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Os moradores da Favela da Coca-Cola normalmente utilizam a infra-estrutura e os equipamentos públicos localizados no entorno, sobretudo do bairro Ipiranga que é o mais próximo. A localização da favela e a permanência de seus moradores naquela localidade é estratégica, no sentido de que ali o acesso geográfico à escolas, postos de saúde, meios de transporte e outros equipamentos públicos é maximizado.

A relação desses moradores com o bairro Ipiranga parece ser maior do que a relação com outros locais da cidade. Isto se percebe pelo fato de grande parte deles afirmarem fazer suas pequenas compras (especialmente de alimentação), utilizar serviços de saúde (sobretudo a unidade básica), escolas, entre outros, nas redondezas da favela. Quando questionados sobre os locais de suprimento de suas demandas, os moradores afirmaram que normalmente supriam demandas de alimentos, saúde e educação nas imediações.

Figura 14. Tipo de demandas supridas nas imediações da Favela da Coca-Cola - 2006.

Fonte: ROSA , L. R. Aspectos da favelização em Ribeirão Preto – SP: revelando vivências, 2008.

As demandas supridas fora das imediações, se concentravam em compra de alimentos e na busca de serviços de saúde. As compras, quando realizadas fora das imediações da favela eram feitas nos bairros em que as famílias residiam antes, como Campos Elíseos e Vila Virgínia. Segundo os moradores, isso se justificava, pois nesses locais poderiam comprar a prazo sem grandes burocracias. Todavia, no que diz respeito à compras, a

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maior parte da renda das famílias era destinada à aquisição de alimentos, pois outros gastos nem sempre se encaixavam no orçamento.

Já o acesso aos serviços de saúde concentrava-se na área central (na busca por serviços de emergência), no bairro Monte Alegre, onde se localiza o Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo, ou ainda, em alguns caso, na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). A ida até a área central era normalmente realizada com o objetivo de buscar esses serviços emergenciais, o que significa dizer que a circulação dessa população se concentrava no âmbito da favela e de suas redondezas.

Os principais problemas mencionados pelos moradores em relação ao local de moradia concentram-se especificamente na ausência de infra-estrutura básica, como mencionamos anteriormente. Questões como drogas e violência foram mencionadas nos relatos, mas essas, ao que parte significativa dos moradores mais antigos relata, têm uma perspectiva histórica que deve ser levada em consideração.

Há cerca de 6 anos, antes da pesquisa, a insegurança no local era grande. Havia disputas entre diferentes grupos pela liderança dos pontos para venda de drogas na região. Por meio de relatos, foi possível identificar que a disputa pelo controle do tráfico se dava entre favelas84. No entanto, o ambiente na favela da Coca-Cola foi, aos poucos, sendo modificado.

Os moradores mais antigos relembram desses fatos tranqüilamente, não tendo impedimentos ou constrangimentos em abordar essa questão, o que nos pareceu indicativo de que a criminalidade não era preponderante nos últimos tempos. Já, os moradores mais novos não tinham referências de criminalidade, apontando outros elementos como fatores de insegurança.

Diante desse histórico e de todos os elementos observados em campo, consideramos pertinente retomar a questão das especificidades das periferias, favelas e moradias irregulares fora do contexto das metrópoles. Verificamos que, ao contrário de favelas existentes em São Paulo ou Rio de Janeiro, em que a criminalidade é um elemento imperativo, questões de violência e criminalidade na favela da Coca-Cola em Ribeirão Preto podem ser consideradas como datadas. Ali, a criminalidade estava presente na mesma proporção que em outros bairros ou outras regiões da cidade. Nesse sentido, é importante estabelecermos um certo distanciamento entre esta e outras favelas, já que a criminalidade não era um elemento

84 Por meio dos relatos dos moradores, verificamos que até por volta de 1999, eram comuns disputas pelo controle do tráfico de drogas entre moradores da Favela da Coca-Cola e de outra favela. Esse fato desencadeava uma série de situações como toques de recolher, controle interno do fluxo de pessoas, entre outras relatadas pelos moradores. Vários moradores relataram que, após a execução de um dos líderes das “gangues” envolvidas, o clima de insegurança diminuiu consideravelmente.

constitutivo do local: não se tratava de uma barreira social, não limitava a organização social dos indivíduos, da mesma forma que não regia a relação entre os moradores. Em vários momentos e em contato com os mais diferentes moradores, essa questão foi ficando evidente, sendo reforçada por um sentimento de pertencimento revelado gradativamente.

Nessa perspectiva, quando questionados sobre o que achavam de residir ali, a grande maioria mencionou gostar de habitar o local, considerando tranqüilo para se viver a despeito de inúmeros pontos negativos (figura 15).

Figura 15. Respondentes segundo afinidade com o lugar, Favela da Coca-Cola - 2006.

Fonte: ROSA , L. R. Aspectos da favelização em Ribeirão Preto – SP: revelando vivências, 2008.

Quanto aos que responderam negativamente, justificaram a resposta não apenas pela ausência de infra-estrutura básica, mas mencionaram a condição de ilegalidade e a falta de habitação própria. Os respondentes que mesclaram várias opiniões também relataram os mesmos motivos, mas esses últimos mencionaram morar no local por necessidade.

O fator violência, desencadeado especificamente pela presença de drogas ou outras atividades ilícitas, não apareceu como marca nos relatos sobre a favela no momento de realização da pesquisa. Gradualmente, esse aspecto pôde ser mais bem compreendido. De acordo com os moradores, o local “mudou muito”. Um dado significativo e que vem contribuir para essa mudança, é uma nova “rede” de pessoas que passou a habitar o local. Em conversa com Sr. Pedro, de 64 anos e residente há 13 anos na favela, ele menciona: “Aqui agora, é tudo gente boa. A maioria das pessoas que moram aqui é tudo irmão”. “Irmão”,

referindo-se à presença de pessoas integrantes das igrejas evangélicas, que é significativa. Essas pessoas trazem condutas, valores e atitudes que parecem transmitir “segurança” aos demais moradores. 63% 24% 1% 12% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70%

Sim Não Indiferente Várias Opiniões

Figura 16. Considerações sobre segurança, Favela da Coca-Cola - 2006.

Fonte: ROSA , L. R. Aspectos da favelização em Ribeirão Preto – SP: revelando vivências, 2008.

Ao abordar o tema acima descrito, os moradores mencionaram como causas de insegurança: o trânsito que cerca a favela (de grande movimento e extremamente perigoso para as crianças e idosos); a ausência de saneamento básico (causa de doenças, sobretudo, em crianças); a ausência de asfaltamento das vias (que especialmente em dias de chuva põe em risco as moradias).

Mesmo cientes do conjunto de riscos que enfrentavam, a grande maioria dos respondentes afirmou gostar de morar no local e, mais do que isso, demonstrou esperanças de que esse local possa ser, em um futuro não muito distante, adequado às necessidades da maioria. Esperança e falta de perspectivas, por vezes, se mesclaram no que diz respeito a perspectiva de futuro85.

Contudo, não podemos desconsiderar que esse “gostar” de habitar o local informa também sobre a condição econômica e posição que esse grupo de moradores ocupa na sociedade. Mais do que opção, habitar a favela da Coca-Cola representa solução encontrada dentro das condições estruturais possíveis. Por outro lado, simples ou cheia de detalhes, rústicas ou não, essas “soluções” foram criadas por eles, imbuídos de persistência e resistência no sentido de (sobre) viver na cidade.

85 “O decifrar do mundo construído pelos homens, seus projetos, sonhos e materialidade partilham um universo ambíguo - o encantamento e o desencantamento - em busca do sonho da casa própria, de uma lado, e a dificuldade de conseguir que este sonho se concretize plenamente, de outro. A casa no rol das necessidades básicas do ser humano por se constituir um importante fator de agregação e identificação com os seus semelhantes.” (Campos apud Fernandez, 2004: 95).

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