Através da peça histórica A vida e morte do rei Ricardo II, podemos afirmar que Shakespeare retrata a tragédia dos Dois Corpos do rei, confrontando esse fundamento jurídico-teológico com a realidade política moderna marcada pela luta, conquista e manutenção do poder. “É uma obra que permite apanhar a dimensão política expressa na produção shakespeariana, valorizando não apenas as suas características internas, mas também algumas formulações de Maquiavel” (CHAIA, 2007, p. 77). Esse drama revela o entendimento de Shakespeare acerca dessa teoria medieval e confronta com o pensamento moderno de que é necessário para o rei ter também o poder temporal, ou melhor, a virtù e zelar pela sua própria defesa. É uma leitura similar a de Maquiavel: isso está ligado ao cuidado maior do Príncipe na busca da manutenção de seu Estado.
Shakespeare possibilita que a política tenha acesso ao avesso da racionalidade e, ao ser clarificado por Maquiavel, repõe esta possibilidade sob uma ótica realista, que supõe tanto a existência de mecanismos próprios a política, quanto a defesa de uma posição pessoal; no caso, a defesa da monarquia legítima (CHAIA, 2007, p. 75).
Ao lado de Maquiavel, Shakespeare cria um “espaço de encontro entre política e vida, cujo pano de fundo é a presença constante da tragédia. Uma visão de Shakespeare, clarificada pela leitura de Maquiavel, une arte e política, homem e poder, assim como caos e controle, vida e morte (CHAIA, 2007, p. 77).
Shakespeare expõe, exaustivamente, ao longo da sucessão dos atos e cenas, a concepção dos Dois Corpos do Rei – o divino e o terreno – e a forma como se dá a separação do corpo imortal, perfeito e imutável, para o corpo mortal, imperfeito e mutável. Nessa tragédia, a face humana do rei prevalece sobre a divina. Isso porque a condição humana sobressai em relação ao caráter divino.
E reitera Heliodora (1978) e Kantorowicz (1998), a peça Ricardo II é a grande representação da teoria do divino dos reis em Shakespeare. A caracterização do rei e a forma como é construída e encadeada todo o contexto dramático é fruto da expressão de uma posição pessoal do autor, de pesquisa em fontes históricas e, principalmente, da observação de seu tempo histórico. “O que vemos aqui é uma espantosa demonstração do domínio técnico de um poeta dramático sobre o material usado e as funções que tal maneira devem preencher na obra de arte” (HELIODORA, 1978, p. 126).
As categorias analíticas são centrais neste capítulo para abordar o desenrolar das ações do rei Ricardo II. A análise interna da peça Ricardo II realiza-se sob os parâmetros dados pelas estruturas dramáticas: situações/cenas, personagens, diálogos e solilóquios, com objetivo de apanhar as relações de poder e os jogos de forças políticas que se manifestam através da conspiração, a resistência do rei por meio da manifestação da doutrina dos dois corpos do rei e a usurpação que ocorrem na peça. A prática política fornece as três categorias necessárias para articular a análise interna e, também, para pontuar os três momentos recortados para efeitos de estudos: conspiração, resistência e queda do poder.
A cena que envolve o jardineiro acompanhado dos dois criados serve para elucidar como Shakespeare nos Dramas Históricos investiga as qualidades dos governantes e coloca em conflito homens digladiando-se pelo poder, ou seja, é uma avaliação das virtudes e defeitos públicos e privados dos reis. A cena do jardineiro e os dois criados chama atenção pela riqueza de informações e conselhos políticos de como o governante pode manter-se no poder. “É como se poeta tivesse aí apurado o seu conhecimento, aprofundado a compreensão da política e assimilado o fundamental de Maquiavel para apresentar um painel realista da ilha política” (CHAIA, 2007, p. 77).
Vale ressaltar que, de acordo com Chevalier e Gheerbrant (2000), o jardim é um símbolo do Paraíso terrestre, do Cosmo que ele é o centro, do Paraíso celeste, de que é a
representação, dos estados espirituais, que correspondem às vivências paradisíacas. Sabe-se que o Paraíso terrestre do Gênesis era um jardim, sabe-se que Adão cultivava o jardim.
A imagem do Estado como um jardim bem cuidado era amplamente divulgado na época elisabetana em que os paralelos eram comuns: se o rei cuidasse bem do reino como um bom jardineiro cuida de seu jardim, a harmonia e a ordem social prevaleceria. Caso não o fizesse, o caos e a guerra civil tomariam conta da nação.
Analisemos o então diálogo entre o jardineiro e os dois criados, partindo do pressuposto que o jardim o qual eles cuidam refere-se ao reino da Inglaterra.
O jardineiro dialoga com os criados:
“Vai, ata aí esses damascos ao dependuro, que são como os filhos rebeldes que fazem o pai vergar-se, cedendo ao seu peso bruto, e arranja um suporte para os galhos que pendem” (SHAKESPEARE, 2002, p. 10). 51
Shakespeare toca essa temática com simplicidade e forte simbolismo. Mas sua alusão não é ligada somente ao filho rebelde em relação ao pai (poder paterno), também do cidadão que é uma ameaça ao Estado (poder político). Os filhos e os cidadãos podem se tornar um “grande peso” aos pais ou ao Estado, se não forem obedientes e disciplinados. A autoridade do pai ou do Estado deve fazer valer desde a infância ou desde o princípio da conquista dos direitos políticos por esse cidadão. Fazer valer a ordem na sociedade é ação prioritária do governante. “O espaço da política contém desafios e tensões constantes para todos os homens em qualquer época, superando antigas concepções que imprimiam estabilidade ou coerência à política” (CHAIA, 2007, p. 73).
Mais adiante, nesse mesmo diálogo, relaciona-se à formação pedagógica das crianças e adolescentes na construção de uma cidadania, ou mesmo no que tange aos cidadãos ambiciosos, sedentos de poder, individualistas e pouco preocupados com o bem comum. O jardineiro continua expondo sua tese:
“E tu, como o carrasco, vai e corta a cabeça aos rebentos que crescem demasiado depressa, pois tornam-se arrogantes demais nestes domínios: ao nosso mando, tudo tem de ficar nivelado” (SHAKESPEARE, 2002, p. 101-102).
Isso significa, pois, se os pais ou o Estado tem a obrigação, num primeiro momento, de proteger e educar; num segundo momento, deve punir seus filhos e cidadãos, caso estes, não obedecerem às regras e normas impostas para eles.
E o jardineiro alerta, severamente, sobre isso:
51 Todas as citações da peça Ricardo II são apresentadas com grifo nosso. Ricardo II. Tradução de Filomena Vasconcelos. 1. Ed. Porto: Campo das Letras, 2002. Todas as citações referem-se a essa edição.
“Entretanto, irei eu arrancar as ervas daninhas que roubam, sem qualquer proveito, a fertilidade do solo às flores mais perfeitas” (SHAKESPEARE, 2002, p. 102).
Esse tom ameaçador dito pelo jardineiro retrata bem que “ervas daninhas” prejudicam o solo e, ainda mais, não permitem que “flores mais perfeitas” cresçam. Ou seja, os maus cidadãos ou políticos (corruptos) causam prejuízo à nação, e, ao mesmo tempo, não permitem que outros cidadãos ou políticos, bem intencionados, cresçam e possam ajudar o país. O jardineiro explicita que a corrupção contamina e se prolifera como uma epidemia, deixando parte da população enferma. “A tragédia política perpassa também os príncipes, os governantes: quase sempre homens e poder que estão próximos dificilmente se ajustam” (CHAIA,2007, p. 88).
Dessa forma, o criado responde:
Porque havemos nós, no espaço desta cerca, De manter o equilíbrio da ordem e da forma, Para dar o exemplo de um reino estável, Se o nosso jardim cercado de mar, todo o reino, Está cheio de ervas, as flores mais belas sufocadas, As árvores de fruto por podar, sebes desfeitas, Canteiros desordenados, e as hortas
Pululam de lagartas?
(SHAKESPEARE, 2002, p. 102).
O criado questiona metaforicamente o jardineiro: se o reino está uma desordem por causa do rei: “cheio de ervas, as flores mais belas sufocadas, as árvores de frutos por podar, sebes desfeitas, canteiros desordenados, e as hortas pululam de lagartas”; porque nós – homens do povo – devemos manter em ordem e forma um jardim? Ou seja, nada pode ser feito e mudado. O exemplo deveria vir de cima para baixo, numa verticalidade de poder, ou seja, do príncipe exige-se um modelo a ser seguido. “Deve ele fazer com que seus atos se reconheça a grandeza, a coragem, a gravidade e a fortaleza” (MAQUIAVEL, 1999, p. 113).
O jardineiro replica, pedindo para o criado se calar e ouvi-lo: Cala-te....
Quem permitiu esta primavera desenfreada Deparou agora com a queda da folha. As ervas, que as suas folhas abrigavam, E que, ao devorá-lo, pareciam sustentá-lo, São agora arrancadas pela raiz por Bolingbroke... Estou a falar do conde de Wiltshire, Bushy e Greene. (SHAKESPEARE, 2002, p. 102).
Essa passagem revela que as “ervas daninhas’’ são os três nobres oportunistas e bajuladores – Wiltshire, Bushy e Greene - e que foram mortos e “arrancados pela raiz” por Bolingbroke. As folhas simbolizam a força da majestade de Ricardo. Elas - as folhas - abrigavam as ervas daninhas que o devoravam – sem ele perceber – mas, que para ele, o rei – erroneamente - pareciam sustentá-lo no poder.
O criado é pego de surpresa com a morte dos três nobres contada pelo jardineiro que prossegue:
Estão; e para Bolingbroke
Já apanhou o rei esbanjador. Oh, que pena Ele não ter aparado e arranjado este país Como nós este jardim! Chegada a estação, Golpeamos a casca, a pele das árvores de fruto, Receando que, na fartura de tanta seiva, Elas se possam estragar por excesso de viço; Se ele assim tivesse feito aos homens poderosos, Inda estes viveriam para lhe dar a provar Os frutos da obediência. Cortamos os supérfluos Para que possam viver os ramos que dão fruto; Assim ele tivesse agido, inda sua era a coroa Que horas de perdição deitaram por terra. (SHAKESPEARE, 2002, p. 103).
O jardineiro confirma a morte dos nobres e afirma que o rei Ricardo II – esbanjador – já está nas mãos de Bolingbroke; lamenta a falta de capacidade de governar do rei e principalmente, de enfraquecer os nobres poderosos a sua volta; e deve exigir obediência e lealdade a sua autoridade. “Digo que todos os homens, em particular os príncipes, por se encontrar mais no alto, ganham notabilidade pelas qualidades que lhes proporcionam reprovação ou louvor” (MAQUIAVEL, 1999, p. 100).
O jardineiro admite que a culpa do golpe político de Bolingbroke é mesmo de Ricardo. Na opinião política do jardineiro, Ricardo é deposto por cometer sucessivos erros, porque um competente governante tem que tirar o poder dos nobres ambiciosos antes que eles se tornem perigosos. Como não percebe o perigo a sua volta, é vítima das armadilhas do poder. “Em Shakespeare, como em Maquiavel, o poder está sempre atraindo os homens – na maior parte das vezes para uma armadilha” (CHAIA, 2007, p. 85).
Recordemos que no primeiro capítulo, discutimos as dificuldades do governo de Elisabeth. Ela esteve frequentemente diante de vários e dificultosos desafios: na escolha dos pretendentes; na delicada morte de Mary Stuart; contra a temível e invencível Armada; e por
fim, a rebelião do temível conde de Essex. A Inglaterra elisabetana, nesse sentido, esteve sempre às portas da guerra civil.
O cenário de conflito interminável, durante o governo de Elisabeth, suscitou em Shakespeare impulsos poéticos para compor a peça Ricardo II.
Em Ricardo II, Shakespeare teve que fazer um casamento de conveniência entre os fatos da sociedade medieval, que chegaram a ele através das fontes, e a devoção Tudor à realeza. Essa devoção considerava que o governo, centralizado por um soberano, era a forma que estava mais de acordo com a natureza humana e com a vontade de Deus. É bem verdade que nenhum soberano inglês, exceto Henrique VIII, teve o poder ilimitado que era bastante comum no continente nessa época e por muitos séculos depois. Mas, mesmo assim, o rei ou a rainha que estavam no poder eram sagrados e “ungidos por Deus” e, qualquer rebelião contra o soberano era considerada blasfêmia, sacrilégio e alta traição. A expressão “ungido por Deus” vem da Bíblia. A palavra hebraica “Messias”, que significa “aquele que foi ungido”, se refere, no Antigo Testamento, ao rei, legitimamente consagrado, inclusive ao rejeitado rei Saul. O equivalente grego de “Messias” é “Cristo”. Jesus Cristo era considerado o rei do mundo espiritual, e os reis legítimos no mundo material eram seus dirigentes. Se acontecia de um rei legítimo se tornar um tirano corrupto, isso era, em última análise, culpa dos súditos e não dele. Então, eles teriam que ser punidos por seus pecados (FRYE, 1999, p. 76).
Na peça, a imagem curiosa do rei nascido gêmeo, não apenas com grandeza, mas também com natureza humana, amplia o jargão legal que não se restringe apenas aos arcanos da guilda jurídica, pois seria muito estranho para um autor que, praticamente, dominava todo o jargão do ofício humano, “ignorar a fala constitucional e judicial que o circundava e que os juristas do seu tempo empregavam de modo tão prolífico no tribunal” (KANTOROWICZ, 1998, p.34).
E, realmente, esse conceito jurídico não pode ser separado de Shakespeare; ele compreendeu bem a teoria do direito divino dos reis, que era discutida pelos juristas na era Tudor, principalmente no governo de Elisabeth; além disso, representou, por meio da arte teatral, essa ideia da dualidade, do lado humano e do lado divino do rei, de modo sublime e delicado. “Para Shakespeare, a arte encontra sentido na política à medida em que esta dilui na vida” (CHAIA, 2007, p. 87). Shakespeare, dessa maneira, contribui com a história das ideias, especialmente aquilo que se refere aos domínios pertencentes à ciência política. “A política deve ser recuperada para melhor desvendar os segredos do homem e da sociedade” (CHAIA, 2007, p. 87).
Vale reforçar que Shakespeare – como autor renascentista, resgatando a tradição greco-romana - durante a sua infância, adolescência, juventude e fase adulta teve uma formação humanista que possibilitava esse entendimento.
Vimos no segundo capítulo, desse presente estudo, que Shakespeare deve ter estudado na King´s New School: seus professores eram formados em Oxford, e o horário das aulas eram das seis horas da manhã até as seis horas da tarde; seis dias por semana, todas as semanas do ano, exceto os dias santos de guarda – férias era um conceito inexistente para o aluno elisabetano. O currículo escolar da escola elementar privilegiava o latim. Dessa forma, aos sete anos de idade, Shakespeare era obrigado a ler diversas antologias e com ajuda de dicionários, a traduzir trechos da Bíblia de Genebra.
Nas séries mais avançadas, retórica e lógica eram disciplinas obrigatórias, e nesse sentido, provavelmente, o bardo dramaturgo leu Cícero, Susebroto, Quintiliano, Vírgilio, Horácio e Ovídio. Vale ressaltar que, além de conhecedor do latim, ele exerceu durante a sua vida, inúmeros ofícios que auxiliavam na construção de seus personagens e os diálogos entre homens do povo.
Alguns biógrafos (HALLIDAY, 1990; GOMES, 2007) afirmam que William Shakespeare, quando ainda estava em Stratford, trabalhou com algum advogado da região, onde adquiriu conhecimentos jurídicos. Além de que durante a sua vida, pela perseguição que seu pai sofreu, e ele mesmo, passou a ter um razoável conhecimento dessa área, pelos contatos com diversos advogados, e assimilando os termos técnicos do ramo com o gosto de um escrito nato.
Em se tratando de um escritor, curioso e sedento de saberes, além de se sentir responsável por representar fielmente a realidade histórica, mesmo utilizando de recursos e para fins dramáticos, como no caso do rei Ricardo II, foi a fundo pesquisar fontes históricas confiáveis e dialogar com seus pares, dramaturgos, formados em sua maioria na Faculdade de Direito, sobre essa controversa e instigante “geminação” do rei.
Também vale ressaltar, conforme Heliodora (1978) que Shakespeare ao escrever
Ricardo II, já morava em Londres há vários anos, era um autor consagrado e tivera contato
com uma extensa gama de pensamentos e práticas da política inglesa do século XVI. Além das amizades com os jovens formados em uma ou outra das Universidades inglesas.
Segundo opinião geral, pouca diferença faria saber se as sutilezas do discurso jurídico eram ou não familiares a Shakespeare. A concepção do poeta sobre a natureza gêmea do rei não depende de amparo constitucional, uma vez que tal concepção brotaria muito naturalmente de um estrato puramente humano. Pode parecer fútil, portanto, a mera colocação da questão sobre se Shakespeare empregava algum jargão profissional dos juristas de seu tempo, ou tentar determinar a matriz da cunhagem de Shakespeare. Tudo isso parece muito trivial e irrelevante, uma vez que a imagem da natureza geminada do rei, ou mesmo do homem geral, era uma das concepções mais genuinamente shakespearianas. Apesar disso, se o poeta tivesse casualmente se deparado com as definições jurídicas da realeza, o que,
provavelmente, teria acontecido ao conversar com amigos na escola de direito, é fácil imaginar o quanto lhe teria parecido pertinente o símile dos Dois Corpos do Rei. Seja como for, a essência viva de sua arte era revelar os diversos planos em atuação no ser humano, colocá-los uns contra os outros, confundi-los ou mantê-los em equilíbrio, tudo em função do padrão de vida que ele tinha em mente e desejava recriar (KANTOROWICZ, 1998, p. 34).
Observa-se ainda que na peça Henrique V, escrita em 1599, quatro anos após a tragédia de Ricardo II, Shakespeare amadurece e fortalece essa discussão dos Dois Corpos do rei. Nela, o rei Henrique V, antes da decisiva batalha que pode implicar em sua morte, medita sobre a deidade e a humanidade de um rei; ao lamentar a dupla condição de um rei, imediatamente, associa essa imagem ao rei Ricardo II.
O rei Henrique V, diferentemente de Ricardo II, tem consciência plena dessa dualidade. Antes da brutal Batalha de Azincourt, em solo francês, sabe que o rei, em seu corpo natural, é como qualquer homem – sentimentos de alegria, comoção, medo, arrependimento e frustração. Por outro lado, carrega um fardo tão pesado, em seu corpo político, - responsabilidades e deveres com o Estado e a sociedade - que qualquer homem não é capaz de possuí-lo ou de desejá-lo. “A política pode ser uma atividade construtora ou devastadora, atingindo príncipes e súditos” (CHAIA, 2007, p. 86).
Refletindo sobre seu destino de rei, sobre a dupla natureza do ser rei, o Henrique V de Shakespeare tende a evocar seu Ricardo II, o qual – pelo menos no conceito do poeta – manifesta-se como o protótipo daquela “espécie de deus que sofre, muito mais do que os seus adoradores, a condição humana” (KANTOROWICZ, 1998, p. 35).
Mas em que circunstância, em qual ou quais situações, esse poder vindo de Deus, pode ser questionado, confrontado, e, dessa maneira, o rei pode ser destronado? Essa questão está intimamente ligada ao diálogo do jardineiro com os dois criados no jardim do duque de York, como tratamos na página 123, 124, 125, 126. Mas, também em outras cenas que iremos destacar ao longo dessa análise. Porém, essa cena do jardim é peculiar na peça e serviu para iniciarmos nossa análise para revelar as razões do rei Ricardo II ter perdido o poder. O jardineiro licita de maneira eficiente os motivos pelos quais Ricardo não deve continuar governando.
Pois bem, Shakespeare apresenta uma peça de uma usurpação plenamente justificada, no qual o usurpador não age por ambição pessoal e, sim, por uma incontestável dedicação ao bem comum, baseada na necessidade política de preservar o Estado, ante as consequências de um mau governo: marcado por graves erros, desmandos e vacilações.
A forma como Shakespeare apresenta essa situação - um rei legítimo pode ser cruel e ainda permanecer rei, mas, se for fraco ou incompetente como Ricardo II, criará um espaço de forte oposição ao seu poder na sociedade - sugere que a ordem cosmológica e a vontade de Deus exigem um governante forte e centralizador. Deus colocou à frente do Estado o rei para representá-lo na Terra e se fazer obedecer por todos para o bem comum.
Então, cria-se um terrível dilema entre um impotente rei de jure e um poder de facto que, certamente, surgirá em algum outro lugar. Esse é o tema central de Ricardo II. Ricardo era conhecido, por seus contemporâneos, como “Ricardo”, o Inaconselhável”, isto é, um rei que não aceitava bons conselhos, e Shakespeare mostra-o, ignorando os conselhos de João de Gaunt e de York. Seu reinado de vinte anos foi marcado por muitos erros e opressões que Shakespeare não precisa exibir em detalhe (FRYE, 1999, p. 77).