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Case 2. Boundary Disputes Between Oromiya and Somali Regions Requiring Immediate Response

5. CONCLUSIONS

Essa aula de reforço escolar baseia-se em atividades promovidas pela professora com a poesia Tanta Tinta, de Cecília Meireles.

Contextualização da aula

Nesse dia, a professora providenciara três atividades diferentes, sendo que cada uma possuía um objetivo diferente, de acordo com o nível de aprendizagem dos alunos. Esta forma de trabalho era realizada uma vez por semana pela professora, por se tratar de atividades diferenciadas que exigiam grande flexibilidade e atenção da professora que, sozinha, monitorava cada grupo e as dificuldades específicas de cada aluno. Desse modo, além da aula exigir uma preparação prévia mais elaborada, também solicitava da professora, no momento da aula, muito dinamismo e atenção multifocada. Estas informações foram passadas para a pesquisadora, antes do início da aula, pela professora e constatadas durante as observações.

Ela dividiu a sala em três grupos. De acordo com a professora, o primeiro grupo era formado por seis alunos com graves dificuldades (May T, Fran, Ju, Ma, Fe, Cai). Esses alunos ainda não conseguiam ordenar as letras do alfabeto, formar sílabas, reconhecer fonemas, fazer sequência numérica, efetivar operações aritméticas básicas de adição, subtração, multiplicação e divisão. O segundo grupo era formado por sete alunos (L.F, Hu, May, Já, Bre, And e Va) com dificuldades na leitura, na escrita e nas operações aritméticas, porém se encontravam num estágio mais avançado que o primeiro grupo, pois já reconheciam as sílabas e formavam palavras na leitura e na escrita. E terceiro e maior grupo era formado pelos alunos (Fa, Bru, La, Ga, Jhon, Jhon C, Gra, Ca, Wil, Pau, Ag, Je, Wal, Lu, Pri, Le) que já conseguiam ler, escrever e efetuar contas com certa autonomia, mas apresentavam dificuldades de interpretação e compreensão de textos e enunciados, e também de realizarem atividades que exigissem um pensamento mais abstrato.

Observamos, assim, que o primeiro grupo não tinha conquistado ainda a hipótese silábica ou alfabética, o segundo, estaria prestes a consegui-la ou a teria conseguido recentemente, ou ainda no meio deste processo.

C.O.: Eu cheguei ansiosa para observar esta aula, uma vez que a professora ressaltou a importância do trabalho diferenciado realizado por ela nas quartas- feiras com os alunos. Depois da primeira aula observada, presa nas estratificações e representações da professora, eu ansiava por um trabalho mais solto, diferente e que favorecesse oportunidades para novos agenciamentos, inclusive corpóreos. Senti um clima diferente na sala de aula logo que cheguei. A disposição das carteiras e as conversas dos alunos, que pareciam mais soltos e descontraídos, rindo e brincando entre si, remetiam a um devir-criança na sala de aula. Mas não sei ainda até que ponto isso acontecia realmente ou se era fruto das minhas expectativas de encontrar a vida pulsando na sala de aula. Vamos continuar o relato e ver para onde se seguem as linhas de fuga.

Transcrição da videogravação

Data: 01/04/2009

Professora: “Alguém se lembra quem foi a Cecília Meireles? O que a professora deu há pouco tempo sobre a Cecília Meireles? Eu dei uma poesia muito legal, que vocês gostaram muito!”

Um aluno cita o nome de uma poesia que não deu para compreender e a professora disse que essa poesia era da Sílvia Ortoff.

Professora: “A poesia era ‘Ou isto, ou...’” Alunos: “Aquilo!”

Enquanto conversava com os alunos, a professora rodava a atividade no mimeógrafo.

Professora: “Psiu!!! Pessoal, leiam com os olhos!”, advertiu a professora, enquanto entregava as cópias aos alunos.

Professora: “Psiu!!!”Leiam com os olhos, não contornem, nem circulem nada. Aproximando-se do grupo 01 ela disse: “Moçada, vocês receberam uma folha em branco e duas folhas escritas. Vocês vão fazer com essa folha um envelope. Pode colar, escrever o nome e enfeitar o envelope de vocês.”

A professora seguiu para a lousa e disse:

Professora: “Grupo 01, por enquanto vocês esqueçam a lousa. Copiem a agenda e depois guardem os cadernos e façam o que eu pedi a vocês. O grupo 02 e o grupo 03 prestem atenção aqui! Agora quem vai falar sou eu. Grupo 02, a primeira coisa que vocês vão fazer pra mim é encontrar a letra N que vem depois da vogal. Preste atenção, eu não quero assim: Na, Ne, Ni, No, Nu”, disse a professora escrevendo as sílabas na lousa. “Eu quero assim: An, En, In, On, Un.”

A professora percebeu que o aluno L.F estava chorando debruçado na carteira. Foi até ele e disse que não precisava chorar, porque eles fariam juntos na lousa. Solicitou ao grupo 02 que grifasse todas as palavras que apresentassem a letra N antes das vogais.

Depois, ela pediu aos alunos do grupo 03 que fizessem a leitura do texto em voz alta. Cada aluno leu uma frase.

TANTA TINTA AH, MENINA TONTA! TODA SUJA DE TINTA MAL O SOL DESPONTA (SENTOU NA PONTE MUITO DESATENTA... E AGORA SE ESPANTA

QUEM É QUE A PONTE PINTA COM TANTA TINTA?)

A PONTE APONTA E SE DESPONTA

A TONTINHA TENTA LIMPAR A TINTA PONTO POR PONTO E PINTA POR PINTA AH, MENINA TONTA!

NÃO VIU A TINTA DA PONTE! Cecília Meireles

A classe trabalhava em silêncio.

O barulho de serra elétrica da obra no banheiro atrapalhava a compreensão da leitura dos alunos. Após o término do texto a professora chamou a atenção da classe: Professora: “Pessoal, vocês vão precisar treinar mais a leitura em voz alta do texto em sua casa, porque quando eu leio em voz alta na minha casa, pro meu pai, pra minha mãe – Fa, qual é o problema? Por que você está rindo? Presta atenção na explicação – treinando em casa vocês melhoram a voz e a leitura. Vocês podem desenhar? Agora vocês têm cinco minutos para fazerem as atividades. O grupo três vai ilustrar o texto. O que vocês podem desenhar? Uma menina, numa ponte cheia de tinta!”

Aproximou-se do grupo 01 e perguntou se eles terminaram de fazer o envelope. Depois voltou para a lousa e desenhou uma ponte. Perguntou aos alunos:

Professora: “O que costuma passar embaixo de uma ponte?” Aluno: “Carro!”, respondeu um aluno.

Aluno: “Rio!”, responderam vários alunos. Professora: “Um rio!”

Parecia uma bagunça, um verdadeiro caos, com a professora correndo de um grupo a outro.

Voltou-se novamente para o grupo 01. Os alunos já haviam decorado os envelopes e estavam recortando as letras do alfabeto.

O aluno Bre do grupo 02 havia grifado corretamente todas as letras N que antecediam vogais e a professora, sorrindo, mostrou o trabalho dele à pesquisadora. Em seguida, voltou-se para o grupo 01, dizendo:

Professora: “Isso, recorta rapidinho pra gente começar a trabalhar!”, após o comentário, ela correu para o outro grupo e incentivou o aluno L.F a trabalhar. Depois, falou para todo o grupo 02:

Professora: “Moçada, posso propor um desafio pra vocês?” Alunos: “Pode!”

Professora: “E se eu der pra vocês outro texto, mas sem ser em letra de forma? Será que vocês vão conseguir ler?”

Foi até a sua mesa pegar o outro texto mimeografado.

Professora: “Psiu! Estou ouvindo muita conversa e pouco trabalho. Agora, eu vou propor um desafio, mas vocês precisam guardar todo material que está em cima da carteira. Vocês deixam muitas coisas sobre a carteira e depois se atrapalham. Olha,

um desafio. Essa classe tem a fama de não enfrentar desafios. Quero ver quem vai enfrentar esse?_Pessoal, quero que vocês leiam esse texto. Será que vocês conseguem?”

Os alunos permaneceram um tempo com o texto até que um deles disse: Aluno: “Professora, é igual! É igual o outro!”

Aluno: “É a mesma palavra aqui!”

Professora: “São as mesmas palavras? É o mesmo texto?” Aluno: “Não professora!”

Professora: “É ou não é?” Aluno: “É tia, é sim!”

Professora: “Como você sabe?”

Aluno: “Tá escrito tanta tinta aqui, igual o outro!” Professora: “Aonde tá escrito tanta tinta?” Aluno: “Aqui, tia!”, apontou outra aluna.

Professora: “É ou não é? Vocês estão me deixando confusa!” Aluno: “É diferente tia!”, contestou o aluno L.F

Professora: “Não é o mesmo texto, L.F? Tente ler. Leia pra mim.”

Aluno: “Tanta Tinta”, soletrou o aluno com dificuldade. Ao ler, arregalou os olhos como se tivesse feito uma descoberta.

Professora: “É ou não é o mesmo texto?” Aluno: “É tia, é sim!”, disse o aluno sorrindo. Professora: “É ou não é?”

Aluno: “É!”, confirmaram os alunos. L.F, agitado, apontava as palavras no texto, comprovando que eram as mesmas.

A professora voltou para a lousa e deixou os alunos do grupo 02 lendo o texto individualmente. Eles pareciam concentrados na tarefa. Ela começou a explicar uma nova atividade para o grupo 03.

Professora: “Pessoal, quando é que a gente utiliza a letra N com som de An, En, In, On, Un?”

Silêncio.

Professora: “Quando?” Aluno: “Bastante!”

Professora: “É bastante, mas quando? Anotem aí: Observação: usamos N com som nasal (o som do an, en, parece que sai pelo nariz), quando ele for seguido – vocês

não estão prestando atenção! – quando ele for seguido de consoante. Quais são as consoantes?”

Aluno: “A, e, i, o, u!”

Professora: “Opa! Essas são as vogais! Consoantes: b, c, d, f, g, h, j, l, m, n, p, q, r, s, t, v, x, z.” Atividade: circule as palavras que possuem N com som nasal e separe as sílabas.

Enquanto a professora passava matéria na lousa, a pesquisadora observava o trabalho dos alunos do grupo 01. O aluno Cai havia feito um envelope com o desenho de um casal de aves amarelas e dois filhotes:

Pesquisadora: “Por que você desenhou pintinho, Cai?” Aluno: “Não é pintinho. É canarinho!”

Pesquisadora: “Você coleciona canário? Por isso você falou canário na brincadeira?”

Aluno: “Eu tinha um casal e deu ‘fiote’.”

Fran decorara seu envelope com flores, corações e borboletas. May desenhara um navio e Felipe desenhara uma floresta. Somente Ma se recusava a desenhar e Ju ainda fazia o envelope.

Enquanto isso a professora explicava a atividade na lousa para o grupo 03. Depois ela voltou-se para o grupo 02.

Professora: “No primeiro texto que eu dei (em letra bastão), vocês marcaram as letras ‘Ns’. Agora vocês farão a mesma coisa nesse texto aqui (em letra cursiva). Entenderam? Todo mundo entendeu?”

Voltando-se para o grupo 01.

Professora: “Acabaram de recortar? Guardaram as letrinhas no envelope? Agora eu quero que vocês montem em cima da mesa o alfabeto. Lembram? A, b, c, d, e, f, g, h, i, j, k, l, m, n, p, o, p, q, r, s, t, u, v, x, y, w, z.”

O sinal tocou e a professora pediu para os alunos deixarem o material sobre a mesa, pois continuariam depois.

Os alunos trabalhavam animadamente nos três grupos, enquanto a professora corria de um lado para outro, durante todo o tempo transcorrido na atividade. Tudo parecia muito acelerado na sala de aula e era difícil acompanhar todos os movimentos. Ao fazer a transcrição da videogravação, parecia algo caótico, pois se ouvia o som de várias vozes ao mesmo tempo, juntamente com o barulho da reforma do lado de fora da classe e a voz da professora tentando se sobressair.

A professora atuava como um maestro que conduzia uma orquestra. Nesse caso, os alunos eram os instrumentos que tocavam cada um em seu tempo, segundo sua singularidade e não havia um ritmo, uma unidade, pois a singularidade se destacava do coletivo. Era possível observar movimentos que tomavam velocidades e lentidões. O aluno L.F, por

exemplo, no início da atividade chorou por não conseguir executá-la e foi confortado pela professora que assegurou fazer junto com ele. Depois, o mesmo aluno surpreendeu-se, ao descobrir que ambos os textos apresentados pela professora eram iguais e concentrou-se na leitura depois disso, demonstrando satisfação e deixando-se levar num ritmo mais veloz. Já os alunos do grupo 03, pareciam caminhar num ritmo mais lento, pois a professora passava para eles atividades meramente recognitivas, sem espaço para a descoberta e a invenção.

De modo geral, os alunos pareciam não se incomodar com a câmera, e na maior parte do tempo, eles pareciam nem notá-la. Mas demonstravam interesse e satisfação de que a pesquisadora registrasse as imagens de suas produções, de modo que os alunos do grupo 01 decoravam os envelopes e a chamavam para fotografá-los.