A permanência estudantil apresenta-se, em diversas teorias e modelos teóricos, com expressões de sentido semelhante, tais como a persistência e a retenção do estudante no ensino superior, e está associada à integração do estudante no ambiente social e institucional. O fator da integração é visto como elemento estratégico para a prevenção e a retenção de estudantes e, também, está relacionado ao nível de comprometimento e às metas dos estudantes e da instituição para manterem-se matriculados.
Nesse sentido, a permanência do estudante no ensino superior tem sido um tema bastante discutido nas instituições, e Tinto (1975) descreve que manter o estudante matriculado é fator estratégico, mas que ainda isso é tratado de maneira limitada. Para o autor, os esforços para manter o estudante na universidade ainda são menores do que deveriam ser.
34 Simone Miguez Cunha - Mestre em Psicologia social; Denise Madruga Carrilho - Psicóloga pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Baseado na teoria de Durkheim (1951)35, que relaciona a falta de integração social com o suicídio, Tinto (1975) propôs a Teoria da Integração do Estudante. O autor explica, por meio de seus estudos, que a falta de integração e o baixo comprometimento estudantil são fatores que levam à desvinculação do estudante, ou seja, o estudante que demonstra desinteresse social com o ambiente acadêmico tem menos intenção de persistir nos estudos. Para o autor, é possível que uma pessoa integre-se socialmente sem integrar-se academicamente.
Tinto também considera a existência de forças externas à instituição que podem estar associadas ao abandono por parte do estudante. O autor ainda afirma que, para alguns estudantes é fundamental que permaneçam conectados às suas comunidades passadas, melhorando as chances de persistência. (TINTO, 2015).
Na teoria de Tinto (1975), os atributos pré-ingresso – c background familiar,
habilidades e competências pessoais, e escolaridade prévia – são a entrada para o
desenvolvimento das intenções, metas e comprometimento, que se integram às experiências do estudante no sistema acadêmico (formal) e no sistema social (informal), interagindo, assim, com as experiências institucionais. A qualidade do esforço estudantil e o foco na aprendizagem surgem como indicadores dessas relações, apresentando, como resultado, a persistência.
A figura a seguir mostra as relações estabelecidas nos sistemas acadêmico e social, da Teoria da Integração Social e Acadêmica (TINTO, 1975).
35 Emile Durkheim (1951) elaborou teoria sobre a relação entre o suicídio e os fatores sociais. O interesse do estudo estava voltado às taxas de suicídio, às variações nas taxas de um país para outro (França, Dinamarca e Inglaterra, em 1989), e não à personalidade do indivíduo. A pesquisa sugeriu que o suicídio, apesar de ser um ato solitário, estava ligado à vida em grupo. Por fim, a teoria explica como o comportamento individual pode ser entendido no âmbito social. (SCHAEFER, Ricard T. Fundamentos de sociologia [recurso eletrônico]. 6 ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. E-Pub.).
Figura 4 – Teoria da Integração Social e Acadêmica – Tinto (1975)
Fonte: TINTO; 1975 in SCHMITT, 2016, p.62. Traduzido e adaptado por SCHMITT, 2016.
O envolvimento (social e acadêmico) do estudante está diretamente ligado às experiências Institucionais, ao esforço e à aprendizagem. Nesse sentido, “o envolvimento ativo parece ser a chave”36. A aprendizagem é a condição mais importante para a retenção e permanência do estudante: “Estudante que aprende é estudante que fica”37. (TINTO, 1999, tradução minha).
Nessa lógica, o autor confirma que estudantes ativamente envolvidos em tarefas extraclasse e/ou que passam mais tempo envolvidos com outras pessoas da comunidade acadêmica estão mais propensos a aprender e, por sua vez, a permanecerem, em razão de sentirem-se como parte da instituição. (TINTO, 1999).
Tinto, em sua teoria, encaminha o modo como o sistema acadêmico deve movimentar-se para receber, adaptar e integrar o estudante, promovendo o sucesso desses ingressantes; dessa forma, o autor legitima o papel da instituição, afirmando que “uma vez que uma instituição admite um estudante, é obrigada a fornecer, da melhor maneira possível, o suporte necessário para traduzir a oportunidade de acesso ao sucesso38”. (TINTO, 2014, tradução minha).
36 Tradução de “Active involvement seems to be the key”. TINTO, Vincent. Taking Retention Seriously: Rethinking the First Year of College. NACADA Journal. 19 (2), pp. 5–10. 1999.
37 Tradução de “Students who learn are students who stay”. TINTO, Vincent. Taking Retention Seriously: Rethinking the First Year of College. NACADA Journal. 19 (2), pp. 5–10. 1999.
38 Tradução de “once an institution admits a student, it becomes obligated to provide, as best it can, the support needed to translate the opportunity access provides to success.” TINTO, Vincent.
A partir dessa reflexão, é possível perceber a similaridade entre a realidade vivenciada nos países do exterior pelos estudantes e pelas universidades e a realidade brasileira. As questões referentes às possibilidades de acesso e aos fatores relacionados ao bem-estar e à permanência do estudante são assuntos que preocupam frequentemente as Instituições de Ensino Superior.
Resgatando Felicetti e Morosini (2009, p. 21), que defendem que “a equidade no ensino superior não se refere somente ao acesso, mas também à permanência com qualidade”, cabe enfatizar o papel ativo e responsável das Instituições de Ensino Superior, que devem desenvolver práticas educacionais que vão além das possibilidades de acesso, para ações que oportunizem melhores condições de permanência para os estudantes, principalmente no primeiro ano. Retomando Rosário et al. (2010), os autores afirmam que, neste primeiro ano, as taxas de abandono e reprovação são mais elevadas, uma vez que muitos estudantes chegam à universidade sem hábitos de estudo e de trabalho adequados às novas exigências. Baseados no princípio de que os fatores externos à Instituição de Ensino Superior podem resultar no abandono ou na permanência do estudante, Bean e Metzner (1985) estabeleceram o Modelo do Atrito (ou Conflito) Estudantil e Fatores
Ambientais. O modelo mostra que fatores econômicos, financeiros e sociais podem
influenciar a possibilidade de abandonar ou de persistir, por parte do estudante. A teoria foi desenvolvida com base em quatro variáveis: background (idade, quantidade de créditos em que o estudante está matriculado, local de residência, metas educacionais, desempenho escolar prévio, etnia e gênero); acadêmicas (hábitos de estudo, suporte e aconselhamento acadêmico, absenteísmo, segurança, avaliação do Curso); ambientais (finanças, quantidade de horas dedicadas ao trabalho, apoio familiar e de amigos, nível de responsabilidade familiar, oportunidade para transferência para outra IES); e resultados psicológicos (percepção de utilidade e importância dos estudos, nível de satisfação, comprometimento com as metas e nível de estresse). A interação e a relação entre as variáveis e a interferência dos fatores podem determinar a intenção de abandonar ou de persistir. Para compor a identidade do modelo teórico, os autores definiram o conceito de estudante não tradicional:
reflective practice: Tinto’s South Africa lectures. Journal of Student Affairs in Africa | Volume 2(2)
[...] podem ser diferenciados em função da idade, residência e dedicação parcial ou integral ao trabalho, para não mencionar etnia, gênero ou condição socioeconômica, enquanto formas de diferenciar os estudantes no século passado. (BEAN; METZNER, 1985, p. 488).
Aprimorando os estudos teóricos, Bean e Eaton (2001) avançaram nas pesquisas, e, a partir das características pessoais dos estudantes (background) e das variáveis acadêmicas (passado escolar, hábitos de estudo), com ênfase nos processos psicológicos e comportamentais no ambiente acadêmico e em processos desenvolvidos em sala de aula, o Modelo da Retenção Estudantil – Processos
Psicológicos foi proposto. A condição de persistir seria influenciada pelos processos
de interações ambientais, pelos processos psicológicos, pelos resultados psicológicos, pelos resultados intermediários e também pelas atitudes e intenções.
O modelo do Atrito (Conflito) Estudantil e Fatores Ambientais, a definição de “estudante não tradicional” e o Modelo da Retenção Estudantil fazem certa referência ao estudo de Zluhan e Raitz (2014), no que se refere ao entendimento das autoras, ao considerarem a existência de um novo estudante no ensino superior. Esse estudante é ainda jovem e precisa adequar-se às condições econômicas e sociais, à necessidade de conciliar os estudos e à alta carga horária de trabalho, ou seja, cada vez mais cedo, assume o “status de adulto”. Além disso, identificaram que os ingressantes carregam consigo o baixo desempenho escolar que tiveram no ensino médio. Tinto (2015) chama a atenção para os esforços dedicados na transição para o ensino superior e no ano de ingresso, fortemente nas relações entre estudantes e instituição. Reforça a importância do desenvolvimento de práticas de sala de aula para melhorar as condições e os esforços de permanência do estudante e, ainda, aponta que, se o envolvimento não ocorrer na sala de aula, local em que os estudantes se encontram, é improvável que ocorrerá em outro lugar.
Diante disso, a satisfação em relação aos estudos acadêmicos tende a ser menor, e a importância maior é dada ao trabalho, fonte do orçamento familiar, aumentando as chances de abandono, em detrimento dos fatores externos à instituição. O primeiro ano na universidade é crítico para o estudante, e as decisões sobre permanecer ou desistir serão acionadas e influenciadas por diversos fatores dentro do sistema educacional.
Astin (1975) também se baseou nos fatores pessoais como elementos preditivos para a retenção. Por meio da Teoria do Envolvimento Estudantil, o autor
definiu o desempenho acadêmico e escolar; as aspirações e expectativas sobre a
educação superior; os hábitos de estudo; a escolaridade familiar; e o estado civil,
como fatores preditivos para retenção dos estudantes. Tais achados deram origem ao Modelo IEO (Inputs, Environments, Outcomes): Entrada (caraterísticas pessoais, desempenho pré-ingresso, metas e intenções; Ambiente (interação e envolvimento na instituição); e Resultados (desenvolvimento do estudante, percepções quanto aos resultados), que possibilitou ao autor, definir que os estudantes que se sentirem como membros da instituição teriam maiores intenções de persistir. (ASTIN, 1984; 1985).
A teoria de Astin (1975) corrobora com as demais teorias apresentadas; caracteriza o envolvimento e a participação estudantil como essência para a persistência e sucesso do estudante e evidencia que, para as Instituições poderem melhorar seus índices de retenção e estimular a permanência, é preciso que o nível e a qualidade da participação dos estudantes sejam ampliados nas atividades acadêmicas, intensificando seu envolvimento nelas. (ASTIN, 1975; 1984; 1985).
Outros modelos teóricos complementam os estudos sobre a persistência estudantil no ensino superior. Os autores Ernest Pascarella e colaboradores e Alberto Cabrera, Amaury Nora e Maria Castañeda realizaram trabalhos considerando aspectos comuns aos estudos de Vincent Tinto.
Pascarella (1991) propôs o Modelo dos Contatos Informais no Ambiente
Acadêmico, um estudo baseado, principalmente, na compreensão dos contatos informais entre professores e estudantes, como fator importante e influenciador para
a persistência estudantil. De acordo com o autor, o background dos estudantes afeta o ambiente da instituição, modificando os níveis de contato informal, e esses elementos, juntos, conduzem aos resultados educacionais que determinam a decisão de persistir ou não.
O referido Modelo revela a importância de introduzir políticas e práticas educacionais que promovam a interação entre professores e estudantes, em atividades extraclasse, como influenciador da persistência estudantil.
Contribuindo, Tinto (2015) argumenta que a promoção da persistência depende de uma série de políticas institucionais e que algumas referem-se especificamente às relações e às experiências em sala de aula. Essas políticas devem abordar questões de currículo, pedagogia e habilidades na tarefa de educar.
Numa mesma perspectiva de explicar as influências para a persistência estudantil, o Modelo Integrado de Retenção Estudantil de Cabrera, Nora, Castañeda e Hengstler (1993) apontou, a partir da análise de aspectos comuns nas teorias de Vincent Tinto e de John Bean, que os processos acadêmicos estariam associados à evasão ou à persistência do estudante. A estrutura fatorial do modelo integrado estava baseada na influência dos seguintes fatores: encorajamento da família e amigos, atitudes financeiras, integração acadêmica, integração social, desempenho, comprometimento institucional, comprometimento com as metas e intenção de persistir.
As teorias apresentam modelos que pretendem explicar as causas da saída do estudante e, também, exploram alternativas para um processo complexo, que é de reter os estudantes em diferentes contextos. O que fica em evidência, em todos os modelos, é a importância do envolvimento do estudante, considerando todas as variações do ambiente e os diferentes perfis de estudantes e em diferentes configurações de instituições.
No sentido de ilustrar as teorias e os modelos estudados, o quadro a seguir apresenta uma síntese das principais características dessas bases teóricas.
Quadro 7 – Teorias sobre a Persistência Estudantil TEORIA/ MODELO Teoria da Integração Social e Acadêmica - Vincent Tinto Modelo do Atrito Estudantil e Fatores Ambientais - John Bean e colaboradores Teoria do Envolvimento Estudantil – Alexander Astin Modelo dos contatos informais no ambiente acadêmico - Ernest Pascarella e colaboradores Modelo Integrado da Retenção Estudantil –
Alberto Cabrera, Amaury Nora e Maria Castañeda
AUTORES/ COLAB. Vincent Tinto (TINTO, 1975; 1987; 1993; 1997; 2004; 2012).
John P. Bean (BEAN, 1980); Barbara S. Metzner (BEAN; METZNER, 1985); Shevawn B. Eaton (BEAN; EATON, 2000, 2001). Alexander Astin (ASTIN, 1975; 1977; 1984; 1985; 1993). Ernest Pascarella (PASCARELLA, 1991); Patrick Terenzini (PASCARELLA; TERENZINI, 1978; 1980; 1991).
Alberto Cabrera, Amaury Nora, Maria B. Castañeda,
(CABRERA, NORA, CASTAÑEDA, 1992). BASES TEÓRICAS Teoria do suicídio de Durkheim: o suicídio estaria mais propenso a ocorrer quando os níveis de integração social fossem baixos. Aspectos de natureza externa, do ambiente no qual o estudante vive, e aspectos psicológicos para compreender a permanência e a evasão. Modelo baseado em fatores pessoais como preditivos para
a retenção.
Modelo baseado nos estudos prévios de
Tinto (1975).
Modelo baseado nos aspectos comuns presentes na Teoria de Tinto (1975; 1987; 1993) e no Modelo de Bean (1983). ATRIBUTOS/ VARIÁVEIS OU FATORES Características pré-ingresso; metas e comprometimento; integração acadêmica. Background; variáveis acadêmicas; variáveis ambientais; resultados psicológicos; variáveis de integração social. Fatores pessoais/ entradas; fatores ambientais/ ambiente; resultados. Fatores Institucionais; background; nível de contato informal; outras experiências; resultados educacionais.
Fatores: família e amigos; atitudes financeiras; integração acadêmica e social; desempenho; comprometimento institucional com as metas; intenção de persistir.
AMBIENTE Sistema acadêmico: educação formal; sistema social: relações de vida e pessoais. Estudantes não tradicionais. Modelo da Retenção Estudantil. Modelo I-E-O: Entrada, Ambiente e Resultados. Modelo baseado no contato informal no ambiente acadêmico. Modelo da Integração Acadêmica. PRINCIPAIS ASPECTOS O envolvimento (social e acadêmico) do estudante está diretamente ligado às experiências institucionais (fatores Institucionais) e de aprendizagem. O envolvimento ativo é a chave. Os fatores externos à instituição podem acarretar no abandono ou na permanência do estudante. A decisão do estudante de abandonar os estudos universitários é influenciada por fatores não cognitivos, como atitudes e intenções comportamentais, e por fatores ambientais, como o apoio da família e de amigos. Quanto mais envolvidos estiverem os estudantes na vida acadêmica e social da instituição, maior a probabilidade da persistência. A quantidade de energia física e psicológica investida por um estudante em sua experiência acadêmica influencia diretamente na sua decisão de abandonar ou permanecer. A importância dos contatos informais (fora da sala de aula), especialmente entre professores e estudantes, como elemento de influência na persistência estudantil. Existe uma relação entre a
frequência dos contatos informais e
a qualidade desses contatos com a decisão de persistir.
O conjunto dos fatores se possuem relação com a intenção de persistir. O modelo destaca quatro variáveis importantes na
permanência do estudante no Curso, tais
como: capacidade financeira (variável econômica), desempenho de notas, compromisso com a instituição e compromisso com o objetivo.
RESULTADO PERSISTÊNCIA PERSISTÊNCIA OU
ABANONO PERSISTÊNCIA
PERSISTÊNCIA OU
ABANONO PERSISTÊNCIA
Fonte: elaborado pela autora (2018).
Os modelos apresentam as características pré-ingresso, metas e compromissos do estudante como entradas e são determinantes para os
ajustamentos que ocorrem na trajetória acadêmica, como efeito, e, a partir da integração com as forças do ambiente (social e acadêmico, interno ou externo), as experiências e o envolvimento do estudante tendem a modificar-se, gerando novos resultados que podem ter como possibilidade o abandono ou a persistência.
Tinto (2006) destaca que, a partir da década de 1970, as teorias sobre a retenção de estudantes contribuíram para uma melhor compreensão dos fatores que promovem a persistência do estudante no ensino superior. As mudanças, ao logo do tempo, ocorreram na forma de compreender a relação entre os estudantes, a sociedade e as Instituições.
Portanto, o envolvimento do estudante no primeiro ano de ingresso da universidade é considerado um período crítico, pois ele não formou ou não fortaleceu vínculos com colegas e professores, e o nível de afinidade ou de interesse pela instituição ainda é muito baixo. Ainda é preciso explorar formas de fazer esse envolvimento acontecer, pois a maioria das instituições ainda não conseguiu interpretar a relação entre a integração do estudante e a persistência, nem colocar esse conhecimento em prática. As Instituições precisam transformar a oportunidade de acesso em sucesso estudantil.
À luz das teorias sobre a persistência do estudante no ensino superior, encaminho o próximo assunto, que enfoca o engajamento do estudante no ensino superior, especialmente no primeiro ano de ingresso. O estudo apresentado aqui é baseado na literatura internacional, mas desenvolve significados e contribuições para os estudos brasileiros que também discutem a permanência do estudante no ensino superior.