No capítulo precedente destacamos o fenômeno das ascensões humanas do fundo da dinâmica universal. Enquadrar os fenômenos, reordenar o pensamento, disciplinar a ação constituem-nos a tarefa; quer dizer: nossa tarefa é construir. Caminhemos, pois, em direção da ordem, rumo a Deus; das duas estradas da vida, a involutiva e a evolutiva, sigamos a que sobe. O sistema de forças do universo é, pois, bipolar, quer dizer, resultado do contraste entre dois sistemas inversos: o sistema do espírito e o da matéria. Ambos são deterministas, ou seja, o universo, sendo inteiramente perfeito, apresenta completo determinismo nos seus dois termos componentes. Se no sistema de Deus apenas perfeição pode existir, necessariamente não pode haver senão determinismo. A liberdade existente no homem consiste somente na possibilidade de escolha entre os dois sistemas. Estes, porém, se constituem de tal modo que, escolhidos, envolvem o ser em suas espirais, o incluem em seu sistema de forças, o prendem à sua lógica e tudo isso de modo a arrastá-lo até às últimas conseqüências, até à plena realização do sistema, isto é, à plenitude de vida em Deus, de um lado, e, de outro, à autodestruição. Quem
ascende tende sempre mais a substituir sua vontade isolacionista pela divina vontade universal; quem regride é levado cada vez mais a substituir a divina vontade universal por sua vontade isolacionista. O primeiro cresce sempre mais e se agiganta; o segundo se comprime em si mesmo, diminui e se asfixia. Mas em ambos os casos o estado de livre arbítrio tende a anular-se, ou no determinismo do sistema do espírito, pela fusão consciente na vontade de Deus, ou no determinismo do sistema da matéria, pela obediência inconsciente do cego à vontade da Lei.
Antes de passar a outros argumentos, vejamos alguns corolários do capítulo precedente. A civilização materialista atual entra de novo no sistema de forças da matéria. Seu termo final, implícito no sistema, é a autodestruição. Tamanho progresso econômico e material deverá, pois, acabar fatalmente na autodestruição, como aliás está acabando. As verdades que a ciência descobre são certas, pois não passam de verdades da lei. Errada é, isto sim, a direção seguida pela ciência nas pesquisas; errado, o método utilitário com que a ciência as aplica. O pecado capital dessa ciência consiste em dirigir-se à matéria ao invés de ao espírito, em querer substituir Deus pelo eu, em pôr-se na posição de presumida independência da Lei e de revolta contra ela. Trata-se, pois, de progresso às avessas, progresso que nega e, por isso, negativo. Depois de tudo quanto dissemos, as conseqüências tornam-se evidentes. Esses sistemas de forças nos tolhem completamente. O homem acredita realizar grandes conquistas porque desvenda segredos da natureza e em seguida sabe desfrutá-los. A posição da ordem fica nesse caso subvertida. O homem acredita que desse modo acumula poderes e se torna senhor da vida. Não. Trata-se de poderes de rebelde; apenas podem levar à autodestruição. O homem, hoje tão orgulhoso de si mesmo, com essa ciência sem sabedoria não passa realmente de elemento expulso do sistema de forças da Lei, de isolado, de abandonado por Deus, de indivíduo posto fora das fontes vitais. Seu grande edifício lhe cairá em cima, não porque deixe de ser grande e belo, mas apenas por causa da direção errada em que o construíram. A lei, destruirá a ciência rebelde que a negou e a civilização criada por essa ciência. Esse é o termo fatal do mundo de hoje. Por isso, nova e verdadeira civilização somente das ruínas dele poderá nascer, depois dele ser destruído, não podendo ter por fundamento senão princípios completamente diferentes. Assim, a nova civilização do 3º milênio poderá apenas ser a civilização do espírito.
Ainda podemos compreender algo mais. A Lei reage contra quem a transgride, expulsando-o de seu sistema de forças (aliás grandemente protegido para quem nele se refugia) e o transforma em abandonado por Deus. Assim, o homem permanece fora, isolado, à mercê das forças opostas ou, seja, do mal. Eis por que o erro e a culpa, significativos de desordem contra Lei e, por isso, de expulsão e abandono, causam dor, significativa de regressão. Nas páginas precedentes pudemos observar como e por que a Lei reage, isto é, a forma e o motivo dessa reação de que antes não se podia explicar a relação com a dor. A Lei, quando alguém a transgride, expulsa da sua ordem e da sua ajuda o transgressor; nega-lhe tudo, o conhecimento e o poder, a proteção e o alimento. Essa a razão por que todo golpe contra a Lei constitui golpe que o rebelde inflige a si mesmo, autopunição, dor por ele sofrida. Eis por que encontramos a dor no caminho da involução, caminho de rebeldes. Eis por que desordem, rebelião, inconsciência, erro, culpa, dor e queda se relacionam. O universo é criação contínua e se mantém apenas em virtude dessa criação. Ela deriva de dinamismo central, inserto na intimidade das coisas, profundamente ligado ao universo e a Deus, em que se situam as fontes da vida. Tudo isso dá nascimento a sistema de forças tendentes a reconstruir continuamente. Quem é posto fora desse sistema porque se rebelou contra ele, ou não é mais alimentado por essas forças criadoras ou ainda recebe pequena quantidade de alimento, isso quando não se rebelou completamente e proporcionalmente à sua obediência residual. A verdade, porém, é que por esse caminho o rebelde caminha para a morte. Eis por que o rebelde está automaticamente condenado à
autodestruição e com suas próprias mãos se colocou fora da vida. Deus, a Lei, a Ordem significam vida; Satanás, a rebelião, a desordem significam morte. Desse modo esgotamos a análise do problema do bem e do mal, levando-o até à sua conclusão. Assim, observamos racionalmente, de um lado as terríveis e automáticas conseqüências a cujo encontro vai quem escolhe o caminho que se afasta de Deus e, doutro lado, como a verdadeira felicidade se torna possível e nossa herança natural e de que modo essa felicidade apenas pode residir na consciente e ativa obediência à Lei. Tudo se reduz a adquirir a consciência dessa Lei e a superar a ignorância, tudo se reduz a compreender coisa tão simples e lógica, no entanto, ou, seja, que Deus apenas pode querer, e quer mesmo, nosso bem. Se o homem não fizer tão simples descoberta, todas as maravilhosas descobertas científicas hão de submergir na destruição. O grande mal, que nos engana e trai, consiste nessa ignorância, a iludir-nos com miragens, mostrando-nos a felicidade na revolta, exatamente onde não está nem pode estar. Em que se cifra o maior desejo do homem, senão na sua felicidade? Qual o maior desejo de Deus, senão a felicidade do homem? Só a ignorância humana a respeito do pensamento de Deus pode tornar divergentes duas vontades que tendem ao mesmo objetivo. Se lutam, é exatamente porque desejam ansiosamente abraçar-se e unir-se. Por isso vivemos na experimentação e na dor. De fato, através de provas e mais provas, se adquire essa consciência em que consiste a única solução do problema.
Apliquemos ao atual momento histórico tudo quanto dissemos. Nossa civilização materialista, se considerarmos os princípios que lhe deram origem e lhe dirigem o desenvolvimento, sofre agora o inexorável processo final de autodestruição. Significa tentativa de instaurar o reinado humano da matéria, sem e contra o reinado do espírito; de substituir Deus pelo eu; de estabelecer ordem humana, em que só o ho- mem dá ordens, em lugar da ordem divina, em que, não o homem, mas apenas a Lei dirige. Foi ato de revolta e agora vão-lhe sendo eliminados os resultados. Nessa fase a nota dominante é a destruição causada pela guerra, com que a técnica, primeira conquista da civilização, destrói a própria civilização. Isso é lógico e fatal. Hoje Deus abandonou o homem ao destino que ele quis preparar para si mesmo. Deus lhe diz: "Você pensou que sabia agir e quis agir sozinho. Agora você vai fazer isso até o fim. Você é livre, mas responsável. Faça experiência. Você há de compreender à sua custa". Hoje o homem está perdido e abandonado no meio de cataclismos mundiais, em pleno oceano de forças incompreensíveis para ele e sem a capacidade de conduzir-se deste ou daquele modo. O poder que possui serve-lhe apenas para feri- lo. Parte da negação e da dúvida e chega à inconsciência e à destruição. A dor constitui a primeira conseqüência do sistema que se move em sentido involutivo, afastando-se das fontes vitais. Essa dor, que acreditávamos saber dominar, acabou sendo o verdadeiro resultado atingido; e a felicidade (tão seguros estávamos de consegui-la!) transformou-se em miragem. A subversão do sistema produz resultados contrários. Hoje as forças da Lei devolvem ao homem os golpes que dele receberam. A dor, porém, não significa vingança de Deus, mas apenas reação salvadora, dirigida pelo intento de reconduzir o homem à estrada que há de levá-lo à felicidade. Como não compreendeu e não seguiu espontaneamente o caminho certo e gozou da liberdade de experimentar o caminho errado, agora o prendem e o obri- gam a palmilhá-lo à viva força. A dor constitui espécie de violência indireta contra sua liberdade; o determinismo da Lei, absolutamente desejoso do bem, é que pelo bem do homem executa essa violência. E tentativa honesta de salvamento com que, estamos vendo, antes de ausentar-se. completamente, abandonando o rebelde à autodestruição, as forças do sistema continuam presentes, mas sob forma negativa, e procuram, exatamente como dissemos, com a reação sanar a falha e curar o mal pelo emprego do remédio da dor. Assim, aquilo que à luz da psicologia corrente parece derrota e falimento constitui o mais útil trabalho realizado neste ciclo histórico, pois representa a obra de arrependimento, de retificação, de nascimento de consciência e sabedoria, obra saneadora dos erros cometidos. Dor
acabrunhadora, mas salutar, que nos tira do caminho da autodestruição e nos impele ao caminho da construção. Estamos, pois, vivendo um momento decisivo das teorias supra expostas. Poderíamos dizer que hoje estamos vivendo o período corretivo, de retificação das posições subvertidas pelo homem. Não podemos fazê-lo atuar senão através da subversão total dos atuais valores dominantes. Tivemos hipertrofia de meios materiais e, no bem-estar, atrofia do espírito; eis-nos, pois, nas posições inversas, quer dizer, com pobreza de meios materiais e a dor que nutre e enriquece. Assim, através da privação de tudo quanto anteriormente abundou, com poucos frutos no sentido evolutivo, chegamos ao desenvolvimento de tudo quanto anteriormente faltou, e isso com frutos para o progresso espiritual. Se quiséssemos definir o tipo da nova civilização e o comparássemos com o atual, poderíamos chamá-la civilização retificada. Tanto bastaria para que a imaginássemos. Essa retificação descreve-a continuamente tudo quanto vimos dizendo nestas páginas.
Daí se vê não ser o homem, mas a Lei, quem dirige a história e a vida. O homem agiu loucamente, transportando desordem, mas a Lei sabiamente o reconduz à ordem. Hoje a realidade da vida grita aos ouvidos do indivíduo, como aos dos povos, esta necessidade inelutável e suprema: maceração na dor. A distinção humana entre vencedores e vencidos não tem, quanto a isso, importância alguma. A ciência encarou o problema do mundo material, mas ignora o do mundo espiritual; escapa- lhe o cálculo dessas poderosas forças do imponderável que hoje golpeiam o homem. A erudição contemporânea não basta para compreender o que está acontecendo ao mundo de nossos dias. Descobrimos leis da natureza e dominamos algumas de suas forças, mas fizemo-lo egoisticamente, estupidamente, contra a Lei, isto é, contra nós mesmos. Quanto bem obteríamos, se houvéssemos sabido dirigi- las com inteligência! Acima da loucura humana se coloca a sabedoria divina e agora nos impõe a reconstrução do equilíbrio perturbado, imergindo-nos em ganho de penitência. Na passagem se encontra a dor amiga para salvar-nos. Mas o homem não lhe compreende a função e ainda se revolta, cada vez mais. Com essa ilusória forma mental, sem preparo algum para a vida áspera das horas apocalípticas, o homem está absolutamente fora do caminho. Colocou-se fora das fontes espirituais do ser e falta-lhe o poder que sustenta os que sabem atingi-las Em última análise, estamos no ponto mais baixo da onda histórica e precisamos de percorrê-lo antes de podermos ascender novamente. Para o homem, a verdade e a sabedoria estão além desse trajeto. É duro, mas devemos percorrê-lo; chorando e sangrando, necessitamos chegar. O mundo acreditava que, com seus métodos conceituais e materiais, podia organizar a felicidade em série, em máquinas, e estava a ponto de atingi-la; no entanto, encontra-se em face de realidade cruel e bem diferente: o poder de criar que a dor tem. Alguns, todavia, compreendem, aceitam e ascendem. Constituem minoria sábia e silenciosa, abafada pelas vozes dominantes. Muitos, porém, não compreendem, continuam a rebelar-se, maldizem, reagem à dor por meio de novo mal e assim, ao invés de se afastarem do redemoinho da regressão, cada vez mais afundam e lhe aumentam o poder. Assim, os bons tornam-se melhores e os maus, piores; a distância entre os dois aumenta, até se separarem completamente. Formarão dois turbilhões de forças, um voltado para cima e outro para baixo. Este último agarra o outro, procura prender-se-lhe para arrastá-lo ao fundo consigo, busca despedaçá-lo a fim de aniquilá-lo; mas todo sistema contém em sua própria natureza o termo final de sua trajetória. O princípio da ascensão, a amizade com a Lei levarão os justos cada vez mais para cima, até à salvação, mesmo através de obstáculos e provações; e farão os rebeldes se precipitarem cada vez mais para baixo, até à autodestruição. O atual espírito de destruição parece universal e poderá atingir a todos nós; mas, finalmente, terminará prejudicando apenas quem o pôs em ação, acredita nele e o merece. Hoje Os homens podem escolher: sobrevivência ou destruição. A dor impõe a solução da crise e o superamento da fase. Os sábios transformam-na em instrumento de vida para si mesmos, os estultos rebeldes transformam-na em instrumento de morte.
Este livro foi escrito em meio dessa tempestade, nessa atmosfera apocalíptica, nessa hora trágica em que o mundo desmorona e se recompõe. Não poderia nascer senão nesse terreno e nesse momento. Enquanto o pensamento se inflama, a alma geme; os próximos bombardeios põem vibrações no ar, as cidades se reduzem a escombros, a civilização vacila, a propriedade torna-se insegura vivem somente na saudade a segurança do lar e a vida civilizada. A morte passa e torna a passar por perto, sem deter-se ainda. Deus desce até perto de nós e nos fala É o momento sublime e terrível das grandes maturações. Cada vez mais o mal se encarniça e se torna cego em orgia de ferocidade; e cada vez menos sabe o que faz; e o bem, tranqüilo e tenaz, enquadra a desordem e, como sabe o que faz, espera e modifica os resultados. As destruições da guerra são a força que o mal momentaneamente aplica a serviço do bem. A Lei conclama os inferiores a funcionarem como instrumento de dor. Mas a dor tem capacidade criadora e a sua atual presença entre nós, e em proporção assim tão grande, prova a iminência e a amplitude da transformação do mundo e constitui o precedente necessário para gerar nova civilização. Nas mãos da Lei tudo isso se reduz a severa verificação e, em seguida, a extraordinária progressão da vida rumo a futuro melhor. Contra todos os negadores, o espírito, para explodir, faz pressão de dentro para fora. O mal pode suicidar-se; não pode, porém, destruir o eterno e divino impulso criador. Nossa hora exige renúncia, liberação e desenvolvimento. Ascensão, através da dor.
Deus tira os bens das mãos de quem os conquistou e não sabe usá-los, tanto assim que de seu emprego só lhe resultam danos e nenhuma vantagem. E concede- os novamente apenas quando houver aprendido a utilizá-los. O homem, então, deve reconquistá-los com ânimo novo, de modo a transformar o dano em vantagem. Assim, a pobreza sucede à riqueza. É lógico, e até mesmo constitui benefício quem faz mau uso de determinado meio adorando-o como se fosse um fim, perdê-lo e ser reconduzido à ascensão, único e verdadeiro objetivo da posse. É também lógico e justo que apenas os dignos possam dispor dos bens e só os amadurecidos possam mandar e dirigir. Quem a Deus antepõe os ídolos acaba sendo expulso da vida. Todavia, quem está com a Lei está com a vida. Pois bem. Aproxima-se a hora da transformação do mundo. O super-homem pode nascer apenas de lutas e dores assim titânicas. Será a transformação do herói da matéria, do super-homem nietzscheano. Mostrar-se-á valoroso na prática do bem, na capacidade de dar, de amar, ao invés de mostrar-se endurecido no mal, na agressão, no ódio. A bestial virilidade do homem, no plano físico asfixiante da guerra, se refinará e aumentará de poder na virilidade mais apurada do homem no plano espiritual. A luta não se travará mais por causa da seleção animal do mais forte, seleção em que ainda alguém crê, mas em favor da seleção do mais justo e consciente; as guerras e as vitórias serão diferentes, baseadas em princípios diferentes e conduzidas também com métodos diferentes. As batalhas do homem futuro serão bem diversas. Esse homem será o soldado da paz que substituirá a guerra do ódio pela guerra do amor, muito mais difícil e profícua. Que consciência, organicidade e poder espiritual deverá ele possuir para saber vencer sem ódio, e sem armas, perdoando e dando! Espiritualmente falando, nossa sociedade assemelha-se a campo inculto, a bosque intrincado e selvagem. Torna-se necessário transformá-lo em plantação racional e de rendimento intensivo. Precisamos de em todo o campo em que existe o caos introduzir a ordem e fazê-la substituir a desordem; isso, porém, com métodos diferentes dos de domínio, nos quais todas as diversificada tendências humanas se igualam. É preciso fazer que os outros compreendam e sintam, por livre convencimento e paixão. Para
todos nós a dor atual constitui grande escola de maturidade. Manifestam-se sistemas substanciais, e não sistemas formais; agimos mais por vias internas e espontâneas do que por vias coativas e externamente enquadradas. Não adianta mudar nomes e programas. Importa, isso sim, o senso da vida e a motivação di- retora; importa operar na substância e fazer o homem. A consciência coletiva não
passa de frase sonora, mas sob ela se esconde quase sempre apenas a inconsciência coletiva. O tufão limpou o terreno. Vamos, agora, ará-lo, semear, tra- tar, fazê-lo produzir. O ódio destrói. O amor deve reconstruir. Essa é a linha de desenvolvimento de nossa época Primeiro, a paixão; depois, a ressurreição. O involuído esgotou sua missão. Agora chegou a vez do evoluído. Os amadurecidos são chamados para o trabalho e, mais do que nunca, agora sua vida se transforma em missão. Esgotaram-se as vãs tentativas dos experimentos materiais e verificou- se que os expedientes atuais não resolvem o problema. Nada mais lógico; pois, que agora, a título de reação e compensação, e por meio de expedientes de tipo oposto se inicie outra qualidade de experimento, o do espírito.
Apenas começamos a caminhar rumo ao bem e à sua realização na terra, assalta-nos o pensamento de que talvez se trate de utopia. Isso naturalmente acontece porque nos afastamos da dura realidade da terra e sabemos consistir o objetivo da evolução justamente nesse afastamento. Vimos que o mal pode constituir grande obstáculo, terrível resistência e, no entanto, o bem é o verdadeiro e definitivo senhor. A realidade quotidiana do mal desmente a aparente utopia do bem; esconde, como véu, a verdade mais profunda, esconde-a dos violentos e até mesmo dos astutos; não a esconde, porém, dos justos. A estrada é longa; mas a ascensão, fatal; e o mal não prevalecerá. Nem a insipiência, nem a traição, nem o erro, nem o abuso, nada pode deter a maré montante do progresso. No sistema se prevê que toda queda e todo mal tem remédio. As multidões são certamente ignorantes e cegas e sujeitas àquilo a que pode reduzir-se qualquer governo inepto, isto é, a serem esmagadas pela força e exploradas pela astúcia. Mas os povos se iludem quando crêem que a orientação necessária possa ser-lhes dada pela liberdade dos chefes, ao invés de provir de consciência coletiva; e esta os povos podem conquistar apenas à custa do próprio esforço e através de duras provações. Os povos, como os indivíduos, devem aprender por si mesmos, por meio de seus erros e dores. Toda nova experiência política apenas serve para passarmos cada vez mais de estado de