De acordo com Gatti (2005) a técnica de coleta de dados denominada de Grupo Focal, tem seu desenvolvimento inicial na década de 1920, surgindo, especificamente, no campo dos estudos de marketing, na América do Norte, posteriormente, sendo adaptada para as pesquisas em comunicação. A partir dos anos de 1970, a técnica foi redescoberta e inserida nos estudos do campo das Ciências Sociais e Humanas.
O objetivo das entrevistas realizadas em grupo, denominadas de Grupo Focal, é de disponibilizar de modo coletivo e em forma de uma conversa aberta, as opiniões e compreensões dos professores colaboradores sobre suas concepções sobre a diversidade sexual e as interrelações possíveis com a suas práticas docentes “a fim de avaliar a extensão e o uso de conhecimentos
culturais, socialmente partilhados. dentro de um determinado grupo de pessoas” (PENN, 2002, p. 338).
O Grupo Focal se configura como um debate aberto, formativo, promovendo a interação entre os participantes. É uma técnica que ajuda o pesquisador a compreender como um determinado grupo de pessoas constrói significações e representações culturais a respeito de um determinado tema. Essa técnica propicia um ambiente coletivo de discussões, dissenção e reações a opiniões, temas, representações e questões que são socializadas pelo mediador em um determinado grupo de colaboradores.
Uma das principais vantagens operacionais desse tipo de atividade é a estimulação permanente de emissão e socialização de opiniões no debate que ocorre durante o procedimento de coleta de dados.
O Grupo Focal estimula os colaboradores a se posicionar e “reagir àquilo que as outras pessoas no grupo dizem” (GASKEL, 2002, p. 75). Essa reação frente às opiniões dos coparticipes, evidenciam, ao longo do andamento do Grupo Focal
Uma interação social mais autêntica do que a entrevista em profundidade, um exemplo dessa unidade social mínima em operação, e como tal os sentidos ou representações que emergem são mais influenciados pela natureza social da interação no grupo em vez de se fundamentarem na perspectiva individual, como no caso da entrevista em profundidade (GASKEL, 2002, p. 75).
De acordo com Gatti (2005), Gaskel (2002), Carlini-Cotrim (1996), Tanaka; Melo (2001) o Grupo Focal, além de proporcionar a formação de opiniões coletivas numa interação grupal, conta com a vantagem operacional de ser uma forma rápida, interativa e formativa de coleta de dados. Desse modo existe o reconhecimento da praticidade desse procedimento como forma de coleta de dados (GASKEL, 2002).
Sendo assim a quantidade de entrevistas coletivas necessárias para a formação de um corpus de dados depende de uma série de fatores apontados por Gaskel (2002) da seguinte forma: 1) a natureza do tópico que está sendo abordado, 2) os ambientes de discussão, 3) os recursos disponíveis. Essas variáveis interferem na forma e na quantidade necessária de grupos para a formação de um conjunto de dados. Desse modo é importante se observar que:
há um número limitado de interpelações, ou versões, da realidade. Embora as experiências possam parecer únicas ao indivíduo, as representações de tais experiências não surgem das mentes individuais; em alguma medida, elas são resultado de processos sociais. Neste ponto, representações de um tema de interesse comum, ou de pessoas em um meio social específico são, em parte, compartilhadas. Isto pode ser visto em uma série de entrevistas. As primeiras são cheia de surpresas. As diferenças entre as entrevistas são chocantes e, às vezes, ficamos imaginando se há ali algumas semelhanças. Contudo temas comuns começam a aparecer, e progressivamente sente-se uma confiança crescente na compreensão emergente do fenômeno. A certa altura o pesquisador se dá conta que não apareceram novas surpresas ou percepções (GASKEL, 2002, p. 75)
A esse fenômeno Gaskel denomina de “Saturação de Sentido”. Sendo que essa percepção da recorrência de tópicos comuns pode indicar que o tema foi compreendido e que por isso começa a se tornar repetitivo, deixando transparecer certa homogeneidade, pelo grupo em questão. Isto define a quantidade de entrevistas coletivas necessárias para definição do corpus de dados.
O que pode ser, aparentemente, um prejuízo técnico, do ponto de vista acadêmico, é na verdade, uma vantagem do Grupo Focal, pois permite que a partir de certo volume de dados recolhidos, elementos significativos possam representar as percepções gerais dos colaboradores frente ao tema discutido. Permite, desse modo, que o pesquisador compreenda o espectro das expressões, percepções, crenças, valores, atitudes e representações sociais dos colaboradores frente ao tema de discussão proposto no Grupo Focal.
Nesse sentido, o número de grupos necessários é relativizado ao cenário específico no qual o grupo de colaboradores está inserido. Uma vez debatido o tema no Grupo Focal, qual seja: as relações entre a diversidade sexual e Ensino de Arte, por mais que representasse uma novidade para o grupo em questão, em certa medida, acabava por se tornar repetitivo na condução ao final do processo, permitindo-me avaliar se a saturação de sentido, naquele momento havia ocorrido.
Sobre a condução do Grupo Focal, convém destacar que nessa atividade busca-se potencializar uma ambiência na qual os participantes, além de se disponibilizarem a manifestar suas opiniões, manifestam o interesse de acolher novas ideias e, até mesmo, de mudar de opinião em relação ao tema discutido. Assim “o Grupo Focal é um ambiente mais natural e holístico, onde os participantes levam em consideração os pontos de vista dos outros na formulação de suas respostas e comentam suas próprias experiências e as dos outros” (GASKELL, 2005, p. 76).
Desse modo, na condução do Grupo Focal, o pesquisador atua como um moderador, proporcionando um lócus privilegiado de dinamismo, explorando as falas e opiniões dos participantes, estabelecendo, de modo não diretivo, um debate coletivo, incitando a possibilidade de divergências e discordâncias, concordâncias, conciliações, similitudes, e principalmente assimetrias de opiniões. Portanto,
na condução do grupo focal, é importante o respeito ao princípio da não diretividade, e o facilitador ou moderador da discussão deve cuidar para que o grupo desenvolva a comunicação sem ingerências indevidas da parte dele, como intervenções afirmativas ou negativas, emissão de opiniões particulares, conclusões ou outras formas de intervenção direta. Não se trata, contudo, de uma posição não diretiva absoluta, ou do tipo "laissez-faire", por parte do moderador. Este deverá fazer encaminhamentos quanto ao tema e fazer intervenções que facilitem as trocas, como também procurar manter os objetivos de trabalho. (GATTI, 2005, p. 8-9).
Assim, o pesquisador atua permitindo a fala aberta, flexível e coletiva dos participantes, buscando capturar com mais profundidade os sentimentos comuns que o grupo depreende sobre o tema discutido. Nesse sentido, Gatti (2005, p. 9) afirma que no Grupo Focal “há interesse não somente no que as pessoas pensam e expressam, mas também em como elas pensam e por que pensam”.
Convém ressaltar, que a escolha do método de Grupo Focal, nesta pesquisa, se deu devido à própria dinâmica de trabalho dos colaboradores. Mesmo dispostos em colaborar, na forma de entrevista individual, muitos deles informaram não dispor de tempo, exigindo, da minha parte uma forma alternativa que levasse em consideração a inflexibilidade de horários, assim como o tempo disponibilizado por cada professor para seus estudos individuais e que eram aproveitados nas atividades formativas no CEMEPE.
Refletindo sobre essas orientações a respeito do Grupo Focal realizei quatro sessões de Grupo Focal organizadas do seguinte modo:
Tabela 1: Relação do número de professores colaboradores que participaram do Grupo Focal 1, realizado em 13 de novembro de 2012
Número do professor/a Identificação
1 Professora 1GF1 2 Professora 2GF1 3 Professora 3GF1 4 Professora 4GF1 5 Professor 5GF1 6 Professor 6GF1 7 Professor 7GF1 8 Professor 8GF1 9 Professora 9GF1 10 Professora 10GF1 11 Professora 11GF1
Tabela 2: Relação do número de professores colaboradores que participaram do Grupo Focal 2, realizado em 13 de novembro de 2012
Número do professor/a Identificação
1 Professor 1GF2 2 Professor 2GF2 3 Professora 3GF2 4 Professora 4GF2 5 Professor 5GF2 6 Professor 6GF2
Tabela 3: Relação do número de professores colaboradores que participaram do Grupo Focal 3, realizado em 04 de dezembro de 2012
Número do professor/a Identificação
1 Professora 1GF3 2 Professor 2GF3 3 Professora 3GF3 4 Professora 4GF3 5 Professor 5GF3 6 Professora 6GF3
Tabela 4: Relação do número de professores colaboradores que participaram do Grupo Focal 4, realizado em 04 de dezembro de 2012
Número do professor/a Identificação
1 Professora 1GF4 2 Professor 2GF4 3 Professora 3GF4 4 Professora 4GF4 5 Professor 5GF4 6 Professor 6GF4 7 Professor 6GF4
Ao todo contei com 30 colaboradores, divididos em quatro grupos focais, cuja distribuição encontra-se descrita nas tabelas supracitadas. Como critério de seleção dos colaboradores foi adotado a adesão voluntária, a partir de um convite, realizado com antecedência, aos professores que frequentavam, no ano de 2012, a formação continuada em Arte do CEMEPE.
Foi acordada, entre os participantes, a preservação das suas identidades na versão final da Tese. Portanto, no capítulo onde os dados serão discutidos, utilizo códigos de identificação que se referem à ordem numérica do professor na roda de discussão e o número do Grupo Focal no qual o mesmo participou. Assim, por exemplo, o código Professora nGFx (sendo “n” e “x” indicativos de números e GF, sigla de Grupo Focal) informa que se trata de uma colaboradora que estava disposta na posição “n” na roda de debate relativa ao Grupo Focal “x” realizado numa das datas específicas.
1.2 INTERCONEXÕES ENTRE ENSINO DE ARTE E DIVERSIDADE