Embora qualidade de vida seja de difícil definição, com aspectos profundamente pessoais, os pacientes com problemas de voz frequentemente referem limitações, dificuldades ou até mesmo impedimentos, tanto de natureza física como emocional, social ou profissional, devido à disfonia (Behlau, 2001; Deary et al., 2004; Guimarães e Abberton, 2004).
Segundo Costa Neto, Araújo e Curado (2000), ao estudar a qualidade de vida de 43 pacientes portadores de câncer em cabeça e pescoço, os instrumentos de pesquisa, baseados em medidas objetivas, podem fornecer um direcionamento sobre a manifestação do fenômeno. Além disso, pode tornar conhecido o impacto que a doença e/ou o tratamento causam na rotina dos enfermos. Para esses autores, a entrada da noção de qualidade de vida no contexto da saúde tem sido benéfica por adotar a visão que o enfermo tem de sua própria condição como relevante nos processos decisórios da equipe responsável pelo seu acompanhamento. Desta forma, espera-se que avaliações sistematizadas possam sensibilizar os profissionais de saúde para a importância da qualidade de vida na indicação e no desenvolvimento das ações terapêuticas.
Existem dois principais protocolos, ambos desenvolvidos nos Estados Unidos, que foram elaborados especificamente para avaliar o impacto de uma alteração vocal na qualidade de vida dos indivíduos: Voice handcap index (VHI) e Voice related Quality of life (VR-QOL) (Behlau, 2001).
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Lee Silverman Voice Treatment (LSVTÒ) é um tratamento para DP que tem como objetivo principal melhorar a qualidade de comunicação com um enfoque terapêutico exclusivo em aumento de intensidade vocal.
O VHI foi desenvolvido e validado por Jacobson at al, em 1997. Segundo os autores, apesar de haver métodos que pudessem avaliar a severidade dos distúrbios vocais eles não davam informações sobre porque pacientes com patologias e alterações de voz similares experienciavam diferentes níveis de desvantagem ou mudanças em suas vidas frente ao problema. Assim, com o desenvolvimento e validação do VHI, a intenção era torná-lo um questionário psicométrico consistente para avaliar a desvantagem vocal gerada por uma grande variedade de distúrbios da voz.
Nessa pesquisa de validação do VHI (Jacobson et al., 1997), inicialmente foi aplicado o questionário, na versão preliminar com 85 questões, em 65 indivíduos (28 homens e 40 mulheres), que apresentavam diferentes diagnósticos para as alterações vocais e eram atendidos no Voice Clinic do hospital Henry Ford. A análise visava assegurar e consistência interna e independência de respostas quanto ao sexo, e que as perguntas seriam claras e de fácil entendimento. Após a análise, o questionário foi reduzido para 30 itens na versão final. Nessa versão, os 30 itens foram separados em 10 no domínio funcional, 10 no domínio orgânico e 10 no domínio emocional. O domínio funcional abrange os fatores que estão relacionados à comunicação, o orgânico às alterações na produção da voz e o emocional aos sentimentos gerados.
A versão final foi aplicada em 63 sujeitos que haviam participado da primeira versão (25 homens e 38 mulheres) em dois momentos, com intervalos de 6 a 71 dias. Como resultado o questionário se mostrou fortemente estável no teste- reteste em todos os níveis.
Para analisar a relação entre o VHI e a severidade do distúrbio vocal, os autores solicitaram que os mesmos sujeitos quantificassem sua alteração de
normal a severa. O resultado indicou relação moderadamente forte entre os itens pesquisados. Assim, os autores consideraram o questionário como um bom instrumento para quantificar as conseqüências e/ou desvantagens psicosociais provocadas pelas alterações vocais.
Behlau (2005) traduziu o VHI em índice de desvantagem vocal. Na língua portuguesa o domínio funcional relaciona-se às seguintes perguntas: F1. As pessoas não me escutam por causa da minha voz; F3. As pessoas têm dificuldade de me compreender em locais barulhentos; F5. Minha família tem dificuldade de ouvir quando chamo alguém em casa; F6. Uso menos o telefone do que gostaria por causa da minha voz; F8. Evito grupos de pessoas por causa da minha voz; F11. Falo menos com amigos, vizinhos e parentes por causa da minha voz. F12. As pessoas pedem para eu repetir o que falo; F16. Meu problema de voz limita minha vida pessoal e social; F19. Sou deixado de lado nas conversas por causa da minha voz e F22. Meu problema de voz me causa prejuízos econômicos.
O domínio orgânico relaciona-se às perguntas: O2. Fico sem ar quando falo; O4. Minha voz varia durante o dia; O10. As pessoas perguntam:” O que você tem na voz?”; O13. Minha voz fica rouca e seca; O14. Sinto que tenho que fazer força para a minha voz sair; O17. Não consigo prever quando minha voz vai sair clara; O18. Tento modificar a minha voz, para ver se ela sai diferente; O20. Faço esforço para falar; O21. Minha voz é pior à noite e O26. Minha voz falha no meio da fala.
O domínio emocional relaciona-se às perguntas: E7. Fico tenso quando falo com os outros por causa da minha voz; E9. Os outros parecem se irritar com minha voz; E15. Acho que os outros não entendem o meu problema de voz; E23. Meu problema de voz me irrita; E24. Fiquei menos expansivo por causa da
minha voz; E25. Minha voz me deixa em desvantagem; E27. Fico irritado quando as pessoas me pedem para repetir o que falei; E28. Fico constrangido quando as pessoas me pedem para repetir o que falei; E29. Minha voz me faz sentir incompetente; E30. Tenho vergonha do meu problema de voz.
Apenas um artigo foi encontrado em revistas científicas quanto à relação entre a doença de Parkinson e VHI, assim, buscou-se por resultados desse questionário em outras patologias que também gerem alteração vocal.
Rosen e Murry (2000) estudaram a desvantagem vocal apresentada por cantores profissionais e profissionais da voz falada. Ambos os grupos apresentavam queixas vocais e foram investigaram por meio da aplicação do VHI. Assim, foram incluídos na amostra 106 cantores e 369 profissionais da voz falada. Os resultados indicaram que o VHI do primeiro grupo foi estatisticamente significante menor que os do segundo, o que indicou que os cantores apresentam maior desvantagem vocal. Dentre esse grupo os eruditos tiveram a pontuação mais baixa, mostrando que, frente ao problema vocal, essa população referiu maior desvantagem.
Rosen et al. (2000) investigaram, por meio da aplicação do VHI, as mudanças na percepção dos indivíduos após o tratamento de quatro diferentes alterações vocais: paralisia unilateral, cisto vocal, pólipo vocal e disfonia por tensão músculo-esquelética. Como resultado encontraram que em todas as patologias houve desvantagem vocal maior no pré tratamento, comprovando que esse é um instrumento útil para monitorar a eficácia da reabilitação nas desordens vocais.
De acordo com Guimarães e Abberton (2004), o VHI é reconhecido como um instrumento importante para mensurar as conseqüências dos distúrbios vocais
na qualidade de vida de pacientes disfônicos. Os autores aplicaram esse questionário em 49 sujeitos com queixa vocal e 56 voluntários sem queixas, pareados em idade, sexo, nível educacional e uso ocupacional da voz. Eles obtiveram como resultado estatisticamente significante a pontuação do VHI em todos os domínios (emocional funcional e orgânico) maior do que os sujeitos que não apresentavam queixa vocal. Observaram, com isso, que esse questionário apresentou-se consistente, de boa confiabilidade e correlação entre o julgamento dos pacientes e a severidade da alteração vocal apresentada.
Jotz et al. (2004), ao pesquisar a acurácia do VHI na diferenciação entre o paciente disfônico e o não disfônico, analisou 156 indivíduos com alteração vocal e 144 sem. Concluíram que o VHI é um instrumento adequado para medir os distúrbios d voz, pois mostrou-se confiável na avaliação teste-reteste, com boa correlação entre a alteração vocal e a percepção do indivíduo sobre a gravidade do seu distúrbio.
Blumin, Pcolinsky e Atkins (2004) aplicaram o VHI em 15 pacientes em estágios avançados da DP. Todos estavam no estágio 3,0 da HY ou estágios mais avançados e apresentavam diminuição da loudness, da projeção vocal e inteligibilidade e se mostravam introvertidos socialmente. A pontuação das respostas se deu em números absolutos e, como resultados, os autores encontraram que 64% dos pacientes apresentaram escores acima de 20 pontos e 36% escores acima de 60 pontos. Tal resultado sugeriu que esses pacientes tinham a auto-percepção de que as alterações na voz levaram a significativa desvantagem.
Em oncologia, na área de Cabeça e Pescoço, Barros, Queija e Teruya (2005) encontraram em 15 pacientes portadores de tumores de cabeça e pescoço
desvantagem vocal relacionada à piora da voz dos sujeitos. Todos os pacientes que mencionaram queixas apresentaram piores escores no domínio funcional e no escore global do VHI. Do total, 36% dos pacientes referiram evitar situações de comunicação. Assim, foi observada correlação entre as queixas vocais e o domínio funcional do VHI.
Na pesquisa de Teles, Nagiel e Fukuyama (2005) com oito sujeitos laringectomizados, os resultados demonstraram que pacientes com melhores escores no VHI tiveram a melhor classificação na análise de inteligibilidade de fala pelas fonoaudiólogas juízas, assim como os pacientes com os piores escores foram julgados como pior nível de inteligibilidade. Os piores escores em quatro indivíduos foram no domínio funcional e em três no domínio orgânico. A partir desses dados concluiu-se que o domínio emocional teve bons escores, demonstrando não ser o mais prejudicado para os pacientes laringectomizados. O resultado do questionário VHI veio ao encontro da auto- percepção dos sujeitos em relação às suas vozes e ao julgamento das juízas fonoaudiólogas.