E o século XIX em Portugal que alterações trouxe? Será que não se fez sentir neste reino do extremo sul da Europa? Parece-nos evidente que muitos melhoramentos se realizaram, e, quando surgiu o fim dos conflitos intestinos, pôde implementar-se a política desenvolvimentista que ficou personificada no general António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887), um dos alvos favoritos do caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Com a acalmia da chamada Regeneração, iniciada com o golpe militar de 1 de Maio de 1851, chefiado pelo eterno conspirador marechal duque de Saldanha, seria afastado o presidente do Ministério (primeiro-ministro) António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), que, vindo do Setembrismo, lançaria os alicerces do Estado moderno em Portugal, embora sob muitas acusações de favorecimentos e corrupção. Além das reformas da administração e outras mudanças
136 necessárias, Fontes levaria a efeito, a par de fortes subidas de impostos, uma certa transfiguração do País em termos de infra-estruturas, mas sem correspondência em termos sociais. Porventura uma das melhores análises das dificuldades do nosso liberalismo ficará a dever-se ao professor universitário Joaquim António da Silva Cordeiro (1860-1915), autor de uma obra intitulada A crise em seus aspectos morais:
introdução a uma biblioteca de psicologia individual e colectiva318, na qual, sem meias- palavras afirmará que os homens e os partidos têm uma moral no poder e outra na
oposição. Antigo deputado, e respondendo à sua pergunta sobre o comportamento dos
agentes políticos perante os factos económico-políticos, concluirá que a crise
económica volve-se logo em crise moral, porque explica, anteriormente, que a
impotência dos homens, os dissídios dos governantes e o indiferentismo da opinião agravaram as doenças do crédito, cuja causa mais grave não vem só do carácter português em degenerescência, porque é internacional e endémica.319 Bastaria esta reflexão de um estudioso que já deixara interessantes análises em temas tão diversos como Ensaios de filosofia da história (1882) e Questões de finanças (1885), para se perceber que o nosso século XIX teve quem reflectisse e escrevesse — e isto sem ser necessário recorrer sempre aos nomes de Herculano, Antero, Eça, Oliveira Martins, Ramalho, Guerra Junqueiro ou Fialho de Almeida. Foi um período fecundo em matéria de analistas da nossa sociedade, cuja decadência não derivava seguramente do fado, como queriam certos críticos fundamentalistas… Nem tão pouco do poder moderador personificado em D. Luís, músico com pretensões, ter ouvido algumas vezes os trinados da trova lisboeta, enquanto o príncipe real D. Carlos aprendia a tocar guitarra com o exímio executante João Maria dos Anjos.
Tivemos intelectuais das mais diversas proveniências sociais e formações académicas — ou, até, autodidactas de extraordinário mérito — que, sobretudo nas últimas três ou quatro décadas do século XIX, procuraram pensar a sociedade à luz das grandes interrogações abertas por novas procuras de progresso e riqueza, quantas vezes alcançados com total desprezo pelos mais fracos. No nosso caso particular, perdido que fora o Brasil como espinha dorsal da nossa economia de facto desde a transferência, em 1808, da rainha e do regente, bem como da corte, para a colónia depois tornada reino; mas geralmente fixada a perda da jóia da coroa em 1822, quando o herdeiro do ainda
318 - Joaquim António da Silva Cordeiro, A crise em seus aspectos morais: introdução a uma biblioteca de psicologia individual e colectiva, Coimbra, F. França Amado, 1896.
137 Reino Unido deu o chamado Grito do Ipiranga no local onde hoje se ergue a megalópole São Paulo, ficáramos reduzidos à expressão de pequeno e pobre país europeu vagamente acordado para as potencialidades de um imenso império africano. As élites do tempo, magra hoste de massa cinzenta do ponto de vista numérico, nem por isso deixariam de interrogar-se sobre os conflitos sociais, morais e até metafísicos que os novos tempos dominados pela ciência lentamente nos traziam a par das máquinas, das pontes, do gás de iluminação, da electricidade que se afirmaria tão poderosa que a proporção do seu consumo viria a ditar o grau de desenvolvimento…
O nosso pequeno mundo beato transformava-se irremediavelmente, para desgosto de uns, e não suficientemente, para desespero de muitos. Nalguns casos mudava para pior, porque começavam a vir à luz do dia, que era muito relativa numa nação com a esmagadora maioria da população em estado de analfabetismo, as questões ligadas às injustiças sociais, as brutalidades levantadas pelas descriminações de género, as mil e uma arbitrariedades de um poder aparentemente sujeito a escrutínio ou de uma justiça digna desse nome apenas para os privilegiados. E, lentamente, também foi entrando em crise toda a panóplia religiosa católica, com os seus dogmas fundacionais desafiados por tempos que apelavam à razão e confiavam sobretudo nas respostas da ciência. Esta não podia suprir carências metafísicas, nem muitas outras, mas impunha-se como saber palpável, demonstrável, ser existente fora da dimensão do pensamento…
Mas o que terá uma trova popular como o fado a ver com tudo isto? Acaso a sua temática podia registar com fidelidade factos tão complexos como as questões sociais, a dureza da justiça para os pobres, a situação prisional dos mais desfavorecidos? Louvar as descobertas científicas ou abalar a fé no catolicismo muitas vezes irracional de então? Cantar-se-iam nas tabernas dos bairros populares lisboetas versos traduzindo desejos de mudança do regime ou apenas letras a falar dos amores da Severa e do Vimioso, somente múltiplas variações sobre encontros e desencontros, desgraças, desilusões, misérias?
Vejamos alguns exemplos do vasto arsenal que poderíamos convocar. Assim, sobre a religião, por exemplo, eis diversas quadras antigas, segundo o cultíssimo e bem informado João Pinto de Carvalho (Tinop), que as compilou:
Eu de nada me admiro, Ai la-ri-ló-lé Guimarães
Eu já vi um padre prenho Parir vinte e cinco cães.
138 Quem criou o nosso fado
Foi Adão no Paraíso; Era um poeta d’escacha, Um fadista com juízo. Anjo caído uma vez
É banido entre os mortais, Porque as leis sociais O entrolham de revés.
Quando t’eu vi, oh freirinha, Encostadinha ao mirante, Logo meu coração disse: Tu, freirinha, tens amante.
Perguntei à Sociedade, Da qual amo e prezo a vida, Se é cobarde ou valente O homem que se suicida.320
Se algumas destas quadras já possuem irreverência bastante, que dizer da letra de fado que a seguir (parcialmente) transcrevemos:
Vive pobre o pobre op’rário Que trabalha, noite e dia... Vive rico o usurário No seio da Burguesia!
Eis o contraste fatal, Do nascer a subtileza:
D’um lado, o berço – Pobreza D’outro o berço – Capital. D’um lado o esforço animal Do infeliz proletário; E do outro o argentário P’ra quem a vida é rendosa! Porque enquanto o rico goza Vive pobre o pobre op’rário. (…)
Op’rários do Universo – A minha humilde canção, Incita à Revolução
Contra o Capital perverso. Vêde neste pobre verso Vossa amargosa agonia... E lutai com energia De modo que se invalide O Inimigo que reside
320 - Cf. João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 5.ª edição, 2003, pp. 120 e ss.
139 No seio da Burguesia.321
Tal como já acontecia da parte de muitos intelectuais e outras figuras influentes da época, também o próprio regime monárquico, mercê de diversos escândalos e provas de ineficácia, passou a ser olhado com desconfiança crescente, mesmo por alguns membros da aristocracia, sobretudo os ligados à maçonaria, nas últimas décadas do século XIX, situação que se agravaria sobremaneira com o Ultimatum britânico de 11 de Janeiro de 1890, bem demonstrativo do interesse de Londres em relação às nossas possessões africanas, pelo menos as que podiam entravar os interesses das suas companhias majestáticas e o sonho de Cecil Rhodes (1853-1902) de unir a Cidade do Cabo ao Cairo. Levado a efeito pouco depois de D. Carlos suceder a seu pai (1889), o acto belicoso do dito nosso mais velho aliado, pelo qual Lisboa costumava alinhar a sua política externa, ocorria na sequência de uma diligência pouco feliz da política regeneradora portuguesa em África, o chamado mapa cor-de-rosa, reclamando direitos históricos na ligação territorial entre Angola e Moçambique. Já a conferência de Berlim de 1885 estabelecera, em detrimento do direito histórico, o princípio da ocupação efectiva das possessões africanas, muito cobiçadas pelas matérias-primas que podiam fornecer aos países em grande incremento industrial e também como espaços de escoamento às produções dessa natureza. Obrigado a grandes cedências territoriais, Portugal e a Grã-Bretanha assinariam um primeiro tratado em 20 de Agosto de 1890, com a delimitação das fronteiras das nossas colónias, que o Parlamento português se recusa a ratificar, tendo aceitado o celebrado em 28 de Maio de 1891, que se apresentava bem menos vantajoso já que representava a perda das zonas mineiras mais ricas de Manica (as relações entre os dois países só melhorarão com o Tratado de Windsor, de 1899, que garante a integridade das colónias portuguesas).322 Toda esta situação deplorável vinha reforçar a posição do Partido Republicano, que apontara constantemente as responsabilidades do
Bragança e dos políticos monárquicos em todo este grave incidente — e, claro, fazer que muitos cidadãos olhassem de forma simpática os ideais republicanos e cantassem um hino patriótico de seu nome A Portuguesa. Composto por um vulto importante da nossa cultura romântica, Alfredo Keil (1850-1907), poeta, pintor e músico, a letra ficou a dever-se ao poeta, escritor e oficial da Armada Henrique Lopes de Mendonça (1856- 1931). O futuro Hino Nacional viria a ser proibido após a tentativa gorada de
321 - Avelino de Sousa, O Fado e os seus Censores, p. 52.
140 implantação da República de 31 de Janeiro de 1891, no Porto. Mas o trauma nacional, a humilhação popular, o descontentamento com a alegada passividade do soberano não cessaram, bem como o ódio aos ingleses, associados, afinal, a corsários e negreiros que o poeta republicano Abílio Guerra Junqueiro (1850-1923) zurziria no seu Finis Patriae e na Canção do Ódio, musicada por Miguel Ângelo Pereira, e, depois, no poema Pátria. E o fado? Não teve nada a cantar sobre tudo isto? Muito estranho seria se tal acontecesse…
Destruir a monarquia Haver no mundo igualdade, São dois pontos sublimes Por que pugna a sociedade.
De que serve à pátria o rei, Toda a imbecil nobreza, Que p’la força da riqueza E p’la posição são a lei? O poder que ao vil darei À desordem e à anarquia, A vileza e a tirania. Tudo isso deve acabar, Cumpre ao povo sem esperar, Destruir a monarquia.
(…)
Reis, príncipes e rainhas, Duques, marqueses, barões, Medalhas, comendas, brasões, D’estado régias gracinhas; Oh Povo, que isto tinhas, Eras um réu de vis crimes, Domaste-te como os vimes, A tal caterva singular, Porque o roubar e o matar São dois pontos sublimes.
O rei vive ocioso,
C’roado de louro e carvalho. À sombra só do Trabalho, Do pobre laborioso; Descei do trono ditoso, Ó germen da ociosidade! O povo é rei, e há-de Não cessar contra a súplica, Dando vivas à república
141 Por que pugna a sociedade. 323
Mas há que recuar desta etapa já finissecular do nosso século XIX, verdadeiro maná para artistas plásticos da caricatura como Rafael Bordalo Pinheiro, para que não fiquem na sombra figuras importantes à contextualização de um período tão cheio de dificuldades como de promessas e esperanças num futuro melhor, mas igualmente gerador de dúvidas e desilusões. Muitas vezes se ignoram, por terem caído em injusto esquecimento, nomes de peso não apenas nas nossas letras, mas também na análise das condições de vida dos socialmente mais desfavorecidos, sobretudo a nível urbano, ou seja, precisamente os grandes cultores, inspiradores e consumidores da trova lisboeta, que, paulatinamente, continuará a angariar adeptos apaixonados e detractores impenitentes em todo o País. Entre os nomes mais representativos dessa corrente de literatura com traços de abordagem social e psicológica de pessoas e problemas, que se reparte entre um romantismo final e um naturalismo-realismo declarado — e levando em linha de conta o relevo já dado no capítulo anterior a Júlio César Machado — urge que abordemos, pelo menos, Júlio Lourenço Pinto, Teixeira de Queirós, Abel Botelho e o já atrás citado Alfredo Gallis, se bem que noutra perspectiva.
Antes de uma breve apresentação dessas figuras, sentindo que ficam por mencionar muitas outras, torna-se imperioso analisar a evolução verificada no pensamento e convicções de um dos vultos mais importantes do século, Eça de Queirós, patente aliás na sua primeira obra póstuma, A Cidade e as Serras (1901). Este antigo inimigo declarado do fado, que, depois, na idade madura, reconhecerá como um dos seus elementos identitários de português,324 duvidará claramente, nesse romance satírico, se a máquina e a razão — a modernidade personificada na urbe, afinal —, poderão significar a felicidade prometida pelos avanços da ciência. Vejamos esta cena passada no assombroso 202 dos Campos Elísios, espécie de Nautilus ancorado no coração de Paris, embora as maravilhas técnicas descritas por Eça nada devessem à imaginação e fossem já realidade à época:
(…) Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre, começara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho de Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto: — Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone? — Certamente, meu senhor. Excelente! Muito chique! Ele ficara com pena
323- João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 5.ª edição, 2003, pp. 220-
222.
142 de não ouvir a Gilberte numa cançoneta nova, as Casquettes. Onze e meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no último acto da Revista Eléctrica...(…) Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se apressaram a acercar submissamente um «receptor» do ouvido, e a permanecer imóveis para saborear Les Casquettes. E no salão cor-de-rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silêncio augusto, só eu fiquei desligado do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso. (…) E o meu pobre Jacinto, numa aplicação conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre uma sepultura. Então, ante aqueles seres de superior civilização, sorvendo num silêncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos canos das fezes, — pensei na minha aldeia adormecida. (…) E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais através das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas... Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem das sombras. Era o Grão-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros: — Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que maçada !... Pois é uma beleza, a cançoneta:
Oh les casquettes, Oh les casque-e-e-tes!...
(…) Os escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma desconsolação risonha: — Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo! (…) No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!... — Para quê, meu caro senhor? Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis faiscaram: — Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de Civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!...Que belo fim de ceia, num fim de século! E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de Chateau- Yquem, declarou que hoje a única emoção, verdadeiramente fina, seria aniquilar a Civilização. (…) E como, do outro lado, o moço de penugem loura insistia pela destruição do velho mundo, também concordei, e, sorvendo Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilização, todos os orgulhos da Ciência! (…) Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em que os
143 olhos se me cerravam, murmurei para o meu Príncipe: — Foi divertido, Jacinto!(…) E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:— Uma maçada! E tudo falha!325 Datado de 1893, o texto do escritor intitulado Positivismo e Idealismo326 já deixava antever uma profunda desilusão em relação à época, um cepticismo irreversível mesmo quanto à
escola que escolhera:
(…) Em literatura, estamos assistindo ao descrédito do naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio do naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de D’Artagnan. No teatro, além de uma recrudescência de fidelidade à tragédia clássica (Racine é definitivamente deus), e de uma renovação no gosto pelo drama romântico (Hernâni retomou posse dos corações), vemos com espanto a multidão culta correr ao melodrama de 1830 (…) Em poesia,(…) A voga voa toda para o rutilante Herédia, que nos canta luxuosamente os heróis e os semideuses, ou para os simbolistas que, com bocados esfumados de verbo e farrapos indecisos de sentimento, nos arranjam um desses nevoeiros poéticos, onde as almas agora têm a paixão de se aninhar e de esconder da vida. (…)327
Não deixará de afigurar-se curioso, porventura, relembrar aqui algumas frases que um pensador francês, Roland Barthes, escreveria muitos anos depois, quanto mais não seja para aquilatar da capacidade de intuição do nosso mestre realista:
A multiplicação das escritas é um facto moderno que obriga o escritor a uma escolha, faz da forma uma norma de conduta e provoca uma ética da escrita. A todas as dimensões que desenhava a criação literária, junta-se agora uma nova profundidade, constituindo a forma só por si uma espécie de mecanismo parasitário da função intelectual. A escrita moderna é um verdadeiro organismo independente que cresce em torno do acto literário, decora-o com um valor estranho à sua intenção, empenha-o continuamente num modo de existência duplo, e sobrepõe ao conteúdo das palavras, signos opacos que têm em si próprios uma história, um compromisso ou uma redenção
secundárias, de forma que à situação do pensamento, se cola um destino suplementar, por vezes divergente, sempre difícil de conciliar, da forma. (…) as antigas categorias literárias, despidas nos melhores casos do respectivo conteúdo tradicional, que exprimia
325 - Idem, A Cidade e as Serras, Porto, Lello e Irmão, s/d, , p.70 e ss. 326 - Idem, Notas Contemporâneas, Lisboa, Livros do Brasil, s/d. 327 - Idem, ibidem, pp. 188 e ss.
144 uma essência intemporal do homem, não exprimem mais, finalmente, que por uma forma específica, uma ordem de natureza léxica ou sintáctica, resumindo, uma linguagem: é a escrita que absorve a partir de então toda a identidade literária de uma obra. (…) uma obra-prima moderna é impossível, estando o escritor colocado pela sua escrita numa contradição insolúvel: ou o objecto da obra é ingenuamente entregue às convenções da forma, e a literatura fica surda em relação à nossa História presente, e não se ultrapassa o mito literário; ou então o escritor reconhece a imensa frescura do mundo actual, mas, para a transmitir, dispõe apenas de uma linguagem esplêndida e morta; perante a sua página ainda em branco, na altura de escolher as palavras que devem assinalar de forma clara o seu lugar na História e testemunhar que ele assume esses dados verificados, nota uma disparidade trágica entre o que ele faz e o que ele vê; sob os seus olhos, o mundo da cidadania forma agora uma verdadeira Natureza, e essa Natureza fala, elabora linguagens vivas das quais o escritor está excluído: isto enquanto a História coloca entre os seus dedos um instrumento decorativo e comprometedor, uma escrita que ele herdou de uma História anterior e diferente, da qual não é responsável, e que, no entanto, é a única que pode utilizar.(…)328
Ainda in Positivismo e Idealismo, Eça de Queirós aborda a situação nas artes plásticas, tema que também lhe é caro:
Nas artes plásticas, a reacção contra o naturalismo e o pleno ar é decisiva. Sobre a exacta, luminosa, sã e suculenta pintura da escola francesa vai-se espalhando, e cada vez