Para iniciarmos esse tópico, é essencial que aclaremos a respeito do que já é implícito, todavia, ainda não foi assumido: esta é uma pesquisa de caráter qualitativo. Por isso, prezamos por abordagens e procedimentos referentes a esse tipo de pesquisa.
Sendo assim, é importante trazer a lume que a pesquisa realizada nas ciências humanas e sociais, revelou um olhar mais amplo, quando, alguns cientistas passaram a questionar o “modelo estático” de realização dos estudos dessa área, ou seja, durante um longo período, havia um padrão no tipo de pesquisa, referente ao modelo quantitativo, experimental. O referido questionamento, sem desmerecer o outro tipo de pesquisa, acrescentava que um olhar ontológico sobre os fenômenos estudados, possibilitaria outros resultados. Resumidamente, foi desse modo, que passou-se a considerar o tipo de pesquisa qualitativa.
Chizzotti (1991), ao nos situar nesse contexto esclarece que essas “novas” pesquisas, surgem quebrando um olhar padronizado e hegemônico, que não permitia visualizar o que estava socialmente implícito. Dar abertura para a pesquisa qualitativa é permitir o desembaraço da complexidade:
Nas ciências humanas e sociais, a hegemonia das pesquisas positivas, que privilegiavam a busca da estabilidade constante dos fenômenos humanos, a estrutura fixa das relações e a ordem permanente dos vínculos sociais, foi questionada pelas pesquisas que se empenharam em mostrar a complexidade e as contradições de fenômenos singulares, a imprevisibilidade e a originalidade criadora das relações interpessoais e sociais. Partindo de fenômenos aparentemente simples de fatos singulares, essas novas pesquisas valorizaram aspectos qualitativos dos fenômenos, expuseram a complexidade da vida humana e evidenciaram significados ignorados da vida social. (p. 78)
Ainda na mesma obra, o autor destaca um ponto interessante ao explanar acerca de aspectos que fundamentam a pesquisa qualitativa, pois, observa que para esse tipo de
estudo, é essencial que se compreenda que o sujeito e o objeto são elementos não estáticos, e carregados de significações e, destarte, em movimento. Por essa razão, optar por esse tipo de pesquisa, é saber que:
A abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O conhecimento não se reduz a um rol de dados isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito – observador é parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado. O objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas ações. (CHIZZOTTI, 1991, p. 79) Compreendendo isto, algumas considerações a respeito da postura do pesquisador perante o sujeito e o objeto, devem ser verificadas. Pois, para Chizzotti (1991), tratando- se de abordagem qualitativa, a figura do investigador é essencial e deve ser executada de forma aprimorada.
O pesquisador é parte fundamental da pesquisa qualitativa. Ele deve, preliminarmente, despojar-se de preconceitos, predisposições para assumir uma atitude aberta a todas as manifestações que observa, sem adiantar explicações nem conduzir-se pelas aparências imediatas, a fim de alcançar uma compreensão global dos fenômenos. (p. 82)
Ora, desprender-se de preconceitos e demais atitudes e pensamentos afirmados pelo autor é tarefa difícil para aquele que pesquisa, todavia, é fundamental este exercício para, assim, chegar a resposta investigada com a neutralidade desejada perante o objeto. Nesse diapasão, é importante refletir que “ser pesquisador”, exige conhecimento dos requisitos inerentes a esse, e, alguns deles são os acima apontados por Chizzotti (1991).
Prosseguindo nessa linha de pensamento e tendo como foco o cenário de estudo desta dissertação, verifico que para desprender-me dos preconceitos existentes quanto a Terra Firme – sobretudo, fortemente divulgados na mídia - a opção por uma abordagem que instigasse a conhecer a estética de viver na periferia, foi fundamental. Por essa razão, optou-se pela escolha de uma abordagem fenomenológica.
1.2.1. Fenomenologia
As primeiras discussões a respeito da fenomenologia se dão a partir das inquietações do filósofo e matemático Edmund Husserl (1859 – 1938), o qual encontrou na fenomenologia uma forma crítica de pensar, bem como, foi o meio que usou para se
opor aos métodos positivistas e psicologistas, que embasavam as pesquisas durante a sua época.
O termo fenomenologia já havia sido empregado por Johann Lambert, para falar das ciências sobre as aparências, e também por Georg Hegel, em sua ciência sobre a experiência da consciência, sendo que Husserl se baseou em Hegel para cunhar as suas análises.
Ademais, a fenomenologia pode ser entendida como aquilo que se mostra pelos sentidos, ou seja, nesta abordagem se estuda a essência das coisas e como são percebidas pelo mundo. Portanto, pode ser entendida como aquilo que se mostra pelos sentidos. Nesse sentido, os fenomenólogos afirmam que a consciência é um ato intencional e sua essência é a intencionalidade. Assim, como a significação é o correlato da intenção, como colocado por Husserl, “toda consciência, é consciência de alguma coisa”, ou seja, a significação que é dada ao mundo ou a realidade é um correlato intencional da consciência, então, não há pura consciência separada do mundo, visto que o mundo e a realidade existem apenas para um sujeito, o eu, e é ele que lhes dá significado.
Husserl trabalhava com a ideia da subjetividade, propondo a compreensão sobre os fenômenos. Esse fenômeno deve ser compreendido a partir de um objeto, os quais podem ser reais, fantásticos ou ideais. Sendo assim, de acordo com Husserl (1989, p. 68), “no ato de ver o fenômeno puro, o objeto não está fora do conhecimento, fora da consciência, e ao mesmo tempo, está dado no sentido da absoluta autopresentação de algo puramente intuído”. Nesse sentido, a fenomenologia do filósofo, entende o fenômeno como é algo que é dado imediatamente à consciência, que é a própria manifestação da realidade, não sendo considerado seu aspecto subjetivo, não fazendo relação com o ser do qual se percebe o fenômeno, nem a ligação com o fenômeno percebido pelo eu, que é o sujeito da relação.
Sendo assim, Husserl constrói um método subjetivo para se alcançar o mundo objetivo e empírico. A fenomenologia tem como objeto os dados absolutos entendidos por intuição pura. Nesse sentido, no que diz respeito a pesquisa qualitativa, a opção pela reflexão do ponto de vista fenomenológico, dá-se no sentido de guiar o pesquisador quando se tratar de colocar problemas e de destacar conceitos com vistas à elaboração teórica.
A abordagem fenomenológica consiste em mostrar o que é apresentado e esclarecer este fenômeno, seja ele humano ou não. Visto que para a fenomenologia, o objeto é como o sujeito o percebe, destarte, tudo tem que ser estudado como é para o sujeito e sem interferência de qualquer regra de observação, já que tem como finalidade o fenômeno em si, estuda-se, literalmente, o que aparece.
Sendo assim, verificar os aspectos contraditórios da realidade, é fundamental para se entender os fatos, um fenômeno ou um processo. O entendimento da gênese dos processos, não pode ser atingido pela captação de uma suposta essência pura.
Nessa chave interpretativa, Boss (1976, p. 77), afirma que o fazer fenomenólogico deve ser caracterizado pela ênfase ao mundo da vida cotidiana, uma abordagem que não se apega tão somente as coisas factuais e observáveis, mas, visa penetrar no seu significado e no seu contexto. Portanto, a fenomenologia utiliza-se do procedimento que leva a uma compreensão do fenômeno, por meio de relatos descritivos da vida social. E nesse contexto é possível encontrarmos o que Chizzotti acima nos anunciou, a respeito do “ser pesquisador”, visto que, para muitos autores, a fenomenologia não é um método, mas sim uma atitude, a qual exige os desprendimentos de conceitos e definições apriorísticas do ser humano, para compreender o que se mostra, questionando os seus fundamentos.
Embora a fenomenologia seja bastante utilizada na psicologia, o próprio Husserl afirmou que a mesma pode ser utilizada em qualquer área da ciência. No contexto dessa pesquisa, a proposta foi visualizar como os sujeitos enxergam a relação existente com o espaço que ocupam, a Terra Firme, e o Ponto de Memória da Terra Firme.
Partindo dessas premissas, foram utilizadas três técnicas de pesquisa, em momentos distintos. No primeiro, para a análise fenomenológica do bairro, optou-se pelo uso do grupo focal, a fim de que os sujeitos participantes, ao narrarem sobre suas vidas, inevitavelmente falassem a respeito da relação que mantem com o bairro.
No segundo momento, a técnica adotada, foi a entrevista semiestruturada, a fim de tratar as questões diretamente relacionadas ao Programa Ponto de Memória e ao Ponto de Memória da Terra Firme. É importante esclarecer que, por tratar-se de uma pesquisa qualitativa, de abordagem fenomenológica, foi primordial a escolha pela observação participante também.