Del 2 – Vitenskapelig artikkel
5. Conclusion
150 A vivência de diferentes formas de violência intrafamiliar é um aspecto marcante nas histórias de vida das mães entrevistadas, tanto nas suas famílias de origem quanto nas relações famíliares atuais.
Entender a violência intrafamiliar neste contexto implica em ter uma compreensão histórico-psicossocial da vida dessas mulheres e de suas famílias. Pressupõe que procuremos compreender como as interações e os relacionamentos interpessoais ocorreram e ocorrem dentro da família, buscando entendê-los não como um fenômeno natural, mas algo que foi construído, naturalizado e que vem sendo transmitido através das gerações (Souza & Silva, 2002).
Conforme Azevedo e Guerra (1995), quando uma família apresenta um padrão abusivo de relacionamento interpessoal, ela está revelando as cicatrizes da história pessoal dos seus membros. Fala-se aqui de uma repetição transgeracional de conflitos, que influencia as relações entre as gerações e transmite conteúdos afetivos, simbólicos, psicossomáticos e míticos entre os membros de uma família em interação (Boszormenyi-Nagy & Spark, 2001; Bucher, 1986; Costa, Almeida, Ribeiro & Penso, 2009).
Pensemos, por exemplo, as histórias de Darci e Maria trazidas durante as entrevistas e as vivências no GM. Suas famílias de origem, caracterizadas por uma estrutura familiar patricentralizada, têm como modelo relacional a hierarquia e a autoridade, no qual o pai é o senhor da lei, cuja dominação violenta recai sobre a esposa e os filhos. As lembranças de ambos os pais estão associadas à agressão, violência, temor e marcas corporais visíveis e invisíveis e por isso carregada de mágoa e ressentimentos. A violência parental foi marcante em suas vidas e instalou nelas uma dificuldade para falar do passado, demonstrando certo aprisionamento e identificação com o lugar de vitimização. O rememorar é penoso, pois presentifica as agressões e o
151 sofrimento vivenciados, expressando o quanto ficaram fortemente internalizados em suas almas os maus tratos sofridos na infância.
No caso de Keila, o pai não existe em sua vida e essa ausência é marca comum no contexto familiar, sendo algo compartilhado entre os irmãos. O deslocamento do papel paterno para o avô, não parece ter sido o suficiente para marcar essa função paterna na sua história. O avô é apenas relembrado como alguém agressivo e “rabugento”, que excluiu e expulsou a mãe de casa e do convívio familiar.
Em todas as histórias, a lembrança da mãe é associada a sentimentos de abandono, de indiferença e distanciamento emocional. A figura materna aparece também como não afetiva, à sombra do pai, às vezes violenta e não protetora. No caso de Keyla isso também é verdadeiro, ficando na sua memória, além da mãe distante e de não referência afetiva, a lembrança da mãe-avó é de ter sido “brava” e pouco afetuosa, mesmo em situações de fragilidade física, como em situações de adoecimento, por exemplo.
De modo geral, a infância vivida por Darci, Keila e Maria foi ausente de manifestações afetivas positivas ou com manifestações afetivas empobrecidas, sem um modelo de relação protetora nas figuras parentais ou em seus substitutos.
Na atualidade, a distância emocional dos pais é reforçada pela distância física. Pelas mágoas deixadas da relação com a figura paterna, elas não relatam sua falta, porém, expressam a falta materna e o ressentimento de não poderem ter suas mães como referências de apoio, como expressaram Darci e Maria.
Como mulheres adultas, essas mulheres (re) viveram episódios de violência doméstica em seus relacionamentos conjugais, muitas vezes em associação com álcool ou outras drogas ilícitas (vide genogramas). Tanto Darci como Maria, mas também Keila e Esmeralda, repetiram essas histórias de envolvimentos com homens violentos
152 em diversos momentos de suas vidas. Os relacionamentos atuais também não fogem a essa regra. Esse padrão vincular nos relacionamentos conjugais demonstra uma continuidade das experiências vividas na infância, nos quais elas acabaram por reproduzir e atualizar a matriz socioafetiva primária. A literatura aponta nessa direção de uma relação entre as vivências infantis e violência doméstica. Pesquisas indicam haver um padrão de transmissão das experiências de violência ao longo das gerações, no qual mulheres vítimas de violência conjugal presenciaram a vitimização de suas mães na infância (Carrasco, 2003; Cecconello, 2003; Narvaz, 2005). O legado de violência, abuso e dominação se destacam nas histórias pessoais das participantes, expressando serem essas referências importantes na organização das relações intra e extrafamiliares dessas mulheres.
Na compreensão de Narvaz e Koller (2006), os papéis estereotipados de gênero veiculados pela cultura por meio da família tornam invisíveis tanto a produção quanto a reprodução da subordinação feminina, solo fértil para a ocorrência de abusos. Saffioti (2001) explica esse processo de reprodução baseando-se nos esquemas cognitivos que o gênero fornece para a formação da identidade, nos processos de identificação, nas representações, nos papéis sexuais, enfim, na idéia da internalização de concepções de gênero difundidas pela cultura e reproduzidas nas relações entre os indivíduos, dentro e fora do contexto doméstico. A superação da violência e desses padrões depende, entre vários fatores, de características psicológicas saudáveis, mas, sobretudo de uma rede social e afetiva permeada de reciprocidade e estabilidade construtivas que possam criar novos padrões relacionais fora do paradigma patriarcal e da lógica dominação- exploração (Saffioti, 1997, 2002; Narvaz & Koller, 2006; Cantelmo & Costa, 2009).
Nos casos analisados, esses elementos reconstrutores e de proteção parece ter sido limitados na experiência de vida dessas mulheres, o que facilitou a repetição da
153 estrutura de gênero e do padrão abusivo aprendido em suas relações primárias em muitas situações. Conforme expressaram durante as entrevistas e no contexto do Grupo Multifamiliar (vide observações do GM), o amor sensual experimentado nas relações com seus parceiros foi vivido e confundido com destruição e sofrimento, deixando-lhes mais feridas e sentimentos de impotência, auto-desvalorização e desesperanças. Resta- lhes o amor pelos filhos e por Deus, que se tornam os únicos antídotos para seus conflitos e frustrações emocionais, “pois são os únicos que dão força e preenchem o coração”.