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Ainda que o Marquês de Sade (1740 – 1814) seja uma figura situada no limiar da modernidade da história da loucura (isto é, vive ativamente a época da Revolução, que corresponde, segundo Foucault, ao desaparecimento do internamento do desatino como instituição126), podemos situá-lo como um expoente dessa relação com a linguagem transgressora, e por isso um expoente de uma resistência do desatino contra o poder do internamento. Aqui, a escolha de Sade é justificada pela presença constante que Foucault lhe dá na obra, desde a “experiência trágica” até a loucura moderna, passando pela “grande internação”. Nos três períodos que compõem a História da

loucura, a figura de Sade aparece de forma expressiva: ele guarda a verdade trágica do

desatino (que foi a experiência renascentista), é internado como libertino e insensato, torna-se figura de expressão da loucura como algo que diz respeito ao homem, suas paixões, sua verdade e seu discurso.

Ao final do século XVIII, tornar-se-á evidente – uma dessas evidências não formuladas – que certas formas de pensamento libertino, como a de Sade, têm algo a ver com a loucura; admitir-se-á de um modo igualmente fácil que a magia, alquimia, práticas de profanação ou ainda certas formas de sexualidade mantêm um parentesco direto com o desatino e a doença mental (Foucault, 2005a, p.84).

Uma das formas segundo a qual Sade poderia ser um expoente da resistência seria enquanto ele mobiliza uma linguagem que guardaria em si algo de fundamental relativo à experiência e à verdade da desrazão. Linguagem que reteria algo da experiência trágica da loucura, que - derrotada pela consciência crítica, dominada por uma consciência prática, delimitada por uma consciência analítica e enunciativa, na Idade Clássica - permanece em uma espécie de vigília discreta. Em Sade, perdura a experiência de uma Razão desatinada e de um razoável Desatino. Trata-se da zona de troca, comunicação, ameaça e implicação recíproca que a Idade Clássica se esforçará em quebrar a partir das internações. Os escritos de Sade seriam um refúgio de algo que subsiste dessa experiência trágica da loucura anterior à internação, mostrando que o que ocorreu não foi seu desaparecimento, mas sua ocultação. A escrita de Sade mostraria algo do desatino que resiste ao silêncio, como que indestrutível, e que não quer calar:

Em suma, a consciência critica da loucura viu-se cada vez mais forte, enquanto penetravam na penumbra suas figuras trágicas. Em breve estas serão inteiramente afastadas. Será difícil encontrar vestígios delas durante muito tempo; apenas algumas páginas de Sade e a obra de Goya são testemunhas de que esse desaparecimento não significa uma derrota total: obscuramente, essa experiência trágica subsiste na noite do pensamento e dos sonhos, e aquilo que se teve no século XVI foi não uma destruição radical mas apenas uma ocultação (2005a, p.28).

Maurice Blanchot, no texto “A experiência-limite”, apresenta Sade como expoente daquilo que chamou “a loucura de escrever, movimento infinito, interminável, incessante” (2007, p.221). Para Blanchot, insurreição, transgressão e escritura fariam parte de um único e mesmo movimento de contestação dos limites e dos valores na obra e na vida de Sade. Movimento esse da exigência excessiva por razão, que coincidiria com o desatino. No limiar da modernidade, Sade foi perseguido por causa da mesma exigência: “é preciso dizer tudo, a liberdade é a liberdade de dizer tudo, esse movimento ilimitado que é a tentação da razão, seu voto secreto, sua loucura” (2007, p.222). Assim, na sua escrita, a descrição minuciosa e racional de “todas as possibilidades sexuais” expressaria o caráter transgressor de uma “linguagem sem ninguém que fale, uma sexualidade anônima sem um sujeito que goze dela” (Castro, 2009, p.396).

Sade foi um típico libertino, internado exatamente como desarrazoado por tudo querer dizer. Segundo Edgardo Castro, a História da loucura oferece uma série de indicações que esboçam uma história da libertinagem. No entanto, para Foucault, considerando que o libertino passou a integrar, junto às diversas categorias dos desarrazoados, a população do internamento, uma filosofia ou uma história da libertinagem não poderia ser feita a partir dela mesma, mas a partir dos registros que o poder dela produz:

A libertinagem deslizou agora para o lado da insanidade. Fora de um certo uso superficial da palavra, não há no século XVIII uma filosofia coerente da libertinagem; esse termo só será encontrado e utilizado de modo sistemático nos registros dos internamentos (Foucault, 2005, p.101).

Os libertinos são aqueles que pensam mal, de modo que neles estaria impressa a marca da falta, do erro e da culpa através dos quais a Idade Clássica vê a desrazão. Se a libertinagem transita paradoxalmente entre livre pensamento e ausência de pensamento, ela é – segundo a percepção classicista – o descompromisso ético com a escolha fundamental do sujeito que sustentaria o pensamento racional. Desse modo, a libertinagem seria vista como uma dissolução moral, uma espécie de autoalienação complacente do pensamento. Este estaria submetido às paixões e à carne, de modo que o livre uso de uma razão liberta de preconceitos e dogmatismos acarretaria, imediatamente, a perda dessa mesma razão e sua vinculação com as potências do desatino. Se, “reduzida ao denominador da aparência sexual mais flagrante”, a libertinagem de Sade possa ser remetida à ofensa e à transgressão dos interditos da ordem do gesto, é necessário, por outro lado, ressaltar a importância da linguagem na articulação de uma razão excessiva e calculadora aplicada aos fins mais desarrazoados e violentos dos desejos. Assim se refere Blanchot ao uso da razão em Sade:

Ele é claro, seu estilo natural, sua linguagem sem rodeios, só se preocupa em raciocinar; essa razão, livre de preconceitos, fala para convencer e apelando para verdades às quais dá uma forma universal e que lhe parecem tão evidentes que toda objeção é energicamente atribuída à superstição. Essa é a certeza de Sade. Ele aspira à razão, e é com a razão que se preocupa, uma razão que propõe e que será conveniente para todos (Blanchot, 2007, p.204).

Assim, o libertino é um homem dotado de desejo forte, capturado por ele, cedendo as suas solicitações mais quiméricas, ainda que procedendo - na linguagem - através de um espírito suficientemente frio para fazer entrar nas combinações – racionais e calculadas – da representação a força do desejo: “A grande tentativa de Sade (...) trata de introduzir a desordem do desejo em um mundo dominado pela ordem e pela

classificação. É isto que significa claramente o que denomina libertinagem” (Foucault

apud Castro, 2009, p.396). Nesse sentido, o uso da razão e da análise em Sade coincide

paradoxalmente com a perda moral do sujeito na desrazão.

Foucault salienta também a amarração da obra de Sade com os significados mais profundos do internamento, quando este adquiriu poderes próprios, e tornou-se, por sua vez, terra do mal na Idade Clássica (2005a, p.353). Assim, a obra de Sade e o fenômeno do sadismo surgiram no internamento, mantendo, nos próprios lugares em que o desatino havia sido mantido em silêncio, as figuras fantásticas familiares ao fim da Idade Média, dotadas de um novo sentido:

O sadismo não é um nome dado enfim a uma prática tão antiga quanto Eros, é um fato cultural maciço, que surgiu (...) no século XVIII (...). O aparecimento do sadismo situa-se no momento em que o desatino, encerrado há mais de um século e reduzido ao silêncio, reaparece, não mais como figura do mundo, não mais como imagem, porém como discurso e como desejo (...). E não é por acaso que o sadismo, como fenômeno individual que leva o nome de um homem, nasceu do internamento e no internamento; não é por acaso que toda a obra de Sade está ordenada pelas imagens da Fortaleza, da Cela, do Subterrâneo, do Convento, da Ilha inacessível que constituem como que o lugar natural do desatino (2005a, p.359).

No último capítulo da História da loucura, “O circulo antropológico”, é justamente a permanência dessa experiência do desatino na obra de Sade que Foucault salienta:

Em Sade, como em Goya, o desatino continua sua vigília na noite; mas através dessa vigília ele reata os laços com jovens poderes. O não-ser que ele era torna- se poder de aniquilação. Através de Sade e Goya, o mundo ocidental recolheu a possibilidade de ultrapassar na violência sua razão, e de reencontrar a experiência trágica para além das promessas da dialética (2005a, p.527). Segundo Foucault, Sade representaria a permanência do desatino segundo duas experiências: a experiência trágica da desrazão (manifesta em imagens), e a experiência da loucura enquanto algo que diz respeito ao discurso, à linguagem e ao desejo. Em resumo, a linguagem transgressora – figura da resistência – tem, em Sade duas formas predominantes: 1) a de uma linguagem blasfema e profanadora em seu conteúdo, que mostra os limites impostos pela cultura e pela razão a partir da descrição clara e detalhada daquilo que é proscrito e proibido; 2) trata-se de uma linguagem que fala por si. Nesse sentido Sade é visto por Foucault como fundador da literatura moderna (Castro, 2009, p.396) e da aproximação do uso de uma “linguagem estruturalmente hermética” com a linguagem da loucura: linguagens que falam a si mesmas, que falam de si mesmas, nas quais desaparece a soberania de um sujeito falante.

Cabe lembrar que se, nos anos 60, Foucault compartilha com Bataille e Blanchot esse entusiasmo em relação ao potencial transgressor de Sade, nos anos 70, ele se distanciará dessa posição de fascínio e sacralização. Esse distanciamento crítico se faz de modo a acompanhar, simultaneamente, a dúvida e o rechaço da função revolucionária da literatura127 que havia sustentado na época da escrita da História da loucura, como também a denúncia do poder disciplinar que estava empreendendo,

principalmente a partir de Vigiar e punir. Em uma entrevista de 1975, Foucault critica Sade como sendo um disciplinador, uma espécie de sargento do sexo, que teria formulado o erotismo próprio à sociedade disciplinar:

Eu não sou a favor da sacralização absoluta de Sade. Afinal, eu estaria bastante disposto a admitir que Sade tenha formulado o erotismo próprio a uma sociedade disciplinar: uma sociedade regulamentada, anatômica, hierarquizada, com seu teu cuidadosamente distribuído, seus espaços esquadrinhados, suas obediências e suas vigilâncias. Trata-se de sair disso, e do erotismo de Sade. É preciso inventar com o corpo, com seus elementos suas superfícies, seus volumes, suas densidades, um erotismo não disciplinar (Foucault, 2006a, p.370).