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5 Conclusions and policy implications

Ao ingressar na estrutura dos partidos e organizações então clandestinos, as mulheres também enfrentaram situações adversas de gênero. Ou eram destinadas às tarefas mais simples, como cuidar da manutenção dos ‘aparelhos’, servir como estafetas, dentre outras, ou tinham que provar possuir qualidades consideradas masculinas, como coragem e resistência física, além de ter uma disponibilidade de horário, que, muitas vezes, implicava não poderem cuidar adequadamente de seus próprios filhos, e/ou de outros familiares. Como afirma Liège Rocha, uma das entrevistadas para este trabalho,

“Naquela situação, em plena clandestinidade, sob o jugo da repressão, não havia tempo para pensar nas diferenças. Todos éramos ‘iguais’, mesmo que isso implicasse mais dificuldades para as mulheres.”

Por outro lado, as organizações e partidos de esquerda também tinham dificuldades em assimilar as mudanças que ocorriam na sociedade quanto aos papéis sociais até

então desempenhados por mulheres e quanto aos costumes, como comenta Loreta Valadares:

“Decerto que por esta época não tinha nenhuma consciência formada sobre o papel da mulher na sociedade, nem muito menos sobre a questão das relações de gênero. Havia, sim, um sentimento difuso de que, para a mulher, tudo era mais difícil, as restrições eram maiores, os espaços reduzidos. Na militância, passo a perceber também um tipo de ‘discriminação’ sutil, refletida principalmente em certa postura crítica sobre vestuário e costumes sociais, certamente imbuída de uma visão romântica e idealista de ‘revolucionários’, que acreditam ser necessário, para ‘fazer a revolução’, vestir roupas desenxabidas e pouco elegantes. Sentia que achavam que eu, por gostar de me pintar, andar bem vestida e inovar na moda, não seria uma boa revolucionária, não seguiria em frente no processo!! A vida mostrou ser isso diferente: não só engajei-me de corpo e alma na luta revolucionária, como me adaptei às exigências das tarefas propostas e às mudanças de costumes e hábitos, sem nunca, no entanto, deixar de gostar de me pintar, usar coisas bonitas (quando podia), cuidar do corpo e dos cabelos. A mulher não precisa ‘renegar’ as características de gênero para ser revolucionária.”

Por outro lado, diante das perseguições, prisões e torturas, a palavra de ordem era sobreviver. Não havia clima para refletir sobre as mudanças, muito menos para assimilá-las. A ex-presa política Carmela Pezutti também dá seu depoimento:

“A situação era tão terrível, as forças dominantes não tinham limites na sua brutalidade quase absoluta, que não nos sobrava tempo para esse tipo de análise. Somente quem a viveu, sentiu a solidão, o terror, a clandestinidade, sem um minuto sequer para refletir pessoalmente, pois tínhamos que seguir em frente, esperando, a cada momento, chegar nossa vez de enfrentar a morte.”

Os ritos de passagem de simpatizante para militante das organizações eram ‘relâmpagos’, levando em conta, principalmente, o desejo do jovem aspirante de engrossar as fileiras daqueles que sonhavam com a revolução. A avaliação dos novos militantes girava em torno de qualidades demonstradas nas passeatas, nas greves e manifestações de resistência. Para as mulheres, a relação era mais complicada. Relata Eleonora Menicucci de Oliveira67:

67 OLIVEIRA, Eleonora Menicucci de. Reconstruindo práticas de liberdade. In FREIRE, Alípio

et allii (orgs.). Tiradentes, um presídio da ditadura – Memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione Cultural, ano.

“No caso das mulheres o rito de passagem dava-se quase sempre via o ‘aceite” de um dos companheiros da organização. Nós, mulheres, ocupávamos as ruas nas passeatas em número igual aos dos homens. Estiveram nas guerrilhas urbanas e rurais e até nos comandos de organizações, mas a um preço alto: assumir a postura dominante de direção, reproduzindo a relação de hierarquia de poder, transformando-se em ‘militantes impessoais’ ou presas ao modelo do macho, do forte, do corajoso e do frio.”

As organizações de esquerda, embora defendendo um programa político revolucionário, adotavam freqüentemente, no que diz respeito às mulheres, uma postura conservadora. Muitas mulheres, por outro lado, ingressaram na militância achando que deveriam ter um comportamento considerado como ‘masculino’, ou seja, agressivo, propositivo. Em alguns casos, queriam até assemelhar-se fisicamente a eles, como destaca Eleonora:

“Quando veio o golpe, eu tinha passado em Ciências Sociais e Medicina, e tive uma dúvida sobre o que fazer. Consegui levar as duas durante dois anos, mas eu me envolvi de tal maneira no movimento estudantil (ME), que fui presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Filosofia, fui da diretoria do DCE, fui da primeira diretoria da UNE, de Minas Gerais, que foi eleita diretamente junto com José Luiz Moreira Guedes e eu, representando o partido. E, na época, eu era uma das poucas mulheres que punha a cabeça a prêmio e saía em cargo de direção, era uma disputa ferrenha, até dentro do partido, até na disputa com a antiga AP (Ação Popular), que dominava o ME, porque era mulher. E fiz tudo (cortar o cabelo curto, me vestia como homem), o que o imaginário conservador e moralista da esquerda daquela época dizia que os homens que fariam.

Eu brigava com a política, falava em todos os comícios, era uma pessoa determinante nas articulações, discutia de igual para igual. Mas, mesmo assim, era muito difícil, eu nunca cheguei a ser presidente da UEE.”

Se era difícil ingressar nos partidos, ainda mais difícil era chegar aos postos de direção. Embora chamando-se entre si de ‘companheiros’, homens e mulheres tiveram enormes dificuldades de viver esse companheirismo, defendido nos discursos e programas, que pregavam a igualdade de gênero.Vera Silvia Magalhães, única mulher no Comitê Central da Dissidência da Guanabara (racha do PCB), que ficou famosa pela participação no seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick, afirmou a respeito:

“Para nós, mulheres, a militância era uma faca de dois gumes: era uma forma de afirmação social e era também uma vivência de confusão entre a recusa à dominação e o reconhecimento das diferenças. A tentativa de uma troca igual, quase sempre, dava em uma troca desigual. Chamávamos nossos namorados de companheiros e essa palavra significava tudo que desejávamos. Mesmo que nem eles nem nós tivéssemos conseguido realizar o companheirismo e muitas frustrações tivessem se acumulado”.68

As esposas dos dirigentes constituíam, num certo sentido, uma categoria à parte. Para garantir que seus maridos não fossem expostos nem ficassem mais vulneráveis à repressão, elas eram, freqüentemente, afastadas da militância, encarregadas de tarefas de pequeno porte ou de garantir a sobrevivência da família. Ediria Amazonas, esposa do dirigente do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas, afirmou a respeito disso:

“Eu não acompanhava nada. Não sabia o que estava acontecendo. Naquela época, você sabe, a disciplina era muito rígida. As mulheres dos dirigentes não participavam politicamente, a não ser com coisas pequenas, como levar algum material, algum recado. Desde que ficamos juntos eu me afastei da militância. Durante muitos anos, eu morei aqui, na Brigadeiro Luiz Antonio, ali perto do Tribunal da Justiça Militar. E ninguém sabia... Isso para não facilitar a repressão. Não sei se você sabe do caso do Guilhardini69. Ele foi preso, porque foi visitar o

filho doente. Não foi fácil. Foi uma vida sacrificada. Mas nós vencemos tudo.”

Poucas mulheres chegaram a participar das direções partidárias. As que conseguiram chegar lá, como Vera Silvia Magalhães, Dulce Maia e Guiomar Lopes, dentre outras, eram, em geral, solteiras, ou não tinham filhos, ou deixavam os filhos sob os cuidados dos avós ou de outros membros da família.

68 MAGALHÃES, Vera Silvia. Artigo inédito escrito em co-autoria com Yedda Botelho

Chaves. Apud CARVALHO, Luis Maklouf. Estas mulheres foram à luta armada. Revista Marie Claire no 1996 (43-49).

69 Carlos Guilhardini, dirigente do PCdoB, foi preso ao sair da clandestinidade para visitar o