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Conclusions and recommendations

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Para determinar a relação de reconhecimento (Anerkennung) nessa pré- compreensão da categoria da Intersubjetividade, Lima Vaz faz certa analogia com a filosofia do Espírito de Hegel presente na Fenomenologia do Espírito de 1807, situada na 2ª parte (B) intitulada “A Consciência-de-si”, especificamente no momento em que ela faz “surgir o problema do outro no âmbito da dialética do

reconhecimento”209.

A consciência ao experimentar-se em sua relação com o mundo objetivo chega ao seu termo em confronto com a noção de infinito, ou Espírito e, nesse novo momento de sua experiência, ela desdobra-se sobre si mesma na tentativa de autocompreender-se como consciência-de-si. Ora, nesse novo momento, o interesse da consciência não é mais o mundo dos objetos, mas o “mundo humano”, a cultura onde ela possa vivenciar experiências propriamente humanas ou experiências espirituais, uma vez que o Espírito é, segundo Lima Vaz: ”essa substância absoluta que, na liberdade acabada e na independência da sua oposição, a saber, de diversas consciências-de-si que são para-si, é a unidade das mesmas; Eu que é

Nós, e Nós que é Eu”210.

Lima Vaz faz a leitura da dialética do reconhecimento cujos termos são Senhor- Escravo a partir do implícito subjacente ao texto de Hegel, ou seja, o “problema da racionalidade do ethos”. Para ele, Hegel não está interessado em estabelecer a origem da sociedade, uma vez que para ele o homem é desde sempre um indivíduo

209 AF II, p. 54.

social, mas quer enfatizar a novidade que se estabelece por meio da nova experiência da consciência histórica.

Na leitura vaziana, Hegel volta-se para o “mundo humano” e procura refletir sobre a luta pelo reconhecimento segundo a qual a consciência-de-si se universaliza e pode pensar a si mesma como uma história racional, “vem a ser, de uma sociedade do consenso universal ou a existência regida pela Razão”211. Essa existência racional é justamente a Política e é ela que Hegel quer justificar por meio da dialética do reconhecimento, ao enfatizar a necessidade da formação do sujeito universal. Lima Vaz explicita essa formação seguindo os passos hegelianos da

Fenomenologia do Espírito.

O primeiro movimento da dialética se dá no encontro entre as duas consciências-de-si. Nesse primeiro momento a igualdade que se estabelece é imediata e, portanto, abstrata porque, de fato, ela ainda não se realizou. As consciências “reconhecem-se a si mesmas enquanto reconhecendo-se mutuamente”212. No entanto, esse reconhecer ainda está centrado na visão da consciência sobre si mesma porque o Outro é visto como um objeto que está à sua frente, portanto, ele ainda não é reconhecido na sua essencial especificidade de ser consciente.

A desigualdade que se estabelece nessa relação é a diferença de ação entre os dois termos da relação do reconhecimento, ou seja, a consciência que ainda permanece na imediatez da vida e a consciência que se universalizará “pela forma mais alta de reconhecimento que é o consenso racional na sociedade política”213.

Inicia-se, então, o segundo momento da dialética por meio da figura “luta de vida ou de morte”. Nessa figura Hegel procura mostrar como as consciências ultrapassam a imediatez da vida de forma desigual, porque somente quem luta e corre o risco de perder a própria vida alcança a autoconsciência e se torna livre; este é o Senhor. Quem se acomoda e não quer lutar, permanece preso à comodidade da vida e, portanto, se torna Escravo do Senhor.

Por meio dos termos da dialética Senhor e Escravo, o discurso avança para o primeiro esboço da relação propriamente humana mediante o processo pelo qual as

211 H. C. de LIMA VAZ, Senhor e escravo: uma parábola da filosofia ocidental, p.19-20. 212 Ibid., p. 20.

consciências ultrapassam a imediatez da vida rompendo a igualdade abstrata: “O mundo exterior está agora entre as duas consciências-de-si ou situa-se na distância que separa a consciência-de-si de si mesma na sua ‘duplicação’”214.

A percepção do mundo exterior favorece à consciência uma nova experiência em que afirma um novo aspecto que é a transcendência sobre a objetividade e, consequentemente, a conquista do ser-para-si da liberdade. Essa experiência se dá, contudo, ainda de modo desigual porque os termos da relação não são livres igualmente. O Senhor por meio da luta consegue elevar-se à consciência-de-si pela mediação do Escravo. O Escravo, por sua vez, permanece preso às coisas que servem ao seu Senhor, porém, não imediatamente, mas por meio do trabalho.

Lima Vaz apresenta o silogismo inerente à dialética do Senhor e Escravo, cujos termos são: “O Senhor, o Escravo e o mundo”. O Senhor utiliza o Escravo e o mundo como mediações para a consciência-de-si como ser independente. Em consequência, ele não vê o Escravo como outra consciência, mas como mediador para a sua ação sobre o mundo. O Escravo, porém, ao transformar o mundo pelo trabalho e ao oferecer o fruto do seu trabalho ao Senhor, transforma a sua consciência servil e mediadora “na verdade da consciência independente”215, e reabre o caminho para o reconhecimento recíproco, que seria inviável a partir da ociosidade do Senhor.

Hegel denomina Cultura ou “ação de formar-se (das Formieren)”216 as formas mediadoras que unem dialeticamente o Escravo ao Senhor e ao mundo. Ora, essas formas expressam a ação social do trabalho, que eleva a consciência do Senhor para além da “satisfação animal do desejo” ao usufruir as coisas trabalhadas, e eleva a consciência do Escravo fazendo-o entrar na “escola da sabedoria” por reconhecer que pela força do seu trabalho é capaz de compreender e transformar a natureza em um mundo cultural.

O trabalho é, portanto, o ato expressivo da exteriorização do sujeito e consiste na mediação para o encontro com o outro, uma vez que ele favorece o surgimento da figura da liberdade como a verdade que a consciência tem de si mesma: “uma

214 H. C. de LIMA VAZ, Senhor e escravo: uma parábola da filosofia ocidental, p. 21. 215 Ibid., p.22.

verdade que passa do sujeito ao mundo pela atividade da cultura”217. Pelo trabalho,

o sujeito toma consciência de que não é uma coisa entre as outras coisas, mas consciência livre, capaz de transformar o mundo a partir de si mesmo, dando-lhe um sentido. Ele se vê em sua produção elevada ao nível do humano social.

Lima Vaz diferencia os atos produzidos pelos agentes naturais dos atos humanos, esses não são repetições instintivas, mas “processo de criação e invenção da inteligência” que produzem a cultura. O próprio ato do trabalho é um ato cultural e expressa a estrutura de um sinal:

O trabalho é também palavra, é interpelação do outro, comunicação com o outro. Não há trabalho humano voltado unicamente para a simples satisfação de necessidades biológicas. Ato cultural, o trabalho tem sempre uma significação compreendida socialmente218.

Lima Vaz compreende o trabalho como um ato de consciência, uma expressão da significação teórica dada pelo sujeito ao mundo, que decorre das condições objetivas em que ele é realizado e da função social que ele exerce em determinada cultura para a comunicação entre os sujeitos. Com efeito, a cultura é a “realidade compreendida e transformada, humanizada pelo ato de consciência, indissoluvelmente significação e trabalho, teoria e práxis”.219.A cultura, enfim, expressa a práxis humana e o sentido dado pelo sujeito ao seu ser-em-comum com os outros, isto é, a história.

O resultado da dialética Senhor-Escravo consiste, segundo Lima Vaz, na relação que Hegel faz entre a liberdade e a cultura. As figuras do Senhor e do Escravo representam a necessidade da formação do indivíduo para o saber “como fundamento para a exigência histórica de uma sociedade do reconhecimento universal”220, porque liberta o indivíduo da sua adesão imediata à pulsão do desejo

pelo outro como objeto e o eleva à consciência de ser racional e livre, realizando-se pela universalidade do consenso entre seres também racionais e livres.

É a ideia de que a dialética do reconhecimento implica a reciprocidade entre homens racionais que vivem-em-comum que interessa a Lima Vaz. Para ele, a estrutura relacional do ser humano implica necessariamente na passagem do outro- objeto para o outro-sujeito, ou seja,

217 H. C. de LIMA VAZ, Senhor e escravo: uma parábola da filosofia ocidental, p. 23. 218 EF VI, p. 256.

219 Ibid.

implica o paradoxo da reciprocidade, segundo o qual o sujeito é ele mesmo

(ipse) no seu relacionar-se com outro sujeito o qual, por sua vez, é

igualmente ele mesmo (ipse) no seu ser-conhecido e no conhecer seu

outro: em suma, no reconhecimento221.

A reciprocidade do reconhecimento impossibilita, em consequência, o

solipsismo, uma vez que pelo movimento dialético a relação de objetividade é suprassumida na relação intersubjetiva e manifesta que a “forma do ser-no-mundo

como auto-expressão do sujeito implica necessariamente a forma do ser-com-o- outro”222. Por esse movimento a consciência individual presa na tautologia “Eu sou Eu” eleva-se para a consciência social “Eu sou com o Outro”.

Ao mesmo tempo clarifica o problema da reciprocidade porque a autoconsciência na luta pelo seu próprio reconhecimento se vê no Outro. Por conseguinte, na luta pelo reconhecimento recíproco o homem é impelido a superar toda e qualquer perspectiva de transformar o Outro em um objeto, uma vez que o aceita como sujeito. E como o homem não é um ser pronto, mas está em processo de autoconstrução, o processo recíproco é essencialmente comunitário. A comunidade é o espaço em que o indivíduo particular encontra a sua universalidade223.

Percebe-se que para Lima Vaz, no espaço-tempo da coexistência comunicativa o Eu e Outro desenvolvem diversas relações por meio da linguagem e, juntos, experimentam a reciprocidade que se estende em níveis diferentes de convivência: na experiência mais próxima, ela se expressa no “amor, na amizade, na vida em comum”; na convivência social ela se expressa “na obrigação, na fidelidade” e, por fim, na “relação recíproca da permanência, que se exerce como relação Eu-outros na tradição, no costume, na vida social e política”224.

E nesse universo infinito de comunicação é possível vislumbrar o Outro Infinito, ausente, mas sempre presente no cotidiano da história, uma vez que a experiência espiritual é constitutiva do ser humano e é como ser espiritual que ele dá significação ao ser e ao fazer humanos, construindo conjuntamente com o Outro o mundo cultural.

221 AF II, p.55. 222 Ibid.

223 “Todo o processo é circular parte do indivíduo e retorna a ele, mas no ponto de chegada temos o ‘indivíduo universal’, que, pela mediação de um processo de conquista de sua humanidade se elevou à esfera da comunicação das liberdades.” (Cf. Manfredo OLIVEIRA, Ética e Sociabilidade, p. 185.) 224 AF II, p. 60.

Após concluir a fenomenologia do reconhecimento em sua expressão mais ampla por meio das formas da palavra e do trabalho no medium da linguagem, Lima Vaz avança a reflexão para a forma particular do reconhecimento efetivada pela mediação abstrata da compreensão explicativa das Ciências Humanas (human

sciences). Ele dialoga, portanto, com as ciências que atualmente têm a função

fundadora e reguladora das práticas sociais e culturais: a História e a Sociologia.

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