CAPÍTULO 1. E L DECIR SIN HABER DICHO . U NA APROXIMACIÓN A LA COMUNICACIÓN
1.9. Conclusiones
O tolo termina no começo; O sábio começa no fim.
G. Polya117 Já se passaram vinte e dois meses de dedicação a este trabalho, e sentimos, assim como também tudo indica, que já é hora de fechá-lo. Mas também sentimos uma sensação de que é agora a hora de iniciá-lo. Pois, compreender ou, pelo menos buscar compreender a cultura de um povo, entender como organiza seu espaço e, conseqüentemente, como a matemática intrínseca nesse espaço está estruturada, é algo que exige um tempo razoável de permanência in locus e isso, às vezes, não é possível, pois ficamos divididos entre as exigências da academia, principalmente, com relação ao tempo, e às necessidades que o trabalho requer.
Olhando para todo caminho percorrido (o que não significa termos chegado ao fim), tivemos vários momentos de convívio com os A`uwẽ, e foi através de cada um deles que fomos percebendo alguns aspectos que no nosso entendimento são singulares. O primeiro deles é o fato de que, mesmo que o sistema de dominação política colonialista tenha negado a sua identidade enquanto um povo culturalmente distinto, a forma que os A`uwẽ estão organizados espacial e socialmente foi, e ainda é, um dos principais fatores de preservação da sua cultura perante o processo de homogeneização proposto por segmentos institucionais da sociedade envolvente.
Compreender como se dá essa organização é algo que ocorre somente a partir do entendimento de como cada grupo doméstico, cada grupo de idade e as facções clânicas estão organizados e, essencialmente, como se dão as relações desses segmentos. Sendo assim, foi ao nos inserirmos nesse contexto que percebemos o sentido harmonioso da relação dos indivíduos com os lugares que ocupam e com os demais lugares que compõem o espaço, ou seja, a harmonia do Ró. Com isso, podemos dizer que é essa relação dos indivíduos com os lugares que constitui e organiza o espaço, formando assim o mundo na concepção do povo A`uwẽ. Nessas relações, o indivíduo não somente proporciona a referida organização, mas também, sofre as influências dela. De certa forma, é nessa estrutura que se encontram os mecanismos de geração, sistematização e difusão da matemática A`uwẽ.
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Para uma primeira vista, o conjunto de lugares que compõem o espaço A`uwẽ é passível de uma impressão de que sua organização se dá apenas com o semicírculo formado pelas casas e este, quase sempre, de frente para um riacho. Mas indo um pouco mais longe do que aparenta a organização espacial/social A`uwẽ, percebemos que ela não se restringe apenas à disposição das casas, na sua forma física e na composição dos grupos domésticos no seu interior. Podemos dizer que é a partir da organização do seu espaço que o povo A`uwẽ elabora os veículos de geração, organização e difusão dos seus conhecimentos, pois, para esse povo, essas três dimensões são indissociáveis e ocorre em todos os momentos da vida dos indivíduos, e que estes ocorrem em lugares específicos do espaço A`uwẽ. Como pudemos perceber no decorrer desse trabalho, a divisão/partilha é apreendida pelo indivíduo ainda criança observando os mais velhos repetirem o processo de distribuição dos alimentos no interior do seu núcleo doméstico. Já a arte de lutar, caçar, pescar, confeccionar artesanato, catar, dançar, são ensinamentos que normalmente são difundidos no Hö. O Warã, por exemplo, já é um lugar em que ocorrem outros ensinamentos para os indivíduos que se encontram numa fase da vida adulta, ou seja, Iprédu. A forma de organizar o espaço a partir de um sistema onde a unidade sempre é tida como um par, ou seja, cada um tem sua outra metade, é um aspecto que vai além de um simples sistema de contagem. Portanto, é a partir dessa forma de organização do espaço que podemos perceber que as qualidades socioculturais intrínseca nessa forma de organização ultrapassam as formas da matemática acadêmica, principalmente no que diz respeito à geometria.
Nesse processo de difusão do conhecimento entre os A`uwẽ, a repetição e o silêncio são elementos muito importantes na pedagogia desse povo. Pois, repetir cada ensinamento significa vivenciá-lo e re-significá-lo, e é através do silêncio que o indivíduo alcança a sabedoria transmitida pelos mais velhos. Silêncio não no sentido de simplesmente de se calar, mas de se permitir sentir os verdadeiros sentidos dos mitos, dos ritos, das narrativas, dos hábitos e dos sonhos. De maneira geral, essa pedagogia ocorre em todas as dimensões do espaço A`uwẽ, o que, de certa forma, visa um controle social de cada indivíduo de modo a assegurar o funcionamento do organismo vital da comunidade, a cultura.
Outra principal característica desse processo organizacional do conhecimento do povo, que podemos perceber a partir da forma de organizar o espaço, é que nada está isolado e nada pode ocorrer independente do restante desse sistema. Sendo assim, não podemos pensar na matemática produzida por este povo sem levarmos em consideração os aspetos culturais e cosmológicos. Matemática esta que está refletida em todos os lugares que constituem o espaço e, conseqüentemente, em todos os objetos que ocupam esses lugares e que, por sua
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vez, é repleta de texturas sutis e discretas, que revelam e ocultam as características da cultura A`uwẽ. Como por exemplo, no arco e flecha de um caçador estão registrados aspectos matemáticos que explicitam as características do seu dono, assim como também o grupo que pertence, pois cada arco e cada flecha são fabricados respeitando as medidas do corpo do artífice. Sendo assim, podemos perceber que a matemática produzida nesse meio não atende, a priori, aos teoremas e axiomas da matemática escolar, mas sim, os princípios culturais do povo.
Dessa trajetória, não temos nada, ou quase nada a concluir sobre a organização espacial/social do povo A`uwẽ, mas sim, preocupações no que diz o desrespeito com a sua matemática. Pois como percebemos no sistema educacional desse povo, a aprendizagem acontece no dia-a-dia. Não existe parede delimitando e determinando o espaço e nem o momento para que isso aconteça. A aprendizagem acontece ao viver e vive-se ao aprender, portanto o sistema é dual, contínuo e, conseqüentemente indivisível. Sendo assim, nessa forma de se organizar espacial e socialmente o povo, não há a possibilidade de traçar uma linha nítida de demarcação entre o social e o religioso, o profano e o sagrado, o cotidiano e o sobrenatural. Esse é um “teorema” que, pelo que parece, a escola do não-índio ainda não tem conseguido demonstrar, mas que, de uma maneira ou de outra, tem se esforçado muito para substituir a pedagogia tradicional desse povo por métodos que se supõe serem ideais nas resoluções dos problemas dos povos culturalmente distintos, principalmente no que diz respeito aos modelos de escolas implantadas em muitas comunidades.
Diante de tudo isso, percebe-se que a forma de organizar o espaço e também a forma como essa organização influencia na maneira de ser dessas pessoas, parecem indicar a necessidade de discutir um pouco mais sobre o papel da matemática acadêmica, se é que ela existe, nesse contexto, assim como também, conhecer melhor a matemática desse povo, pois a substituição dessa matemática por outra qualquer, contribui para a manutenção e perpetuação do pensamento ocidental, desconsiderando assim, as diferentes formas de conceber e compreender o espaço dentro da sua complexidade social.
Enfim, discutir a organização espacial/social do povo A`uwẽ é algo que nos enriquece em todos os aspectos e que tem muito a contribuir com o nosso sistema educacional. Nos vários momentos de convívio, observando o cotidiano das pessoas e da comunidade em geral, aprendemos que para fazermos mudanças profundas no nosso ser e no meio que estamos inseridos, temos que desenvolver primeiramente o nosso espírito, pois é através dessa força espiritual que os A`uwẽ conseguem se manter como povo, se resguardarem, como também resguardam os ensinamentos oriundos dos seus ancestrais.
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