Foi com a intenção de compreender os modos de inserção realizados por entidades do Movimento Negro no contexto escolar, que optamos por uma abordagem qualitativa. Em pesquisas qualitativas, a consistência pode ser checada por meio de exame detalhado da literatura e comparando os achados ou observações com aqueles da literatura.
9Conforme censo realizado pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Piauí, em 2005, do
universo de estudantes matriculados no Liceu Piauiense, 74,6% do turno diurno e 25,3% são do noturno, 78% são negros ou pardos e 19,6% são brancos (ASSUNÇÃO SILVA, 2006).
Esse tipo de investigação permite aos sujeitos responderem de acordo com sua percepção pessoal, sem estarem presos a questões fechadas, permitindo- nos compreender os comportamentos a partir das perspectivas dos sujeitos da pesquisa. Avaliamos que a pesquisa qualitativa proporcionaria melhores condições de atingirmos as intenções do nosso estudo porque tem o ambiente natural da escola como fonte de dados e não admite visões isoladas, parceladas e estanques (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Ela se desenvolve em interação dinâmica, retroalimentando-se, reformulando-se constantemente, dependendo das outras atividades da pesquisa sendo desenvolvidas.
Na situação atual, o estudo sobre duas entidades do Movimento Negro em instituições de ensino possibilita compreender mais os fenômenos que ocorrem nas mesmas, mas as informações também serviriam para conhecer melhor outras entidades de Movimento Negro e escolas, e a sociedade brasileira em si.
Outro aspecto é que “[...] um princípio básico desse tipo de estudo é que, para uma apreensão mais completa do objeto, é preciso levar em conta o contexto em que ele se situa.” (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 18). A escolha do estudo de caso deu-se em função de entendermos que ele é relevante porque parte do princípio de que o problema a ser investigado é estudado no ambiente em que ocorre, o objeto é uma unidade que se analisa aprofundadamente, verificado nas manifestações cotidianas.
Para isso, a pesquisadora precisou estar em contato direto com a situação onde os fenômenos ocorreram, porque estes são influenciados pelo seu contexto, sendo essas considerações essenciais para que se possa entendê-los, podendo vir a ser um potencial para estudar as questões relacionadas à escola.
1.5.1TÉCNICAS DE COLETA DOS DADOS
Para a coleta de dados, utilizamos as técnicas mais representativas utilizadas na investigação qualitativa, onde o pesquisador é o agente principal na coleta e análise dos dados. Foram utilizadas a observação participante, a entrevista intensiva, a análise documental (incluindo materiais didáticos) e questionário com os(as) alunos(as).
Os documentos foram coletados ao longo de nossos contatos com os grupos e compreenderam planos de cursos, materiais didáticos (livros didáticos, relatórios de pesquisas, livros paradidáticos, textos mimeografados, revistas), fôlderes e relatórios dos eventos, com o objetivo de verificarmos o conteúdo trabalhado e as concepções pedagógicas subjacentes. Os documentos foram usados para contextualizar o fenômeno, explicar suas vinculações mais profundas e completar as informações coletadas através de outras fontes.
Realizamos observações nas instituições de ensino que solicitaram demandas dos dois grupos. A observação é chamada de participante porque parte do princípio de que o pesquisador tem sempre um grau de interação com a situação estudada, afetando-a e sendo por ela afetado. Uma das vantagens é a presença do pesquisador no momento em que os fatos acontecem. No entanto, uma das desvantagens é que o observador pode influenciar os fatos. Por isso, as informações devem ser colhidas com o mínimo de interferência do pesquisador. Assim, quando o
[...] interesse do pesquisador recai sobre a vida de uma instituição, a técnica de coleta de informações mais importante neste tipo de pesquisa é a observação participante, onde o foco pode ser uma escola, mas não a organização como um todo o que interessa, senão uma parte dela. (TRIVIÑOS,1987, p. 135).
Realizamos entrevistas semi-estruturadas com os educadores militantes e os profissionais das escolas, para identificar como são as práticas pedagógicas. As entrevistas tiveram a finalidade de aprofundar as questões que os dados coletados nos documentos não permitiram explorar bem.
Aplicamos questionários com perguntas abertas e fechadas com alunos afrodescendentes e alunos não-afrodescendentes na hora do recreio, ou em horários marcados, para detectar as características apontadas sobre a prática pedagógica dos militantes. Utilizamos como instrumentos de coletas de dados também gravador, máquina fotográfica e diário de campo, todos necessários para a apreensão dos dados da pesquisa.
1.5.2ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
Segundo Minayo (1994, p. 68), a análise e a interpretação dos dados estão contidas no mesmo movimento: o de olhar atentamente para os dados da pesquisa. Essa autora apresenta em sua proposta para análise de dados o método hermenêutico-dialético, que tem como pressuposto fundante a assertiva: a ciência se constrói numa relação dinâmica entre a razão daqueles que a praticam e a experiência que surge na realidade concreta. Um dos âmbitos de interpretação baseia-se no encontro que realizamos com os fatos surgidos na coleta de dados.
Através desse método para analisar os dados, devemos ordená-los, fazendo um mapeamento de todas as informações obtidas no trabalho de campo; em seguida, classificá-los, através de categorias específicas e, para a análise final, estabelecer articulações entre os dados e os referenciais teóricos da pesquisa, respondendo aos seus objetivos.
Em pesquisas qualitativas, as grandes massas de dados são quebradas em unidades menores e, em seguida, reagrupadas em categorias que se relacionam entre si de forma a ressaltar padrões, temas e conceitos (BRADLEY, 1993).
A análise é o processo de ordenação dos dados, organizando-os em padrões, categorias e unidades básicas descritivas. A interpretação envolve a atribuição de significado à análise, explicando os padrões encontrados e procurando relacionamentos entre as dimensões descritivas (PATTON, 1980).
Com o mesmo pensamento de Minayo (1994), Milles e Huberman (1984) também afirmam que a análise dos dados em pesquisas qualitativas consiste em três atividades interativas e contínuas:
a) Redução dos dados – processo contínuo de seleção, simplificação, abstração e transformação dos dados originais provenientes das observações de campo. Na verdade a redução dos dados já se inicia antes da coleta de dados propriamente dita;
b) Apresentação dos dados – organização dos dados de tal forma que o pesquisador consiga tomar decisões e tirar conclusões a partir dos dados; c) Delineamento e verificação da conclusão – identificação de padrões, possíveis
retornando às anotações de campo e à literatura, ou ainda replicando o achado em outro conjunto de dados.
Entendemos que a análise dos dados ocorreu em todo o desenrolar do estudo. Utilizamos nossa intuição, nossa criatividade e nossa experiência pessoal com uma leitura interpretativa dos dados, recorrendo aos pressupostos teóricos do estudo. Dessa forma, a análise temática das observações participantes, dos depoimentos, dos questionários e dos documentos, juntamente com o apoio da literatura pertinente, possibilitou uma melhor compreensão dos modos de inserção realizados por entidades do Movimento Negro no contexto escolar.
Acreditamos que a prática pedagógica do Movimento Negro não é estratificada, mas, para encaminhar a análise de forma mais didática, organizamos os dados coletados a partir de cinco referenciais ou enfoques de busca, em consonância com os objetivos do estudo, explicitados no Capítulo 3.
Procedemos à análise, fazendo uma ordenação e um mapeamento de todos os dados obtidos no trabalho de campo e, em seqüência, sua classificação através de categorias específicas dos cinco referenciais utilizados para ordenar as informações coletadas. Em seguida, trabalhamos todos os dados separadamente, de acordo com as categorias e os objetivos específicos.
As entrevistas foram submetidas a várias leituras, objetivando fazer a análise de conteúdo e elaborar esquemas analíticos de acordo com as categorias pré-estabelecidas de investigação, não impedindo a análise de categorias novas que foram surgindo nos dados coletados.
Os dados obtidos oriundos das observações participantes, por serem variados, exigiram várias leituras para situá-los entre os objetivos estabelecidos na pesquisa. Os documentos técnico-pedagógicos foram utilizados para orientar a
análise das categorias definidas, complementando-as.
Fizemos a classificação dos dados através dos enfoques de busca e, para a análise final, estabeleceremos articulações entre estes e os referenciais teóricos utilizados, respondendo ao objetivo da pesquisa, buscando compreender os modos de inserção realizados pelas duas entidades do Movimento Negro na cidade de Teresina no contexto escolar, identificando e evidenciando concepções pedagógicas subjacentes às referidas práticas.
Assim, acreditamos que o método e as técnicas aqui adotadas nos renderam uma coleta e organização de dados que fundamentaram nossa visão das entidades do Movimento Negro pesquisadas.
Nestes termos, confirmamos a necessidade e a importância de desenvolvermos pesquisas nessa área sobre o problema em foco, porque conhecer a natureza e as condições de trabalho do Movimento Negro nessa realidade é de fundamental importância, tanto para as escolas que, a partir dos resultados dessa pesquisa, poderão compreender melhor as questões étnicas e pedagógicas que vêm interferindo no processo de educação escolar; como para órgãos de estudo e pesquisas da área social e educacional que buscam embasamento para fundamentar as políticas públicas de desenvolvimento socioeducacional do país.