A hipótese central do trabalho se dá com base na teoria da gramaticalização, dentro da qual se pesquisa as formas em que itens lexicais (ou construções já gramaticais) adquirem (novas) funções gramaticais (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 1).
Apesar de, dependendo da linha teórica, os motivos por trás dos mecanismos serem di- ferentes,é costumeiro que os processos de gramaticalização sejam entendidos tendo-se por base o mecanismo da reanálise (BAKER, 2004, p. 2), com trabalhos funcionalistas também fazendo uso do conceito de analogia (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 39). Uma forma simples de entender como funcionam ambos os mecanismos na tipologia funcional pode ser encontrada na história da língua inglesa, com o uso do atual sufixo “–hood”.
2.2.1. Gramaticalização segundo Hopper e Traugott (2003)
No inglês antigo, as palavras “cild” (criança) e “biscop” (bispo) podiam se unir à pala- vra “had” (pessoa, condição, hierarquia), dando origem a junções como cildhad e biscophad. Com o tempo, essas palavras passaram por dois processos de reanálise: (1) Primeiro se enten- deu que as duas palavras eram apenas uma, e depois (2) a segunda palavra (agora vista como sufixo) é reanalisada como um morfema que indica estado abstrato. Por analogia, ela se es- tendeu a outras palavras que – diferentemente de “childhood” (infância) –, não se referem a pessoas, como é o caso de “falsehood” (falsidade), formado por “false” (falso) e o agora sufi- xo “-hood” (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 39-40).
Esses mecanismos levam, por sua vez, a uma série de consequências: a reanálise leva a uma mudança de regras, por via de uma reinterpretação, mas sem mudanças explícitas, en-
quanto a analogia faz com que essas novas regras se estendam a outros contextos, tornando visível essa nova intepretação da estrutura.
Essa extensão a outros contextos tem como resultado um enriquecimento pragmático (no sentido de que uma construção usada apenas em um contexto pode aparecer em mais situ- ações) e, ao mesmo tempo, uma perda semântica: o verbo “ir”, por exemplo, ao se tornar mar- ca de futuro, tem a perda da noção de que existem pontos de referência físicos de origem e destino de movimento para uma visão temporal. Ou seja, “um significado é demovido, e outro é promovido” (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 94).
Através dessas mudanças, significados lexicais tendem a ser abstraídos e generaliza- dos, a ponto de uma palavra passar também por um processo de ‘descategorização’, no senti- do de que, junto com a perda semântica, existe também uma perda morfológica do elemento gramaticalizado, que se torna cada vez menos prototípico de sua categoria (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 106). A tendência é, portanto, que as palavras, no processo de grama- ticalização, sigam esse caminho (havendo perda semântica, morfológica, e mesmo fonológica, a compensar o enriquecimento pragmático, com uso estendido), apesar de existirem contra- exemplos (HOPPER e TRAUGOTT, 2003, p. 132).
Dado o direcionamento desse processo, uma questão fundamental é como os estágios prévios se manifestam, o que torna legítima a questão sobre o surgimento da gramática. É o que vários autores buscam responder, como veremos a seguir.
2.2.2. Gramaticalização em Heine e Kuteva (2007)
Como a gramática surgiu? Tentando responder a essa pergunta, Heine e Kuteva (2007) recorrem à teoria da gramaticalização a fim de explicar como uma gramática pode surgir a partir de um estágio mínimo de desenvolvimento, partindo-se do pressuposto de que a teoria da gramaticalização pode ser usada para reconstruir o surgimento das línguas de forma similar ao que acontece nas línguas modernas – indo do conhecido e complexo ao desconhecido e provavelmente menos complexo (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 24).
Os autores identificam vários caminhos de gramaticalização, partindo dos substantivos, devido ao fato de que, frequentemente, as línguas tratam eventos gramaticalmente como subs- tantivos, seja através de subordinação, negação, ou pronominalização (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 100).
Os caminhos comuns de gramaticalização9 identificados pelos autores são os seguin- tes:
Partindo de substantivos
o Substantivos > Adjetivos
o Substantivos > Marcas de Concordância o Substantivos > Adposições
o Substantivos > Advérbios o Substantivos > Marcas de Caso o Substantivos > Complementadores o Substantivos > Pronomes o Substantivos > Subordinadores Partindo de verbos o Verbos > Adposições o Verbos > Advérbios
o Verbos > Marcas Aspectuais o Verbos > Marcas de Caso o Verbos > Complementadores o Verbos > Demonstrativos o Verbos > Marcas de Negação o Verbos > Subordinadores o Verbos > Marcas de Tempo Partindo de adjetivos / advérbios10
o Advérbios > Aposições o Advérbios > Demonstrativos o Advérbios > Subordinadores o Advérbios > Marcas de Tempo
Partindo de demonstrativos, adposições, marcas de aspecto e marcas de negação11
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Os autores não fornecem números, e tampouco oferecem uma lista exaustiva dos possíveis casos de gramati- calização. Esse é o motivo pelo qual na lista aparece que é comum marcas de negação virem de verbos, mas não de substantivos. Isso porque, apesar de a negação “pas” da língua francesa ser advinda de um substantivo significando “passo” ser bastante citada na literatura, não costuma ser um processo de gramaticalização co- mum em outras línguas (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 77).
10 Os autores reconhecem que acontece de advérbios virem de adjetivos: Seja em latim (verus [verdadeiro] > vero [verdadeiramente, de fato]) ou swahili (-dogo [pequeno] > kidogo [paulatinamente]), mas não possuem dados suficientes para decidir que “adjetivos > advérbios” é um caminho tão comum assim, preferindo deixar os dois numa mesma camada. Outro motivo para tanto é o fato de que, apesar de ser comum que advérbios sejam gramaticalizados, o mesmo não tende a ocorrer com adjetivos (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 83)
o Demonstrativos > Pronomes
o Demonstrativos > Artigos Definidos
o Demonstrativos > Marcas de Oração Relativa o Demonstrativos > Complementadores
o Marcas de Aspecto > Marcas de Tempo o Adposições > Marcas de Caso
o Adposições > Complementadores o Adposições > Subordinadores Outros casos
o Marcadores de Caso > Subordinadores
o Complementadores/ Relativizadores > Subordinadores o Pronomes > Concordância
o Pronomes > Marca de Passivização (Marca de Voz Verbal) o * > Desaparecimento12
Com base nesses caminhos de desenvolvimento, é possível ver que as camadas de gramaticalização existem no sentido em que uma camada anterior tende a dar origem à cama- da seguinte (com o contrário sendo mais raro), dando como resultado um quadro similar ao seguinte:
I Substantivo
II Verbo
III Adjetivo Advérbio
IV Demonstrativo Adposição Aspecto Negação
11
Apesar de os autores também reconhecerem que esses elementos não parecem ser semanticamente relaci- onados, eles têm em comum o fato de serem produtos da gramaticalização das três primeiras camadas, e com exceção das marcas de negação, serem fontes para as camadas seguintes (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 87) 12
É possível que, entre todas as outras possibilidades de generalização no uso de uma construção gramaticali- zada, o material seja simplesmente apagado semântica ou fonologicamente, servindo apenas para marcar classes (como diferenciando classes nominais e verbais) ou mesmo desaparecendo por completo sem deixar qualquer vestígio (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 100).
V Pronome Art. Def. Rel. Compl. Caso Tempo
VI Concordância Passivização Subordinador
Quadro 1. Resumo dos caminhos de gramaticalização, adaptado de Heine e Kuteva (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 111).
Apesar de o foco dos autores ser numa origem hipotética de como se teria dado o de- senvolvimento das línguas, e de nem todos os tipos de palavras e caminhos de gramaticaliza- ção estarem aí (apesar de os autores mencionarem que numerais como o número ‘um’ fre- quentemente se tornarem artigos indefinidos (HEINE e KUTEVA, 2007, p. 46)), a discussão representa os processos de gramaticalização comuns às línguas naturais modernas em geral, com a noção de camadas sendo de grande valia para o presente trabalho.