Como pode um peixe vivo viver fora da água fria
Como poderei viver Como poderei viver Sem a tua, sem a tua, Sem a tua companhia...
Esta primeira formação feita na creche teve como foco a sensibilização para o trabalho com elementos da natureza. A fotografia ao lado foi selecionada por duas das entrevistadas como um momento significativo da formação. Surge nas narrativas como foi trabalhar com os elementos da natureza, manuseá-los e o contato com os espaços ao ar
livre. Algumas descreveram as formações, como uma nova referência para o trabalho com as crianças.
E 2 - “Eu me senti bem, foi gostoso de trabalhar com elementos da natureza foi nosso objetivo que trabalhamos o ano inteiro.”
E 3 - “[...] um olhar aproveitar os espaços que a gente tem, trabalhou muito com a natureza [...]”
E 5 – “Aqui achei legal a proposta de instigar a curiosidade com elementos da natureza depois a gente desenvolveu um trabalho com as crianças com sementes com elementos da natureza, a gente foi se apropriando da ideia e fazendo um trabalho mais significativo[...]” (grifo nosoo)
A formação propôs um contato com os elementos da natureza a partir dos sentidos tocar, cheirar, ouvir e sentir, incentivando o movimento individual e coletivo de reencontrar o prazer em estar em contato com esses elementos e explorar as possibilidades de trabalho.
Sobre a necessidade trabalho de aproximação ou retomada do contato com os elementos da natureza encontramos a seguinte afirmação:
A retomada desse modo de sentir e viver a vida – hoje tão pouco valorizada por nossa civilização, mas tão presente entre os seres humanos em sua infância – exige um movimento de reaproximação da natureza. Melhor, dizendo, exige uma reintegração ao universo do qual somos parte. E não apenas em consideração às demais espécies, à necessidade de preservá-las, mas também por questão de preservação da própria integridade humana. Pois segundo Espinosa, é o desejo o impulso que assegura a realização dos atos que nos possibilitam a manutenção desta integridade. O desejo é “o móbil fundamental da conduta humana”, é o princípio fundamental que rege a vida afetiva, no sentido da autoconservação e da autoexpansão (GLEIZER, 2005, p. 32-33).
Outro aspecto que emergiu e se destacou nesta categoria, foi o prazer em estar em contato com os espaços naturais durante as formações, o espaço citado refere-se ao sítio Reino Animal onde foi realizada a terceira formação em julho de 2016, um espaço com estrutura para aulas de Educação Ambiental com muito verde e animais, onde passamos o dia em contato com este espaço.
E 1 – “Roda de conversa ao ar livre, natureza, som dos pássaros a brisa [...]
E 4 – “[...] quando a gente voltou das nossas férias, que a gente foi muito bem recebida estar em contato com a natureza, e estar trabalhando também uma coisa muito significativa pra mim, que era os animais e a
natureza[...].(grifo nosso)
Para Lea Tiriba (2010) o bem estar e o prazer em entrar em contato com o ambiente ao ar livre vem do fato de sermos seres biofílicos “ isto é, oriundos e associados a uma grande rede que inclui o que compõem a vida em seu conjunto, elementos bióticos e abióticos”
Assim todo o esforço civilizacional no sentido de nos colocarmos distanciados, separados e superiores a natureza, é desconsiderado pela criança [...] nós adultos, adultos, já não apresentamos talvez por termos sido podados em relação ao desejo de interação. Mas sabemos que a proximidade nos oferece bem estar, prazer estético, equilíbrio. Por isso, quando estamos estressados, quando precisamos descansar, não são as ruas movimentadas o que procuramos, não são espaços entre paredes o que almejamos. Está no verde dos campos, nos espelhos d’água o foco de nossos desejos. (TIRIBA, 2010).
Nas entrevistas a colocação do bem estar e do prazer em estar num ambiente, onde é proporcionado o contato com a natureza, é marcante nos relatos, que revelam o prazer do contato com os elementos naturais e a possibilidade de trabalhar com as crianças usando esses recursos.
Segundo Profice, 2010 os estudos da psicologia ambiental, com base no conceito de biofilia, valorizam a proximidade cotidiana da natureza com condição de uma relação estreita entre sentir-se parte do mundo natural e protegê-lo. Isto tudo porque esta condição inata, esta atração humana pelos universos biótico e abiótico depende de fatores culturais para manter-se, isto é, depende de estilos de vida que a alimentem, que a afirmem.
Ratificando o conceito de biofilia e buscando referências para uma nova escola comprometida com a qualificação da vida nos planos de três ecologias – pessoal, social e ambiental temos:
“as três ecologias deveriam ser concebidas como sendo da alçada de uma disciplina comum ético-estética e, ao mesmo tempo, como distintas uma das outras do ponto de vista das práticas que as caracterizam. Seus registros são da alçada do que chamei heterogênese, isto é, processo contínuo de ressingularização. Os indivíduos devem se tornar a um só tempo solidários e cada vez mais diferentes. (O mesmo se passa com a ressingularização das escolas, das prefeituras, do urbanismo etc)” GUATTARI, 1990, p.55.
Para Duarte Jr. (2000) a questão ambiental
não se pode furtar à discussão mais ampla da questão ambiental, do tema da ecologia, tão atual e que vem merecendo a atenção de inúmeros críticos de nosso presente estágio de desenvolvimento. Porque, se por um lado tal questão tem a ver com a própria saúde planetária e com o modelo instrumental de progresso que adotamos, por outro, como vimos no parágrafo anterior, ela se liga diretamente à nossa sensibilidade, à forma como o ambiente nos chega e nos penetra os sentidos. (DUARTE JR., 2000, p. 31)
Segundo Pereira (2005)
Temos a possibilidade de trabalhar a Educação Ambiental no espaço escolar de forma criativa, inovadora, contextualizada, diversificada, interdisciplinar, contemplando suas múltiplas dimensões, buscando novas possibilidades educativas e sociais. Ela pode e deve, permear todo o currículo escolar, sendo abordada de forma interdisciplinar. A Educação Ambiental não pode se fechar em uma disciplina curricular e sim num fazer pedagógico, um modo de ensinar/aprender, pensar/agir. (PEREIRA, 2005, p. 41)
A proposta de trabalho com as crianças de creche com os elementos da natureza inicialmente causou certa estranheza, enquanto construção de uma proposta educativa na creche, o inexplorado trouxe mais dúvidas do que certezas. Desenvolver este trabalho com as crianças requer sensibilidade e criatividade não existe uma receita de como fazer, o que existe é um experimentar e descobrir com a criança.