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O conceito de alfabetização já passou por várias modificações ao longo da história30 em nosso país, o que possibilita diferentes compreensões. O próprio Censo Demográfico do nosso país já sofreu várias alterações no conceito de alfabetização. Até 1940, a pessoa alfabetizada era aquela que declarava saber ler e escrever e assinava o próprio nome. A partir de 1950, passou a ser considerado alfabetizado aquele que declarava ser capaz de ler e escrever um texto simples (SCHAWARTZ, 2010), porém conceitos ainda muito limitados ao considerar a alfabetização um processo complexo e contínuo.

Saber ler e escrever seu próprio nome ou um texto simples caracterizava um conceito de alfabetização limitado e mecânico. Vivemos em uma sociedade que exige que estejamos o tempo todo dialogando com vários tipos de informação. Homens e mulheres precisam mais do que escrever seu próprio nome, precisam viver constantemente no processo dinâmico de leitura e escrita, vivenciando uma aprendizagem que não pode ser interrompida, mas uma aprendizagem ao longo da vida. Soares (2004) lembra que o processo de alfabetização, numa perspectiva contínua, é uma das condições essenciais para que as práticas sociais sejam desenvolvidas com sucesso:

É verdade que, de certa forma, a aprendizagem da língua materna, quer escrita, quer oral, é um processo permanente, nunca interrompido. Entretanto, é preciso diferenciar um processo de aquisição da língua (oral e escrita) de um processo de desenvolvimento da língua (oral e escrita); esse último é que, sem dúvida, nunca se interrompe (SOARES, 2004, p. 20).

O processo de alfabetização deve ser uma etapa inicial da aquisição da leitura e da escrita, mas também um processo permanente, que deve ser desenvolvido nos anos seguintes a essa etapa inicial. Por isso os alunos egressos do PBA devem continuar seus estudos na modalidade da EJA e as práticas pedagógicas atentas a essa necessidade de processo permanente e ininterrupto. Essa distinção (aquisição x desenvolvimento da escrita), articulada com a realidade social do aprendiz (aprendizagem significativa), é uma condição sinequa non para o processo contínuo do PBA. Nesse sentido, há de se considerar a alfabetização um processo contínuo. Com esse olhar, Freire recorda o sentido da alfabetização:

Só assim a alfabetização cobra sentido. É a consequência de uma reflexão que o homem começa a fazer sobre sua própria capacidade de refletir. Sobre sua posição no mundo. Sobre o mundo mesmo. Sobre seu trabalho. Sobre seu poder de transformar o mundo. Sobre o encontro das consciências. Reflexão sobre a própria alfabetização, que deixa assim de ser algo externo do homem, para ser dele mesmo. Para sair de dentro de si, em relação com o mundo, com uma criação. Só assim nos parece válido o trabalho de alfabetização, em que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que o homem, embora analfabeto, descobrindo a relatividade da ignorância e da sabedoria, retira um dos fundamentos para sua manipulação pelas falsas elites. Só assim a alfabetização tem sentido (FREIRE, 1979 b, p. 117).

Percebemos, nas palavras de Freire, que se alfabetizar é mais do que aprender técnicas (decodificar e codificar). É preciso vivenciar uma alfabetização que promova uma tomada de consciência do homem com o mundo, ou seja, que se “reconheça a alfabetização como um continuum” (CONFINTEA VI, 2010, p. 08), considerando-a uma necessidade para todas as pessoas viverem melhor no mundo:

É indiscutível o fato de que a alfabetização é uma necessidade para todos os indivíduos que integram sociedades modernas, provendo-lhes meios de desempenhar várias atividades associadas ao trabalho ou ao âmbito doméstico, meios de melhorar o exercício efetivo de direitos e responsabilidades de cidadania. O valor do acesso à leitura e à escrita reside também no fato de serem meios para se aprenderem outras habilidades, ampliando a autonomia das pessoas com relação ao autoaprendizado e à educação continuada (RIBEIRO, 1997, p.150).

Estar na condição de alfabetizado, para corresponder às demandas sociais, afetivas e cognitivas, é ferramenta necessária para aprender outras habilidades e viver uma relação mais harmoniosa com o mundo. Porém, a escola deve ser um espaço que conheça e reconheça as necessidades de vida dos alunos jovens e adultos, criando uma aproximação com o que tem a oferecer com o conhecimento formal e as expectativas e os ritmos dos alunos em aprender novos conhecimentos:

Esse movimento dinâmico é um dos aspectos centrais, para mim, do processo de alfabetização. Daí que sempre tenha insistido em que as palavras com que organizar o programa da alfabetização deveriam vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador (FREIRE, 2009, p.13).

Freire concebe a alfabetização significativa comoaquela que carrega, em sua prática educativa, os saberes de vida dos alunos. Assim, a escola precisa oferecer ao aluno jovem, ao adulto e ao idoso um espaço de aprendizagem de sentido, posto que o educando da EJA chega à escola com um largo conhecimento de mundo, mas necessita do conhecimento escolar para dar conta das demandas sociais e profissionais:

Dificilmente jovens e adultos pouco ou não escolarizados crescem em ambiente familiar letrado. Em geral sua percepção dos propósitos da leitura, escrita e matemática acontece em práticas de letramento que ocorrem fora da escola – letramento social, onde o interesse ou necessidade de leitura e escrita surge em circunstância da vida social ou profissional (MOLLICA; LEAL, 2006, p. 01).

Para que se efetive um alfabetização permanente e se considere o que o aluno já sabe,é preciso reconhecer que ele comporta um conjunto de motivações extrínsecas e intrínsecas, que precisam estar no movimento dinâmico e diário de estímulo:

Sempre estamos motivados para alguma coisa. A motivação é o motor da ação. O que ocorre é que, muitas vezes, os sujeitos não são motivados pelos mesmos motivos, com o mesmo envolvimento, nem para a mesmo direção. Para isto é preciso que professores e alunos tenham um objetivo comum: ensinar e aprender a ler e escrever. E essa meta precisa ser (re) construída na ação, no dia a dia (SCHAWARTZ, 2010, p. 20).

Fica evidente que os indícios para as possíveis motivações do educando devem estar articulados entre ensinar e aprender. É preciso “dançar a mesma dança”. Nesse sentido, as ações voltadas para a alfabetização e a maneira como o professor planeja e desenvolve as aulas podem promover um clima motivacional que propicie a aprendizagem e, ao mesmo tempo, atenda aos motivos de cada aluno, quanto a estar em sala de aula. Como educadora, no processo de alfabetização, acredito que alfabetizar é criar condições e possibilidades para que o aluno (jovem, adulto ou idoso) consiga a autonomia de ler e de escrever, através do conhecimentoescolar,com novas possibilidades de viver melhor a partir do conhecimento de mundo que já detém.

Podemos dizer que os motivos dos alunos que estão no processo de escolarização perpassam, como ponto de partida, por necessidades objetivas (pegar um ônibus, ler a Bíblia e outros), que envolvem, ao mesmo tempo, necessidades subjetivas - de aumentar a autonomia, especialmente quanto a transitar pelo mundo. A característica que homens e mulheres têm, por se constituírem seres sociais, motiva-os aadquirir novos conhecimentos, para conviver com as relações pertencentes aos grupos sociais em que vivem. Assim sendo, os alunos buscam a escola para ir além dos saberes de vida já adquiridos no cotidiano. Procuram uma aprendizagem que potencialize as habilidades sociais, a fim de se adequar, com mais desenvoltura, ao meio social. Assim, a “aprendizagem social” (POZO, 2002) é também motivo de os alunos prosseguirem nos estudos. Para isso, o cotidiano escolar precisa estar recheado de motivações:

Como aprender implica mudar, e a maior parte das mudanças em nossa memória precisa de certa quantidade de prática, aprender, principalmente de modo explícito ou deliberado, supõe um esforço que requer altas doses de motivação, no sentido mais literal ou etimológico de “mover-se para” a aprendizagem (POZO,2002, p. 138).

Aprender implica mudanças que, muitas vezes, o aluno, isolado, não consegue buscar. Daí a importância de o professor investigar os motivos de cada um estar estudando para tentar motivá-lo, promovendo (ou não) a aprendizagem e atendendo às suas necessidades objetivas e subjetivas. É mover-se constantemente em busca de motivos que superem os obstáculos diários.

O que atrai os alunos em busca dos conhecimentos formais para vencer obstáculos que o cotidiano apresenta de forma é a motivação. É como uma planta que precisa de água para sobreviver. Para que isso ocorra, é necessário escutar do aluno suas buscas, expectativas, seus medos e desejos, a fim de compreender os motivos que os levam a continuar estudando. Só assim, pode tentar ajudar a ampliá-las. Ficou evidente, nos estudos das dissertações e das teses, analisados anteriormente, com pesquisas em todas as regiões do país, que ainda é preciso valorizar o papel dos educandos no processo de continuidade e escolarização na EJA. As investigações para compreender vários aspectos da EJA ainda estão concentradas nas decisões políticas e educacionais e no papel docente. O lugar dos educandos, no processo de escolarização, precisa ganhar mais espaço para se entender o movimento que ocorre na EJA, suas possibilidades e limites.