes, sobre a temática da evangelização, possuem conceitos comuns a ambos, por isso denominados pontos de contato. Os Ecos7 de Lausanne são os elementos, características e abordagens que foram
tratados no Congresso Mundial de Evangelização, em Lausanne, e que por influência deste nos participantes que tiveram acesso a esse conteúdo, foram levados à pauta do CLADE II.
Ao encontrar esses pontos de contato e esses ecos se poderá mensurar, mesmo que de maneira introdutória, a proximidade conceitual entre esses dois congressos e a influência de Lausanne sobre o CLADE II. Para fazer essa análise serão comparados o PL e a carta final elaborada pelo CLADE II, pois estes documentos resumem as resoluções e conteúdos de ambos os congressos.
O primeiro ponto de contato que se destaca entre ambos os congressos é o objetivo deles, que era trabalhar a questão da evangelização. No ponto intitulado Antecedentes da carta do CLADES II vê-se a seguinte afirmação: “nosso propósito tem sido considerar juntos a tarefa evangelizadora que somos chamados a cumprir nas próximas décadas” (LONGUINI,2002, p.192). Em consonância a esta afirmação pode- se ver as palavras introdutórias do PL ao dizer: “Acreditamos que o evangelho são boas novas de Deus para todo o mundo e, por sua graça, decidimos obedecer aos mandamentos de Cristo e proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos em todas as nações.” (STOTT, 2003, p.24).
Deve-se, porém, ressaltar que ao se referirem à evangelização e à proclamação, ambos partem de uma perspectiva que rompe com a visão conversionista, mas que baseia-se em um paradigma holístico do ser humano, que enxerga a necessidade de sua conversão não apenas nos aspectos espirituais e religiosos, mas também sociais, culturais, políticos e socioeconômicos.
Um segundo ponto de contato que se pode notar entre os dois congressos é a compreensão que o PL e o CLADE II apresentam sobre a Bíblia, sua autoridade e poder. A visão de ambos sobre este tema é totalmente convergente. No PL está escrito:
7Utiliza-se aqui uma figura da física que expressa a reverberação das ondas sonoras emitidas em um
lo al, as ue s o e oadas e luga es ais dista tes, e o lugar distante que aqui nos referimos é o CLADE II
Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma; é a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje.(STOTT, 2003.p.89e90)
Em uma porção menor, o CLADE II reafirma os mesmos valores presentes na citação anterior, dizendo: “Procuramos deliberar sobre nossa missão submetendo-nos à autoridade suprema da Bíblia, a Palavra de Deus, à direção soberana do Espírito Santo”(LONGUINI, 2002, p.192).O entendimento expresso em ambos sobre a origem divina da Bíblia baseia-se na compreensão de que ela é inspirada; isso significa que Deus foi aquele que soprou aos homens o conteúdo que nela consta. Por acreditar que ela é a Palavra de um Deus verdadeiro que não mente, e consequentemente verdadeira, é autoridade, regra de fé e prática, tendo assim autoridade sobre o pensar e agir dos que nela creem.
Stott, em seus comentários sobre o PL, ao abordar o tema referente à Bíblia, afirma: “trata-se de sua única Palavra escrita, porque não podemos aceitar as escrituras supostamente sagradas de outras religiões (por exemplo, o Corão ou o Livro Mórmon) como se tivessem sido ditadas pelo Espírito e proferidas pela boca de Deus.” (STOTT, 2003, p.32).
Nos dois documentos nota-se um fator de exclusividade e generalidade sobre a Bíblia. São exclusivistas ao afirmarem que a Bíblia é a única Palavra de Deus, e sua generalidade está presente na sua propagação, pois nota-se, em ambos os congressos, que a mensagem bíblica é destinada a todos os povos. O PL afirma: “A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade”. (STOTT, 2003, p.89) O CLADE II afirma: “Sentimos que devemos responder ao desafio missionário que em nível mundial representam as milhões de pessoas que não conhecem a Jesus Cristo com Senhor e Salvador”. (apud LONGUINI, 2002, p.192).
Outro ponto de contato que podemos notar nos documentos é a cristologia. Os dois apresentam Cristo como o caminho para a salvação, aquele sobre o qual toda a missão evangelizadora se fundamenta. O CLADE II afirma: “Ao mesmo tempo sentimos que devemos responder ao desafio missionário que, em nível mundial, representa as milhões de pessoas que não conhecem a Jesus Cristo como Senhor e
Salvador.” (LONGUINI, 2002, p.192). O PL apresenta essa mesma compreensão, porém de forma mais clara e detalhada:
Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se ofereceu a si mesmo como único resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e os homens. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como "o Salvador do mundo" não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor. (STOTT, 2003, p.90).
Em ambos, nota-se a unicidade de Cristo, que é tido como único salvador, mediador entre Deus e os homens. E há também o aspecto universal, pois Cristo é apresentado como salvador do mundo. Stott apresenta esse entendimento da seguinte forma: “É porque Jesus Cristo é o único Salvador que ele deve ser universalmente proclamado” (STOTT, 2003, p.39).
Na palestra de abertura do Congresso de Lausanne, Billy Graham esboça o pressuposto cristológico que permearia esses dois congressos; nesta ocasião ele afirma a questão da unicidade de Cristo na salvação e repudia, veementemente, todos os que “afirmam abertamente serem muitos os caminhos que conduzem a Deus, e que no final, ninguém será condenado” (GONDIM,2010, p.21).
Depois de analisar os pontos de contato, segue a análise dos ecos de Lausanne no CLADE II. O primeiro eco que se pode encontrar está logo no início da carta deste (o CLADE II), onde no segundo ponto, intitulado “Reafirmações”, é declarada a adesão ao PL. Segundo Longuini: “exigiu-se que os participantes de CLADE II aceitassem, como pré-requisito para participação no congresso, os termos dele (PL)” (LONGUINI, 2002, p.187). Na carta do CLADE II a adesão ao PL é apresentada da seguinte forma:
Nesta atitude, reafirmamos nossa adesão à declaração do Primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização e ao pacto do Congresso Mundial de Evangelização. Realizado em Lausanne, Suíça, em julho de 1974. (LONGUINI, 2002.p.192)
Outro eco que pode ser visto no CLADE II é a escolha do tema do congresso, este faz quase uma transcrição do tema do Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, este que teve como seu tema “Para que o mundo ouça a voz de Deus”(STOTT,2003, p.25) e o CLADE II adotou o seguinte tema: “Para que a América Latina ouça a voz de Deus”(LONGUINI, 2002, 187). Além desses ecos que podem ser constatados à primeira vista, existem outros que tocaram as estruturas do CLADE II de maneira significativa, e são a esses que nos dedicaremos agora.
O contexto no qual o PL é originado e ao qual se remete é marcado por um forte individualismo e capitalismo. Como dito anteriormente, o congresso Mundial de Evangelização em Lausanne tinha em sua convocação uma face conservadora e conversionista, mas os participantes, vindos do terceiro mundo, e principalmente da América Latina, contribuíram de forma significativa para uma mudança no rumo do congresso, pois estes colocaram na pauta a reflexão sobre as estruturas sociais e os contextos culturais dos povos onde a missão se realizava.
Uma das contribuições mais marcantes foram as palestras feitas pelos latino- americanos. Destaca-se, entre essas, a de Samuel Escobar, um missiólogo batista, peruano, membro fundador da FTL e membro ativo do congresso de Lausanne. Em sua palestra “A Evangelização e a Busca de liberdade, de justiça e de realização do homem” ele faz o seguinte pronunciamento:
Imaginem toda a população do mundo condensada numa aldeia de 100 habitantes. Desse número, 67 seriam pobres. Os 33 restantes, em grau variado, seriam ricos. De toda população, somente 7 seriam norte americanos. Os outros 93 ficariam vendo os 7 norte-americanos gastarem a metade de todo dinheiro do mundo, comerem um sétimo de todo o alimento e usarem metade de todas as banheiras existentes. Esses 7 teriam dez vezes mais médicos do que os outros 93. Nesse império, continuariam enriquecendo cada vez mais, enquanto os 93 continuariam empobrecendo.(...) Como parte dos 7 ricos, estamos procurando alcançar para Cristo o maior número possível dentre os 93. Falamos acerca de Jesus e eles nos veem jogar fora mais comida do que jamais esperariam consumir. Estamos ocupados construindo belas igrejas, enquanto eles pedincham à procura de abrigo para suas famílias. Guardamos dinheiro no banco, mas eles não têm o necessário nem para comprar comida para os seus filhos. Dizemos que o Mestre era servo de homens, o salvador se dispôs de tudo o que era seu em nosso favor, e agora ordena que façamos o mesmo por ele (...) Somos a maioria rica do mundo. Podemos até esquecer isso, ou achar que o assunto não tem importância. Mas fica a pergunta: e os 93? Poderão esquecê-lo também? (apud ROCHA,2002.p.93e94)
Tais contribuições marcaram o congresso de forma significativa, trazendo à tona a questão que até então estava sublimada, a saber: “Como anunciar a Palavra e Deus num mundo tão injusto?” (ROCHA, 2002, p.94). Com isso o congresso ganhou uma tônica que passou a ser identificada, segundo Rocha, como “espírito de Lausanne”. O mesmo autor o explica como sendo “a visão integral acerca da missão da igreja. A teologia de Lausanne é então conhecida como teologia da Missão Integral. O principal lema desta teologia é o evangelho todo, para todo homem e o homem todo.” (ROCHA,2002,p.95). E é exatamente este espírito de Lausanne que podemos ver como um eco que soa no Clade II.
O PL, ao olhar a integralidade do homem e da mulher, depara-se com o sofrimento e a injustiça social, e passa a partir de então a entender que questões de cunho social também são responsabilidade da igreja.Nota-se este fato no seguinte trecho:
Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada (STOTT, 2003.p.91)
Neste ponto, colocam-se os fundamentos contra a visão que tinha apenas o anúncio verbal do evangelho como missão da igreja, pois aqui se torna parte da missão da igreja o partilhar do interesse pela justiça, pela conciliação da sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão; com isso estabelece-se um olhar holístico, e não simplesmente conversionista.
Essa visão era até então ignorada, como se pode notar ao analisar o PL, pelo arrependimento expresso claramente através da afirmação: “Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas.” (STOTT, 2003, p.91).
Nessa perspectiva a ação social assume um caráter soteriológico, no qual a transformação do pessoal e social passa a ser consequência da salvação experimentada por cada cristão. “A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.” (STOTT, 2003, p.91)
Estas palavras são ecoadas no CLADE II, e pode-se ouvi-las na seguinte afirmação:
Temos ouvido a Palavra de Deus que nos fala e que também escuta o clamor dos que sofrem. Temos levantado os olhos para o nosso continente e contemplado o drama e a tragédia em que vivem nossos povos nesta hora de inquietação espiritual, confusão religiosa, decadência moral e convulsões sociais e políticas. Temos ouvido o clamor dos que têm fome e sede de justiça, dos que se encontram desprovidos do que é básico para sua subsistência, dos grupos étnicos marginalizados, das famílias destruídas, das mulheres despojadas do uso de seus direitos, dos jovens entregues aos vícios ou impulsionados à violência, das crianças que sofrem fome, abandono, ignorância e exploração. (LONGUINI,2002, p.192)
O CLADE II recebe não apenas o eco que o estimula para um olhar da totalidade humana, mas também o exemplo de arrependimento.No sétimo ponto,intitulado de “Confissões”, são reconhecidas as falhas cometidas pela igreja que até então pecara em sua missão:
Confessamos que como povo de Deus nem sempre temos atendido às demandas do evangelho que pregamos como demonstra nossa falta de unidade e nossa indiferença frente às necessidades materiais e espirituais de nosso próximo. Reconhecemos que não temos feito tudo o que com a ajuda do Senhor deveríamos realizar em benefício de nosso povo. (LONGUINI,2002, p.193).
O mais notável deste eco é o seu comprometimento com uma mudança de paradigma.Nos dois congressos, nota-se uma postura que se compromete com a mudança. Não há apenas o olhar para a realidade social e a confissão, o arrependimento, ou o remorso; há também uma tomada de decisão por mudança de posturas, e abordagens. E isso é claramente expressado nos dois documentos, No PL vemos a seguinte afirmação:
A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar, mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. (STOTT,2003,p.91). Juntamente a essa afirmação que desafia para uma mudança, pode-se somar a seguinte:
Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provoca. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles. (STOTT, 2003,p.93).
Esta chamada a um estilo de vida simples é tido por Stott como a expressão do PL que talvez tenha causado maior impacto em seus signatários, pois esta os desafia a contentar-se com o necessário e romper com os luxos e extravagâncias. Porém, este estilo de vida simples não é apresentado como um fim em si mesmo, mas visa o disponibilizar-se em sua integralidade para “contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles”. (STOTT, 2003, p.93).
Na carta do CLADEII nota-se a mesma preocupação em não deixar o documento limitar-se à análise do presente e às confissões sobre o passado. Após abordar a questão das demandas sociais e das falhas da igreja nesse aspecto, faz-se a seguinte proposta de ação:
Propomo-nos a depender do poder transformador do Espírito Santo para o fiel cumprimento da tarefa que está diante de nós. Cremos que na próxima década o Senhor poderá abençoar de maneira singular o seu povo, salvar integralmente a muitíssimas pessoas, consolidar ou restaurar nossas famílias e levantar uma grande comunidade de fé, que seja uma antecipação, em palavra e ato, do que será o reino em sua manifestação final. (LONGUINI, 2002.p.193)
Nota-se, portanto, que o eco da responsabilidade social que a igreja tem para com o seu contexto foi ouvido pelo CLADE II em sua totalidade. Isso se evidencia em sua carta final, em que há um olhar para a realidade, o reconhecimento do erro e o comprometimento com novas resoluções e ação frente ao futuro.
Outro eco que se destaca na carta do CLADE II é a abordagem e o enfoque dadosà cultura. Stott afirma que a “cultura foi um dos principais temas de meditação e debate em Lausanne” (STOTT, 2003, p.66). No PL a cultura é apresentada como possuidora de elementos bons e belos, por compreender que ela vem do homem e da mulher que foram criados por Deus à sua imagem e semelhança. A cultura, por sua vez, é portadora de elementos divinos, mas, apesar disso, ela precisa ser analisada e julgada a partir dos preceitos bíblicos, pois esta, por ter o homem cometido pecado, carrega a contaminação causada por esse ato. O PL expõe esses elementos da seguinte forma:
A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque