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Em 1890, O cortiço foi descrito como uma obra “exótica”, por Artur Azevedo, irmão do escritor Aluísio Azevedo, por abordar uma realidade pouca conhecida por muitos na época em que foi publicado no Brasil pela Editora B. L. Garnier. Hoje, não se pode afirmar que esse exotismo se mantém, pois as precárias condições habitacionais e sociais aumentaram, em paralelo ao crescimento populacional do país, e são noticiadas e vivenciadas por muitos brasileiros.

Mais que uma obra solicitada nos concorridos vestibulares do país, leitura exigida na Educação Básica ou, ainda, a maior expressão literária do Naturalismo brasileiro, O cortiço pode ser visto e abordado, embora se trate de uma ficção, como um estudo sociológico do Brasil do século XIX, conforme propõe Gilberto Freyre (2002).

Discutir, por conseguinte, as características literárias e a tese social desse livro de Aluísio Azevedo, no momento sócio-histórico em que foi escrito, e propor um diálogo com a atualidade é também possível e pertinente. É certo, portanto, a contribuição de O cortiço não só com a literatura, mas a com história, uma vez que seu estudo ou deslocamento para o século XXI possibilita refletir sobre os problemas antigos e atuais da sociedade brasileira, de que forma eles podem ser perpetuados, modificados ou surgir.

Embora trata de um bem cultural do Brasil, cujo valor é reconhecido por renomados críticos literários, conforme mostrado ao longo desta dissertação, O cortiço é um bem de consumo. Assim foi observado neste estudo que selecionou como corpus a imagem de três capas, ou seja, três embalagens desse livro oferecidas para os leitores do século XXI. Assim, também, foi posto por seu autor em 1890.

Ao estudar a biografia de Aluísio Azevedo, observando, especialmente, suas condições de produção, é notório o fato de que o autor escrevia para sobreviver no sentido prático da vida, ou seja, materialmente, e não apenas como forma de expressar seu reconhecido talento.

Aluísio Azevedo e seus contemporâneos, para não decepcionar as expectativas do público-leitor da época, alimentavam, ainda que aparentemente na maioria dos casos, o caráter boêmio da atividade literária. Essa pretensa boemia pode ser compreendida como um epitexto público, ou seja, uma mensagem externa, mas em torno dos livros, conforme conceito proposto por Genette (2009) e estudado no início do terceiro capítulo.

Essa preocupação em manter o mito de vida boêmia para o público, implicando diretamente o regime de visibilidade de como os escritores eram e deveriam sem vistos, em

comparação aos modelos literários parisienses, tão em moda no século XIX, é, portanto, uma estratégia mercadológica. Essa estratégia de valorização intelectual, por não ser explícita, era aceitável. Já, promover um livro como bem de consumo, anunciando-o em jornais, panfletos ou cartazes, por exemplo, não era cabível. E conceber o livro como um bem cultural, e não como uma mercadoria, é, ainda nos dias atuais, o modo mais aceito de vê-lo e significá-lo.

Ao estudar a composição das capas, estuda-se os detalhes criativos que são, também, detalhes de consumo que podem influenciar a compra de uma edição e não de outra, de um título e não de outro. Desse modo, propor o estudo das capas de um clássico da literatura brasileira, em alguns ambientes, é quase uma afronta ao universo letrado, ainda que se proponha observar o processo de tradução intersemiótica para estabelecer correspondências semânticas entre as diferentes linguagens.

Das 88 leituras possíveis, considerando a quantidade de capas levantadas para esta pesquisa, no mercado editorial brasileiro, para apresentar a obra O cortiço, foram escolhidas 3 edições, conforme critérios postos no início do quarto capítulo. Feitos os respectivos estudos, constatou-se a possibilidade de três leituras distintas, uma vez que cada uma das capas prioriza imageticamente um ou mais aspectos da obra, suscitando diferentes efeitos de sentido.

A primeira capa analisada, da Editora DCL, composta pela ilustração de João Lin, remete, mais enfaticamente, a um personagem, considerando que o cortiço também é retratado nessa capa. A capa da Editora Hedra remete à estalagem, pois a fotografia escolhida para traduzir imageticamente o texto literário apresenta, em seu contexto geral, precárias construções. E a capa da Editora Ática remete, por meio de várias pegadas da instalação de Regina Silveira, ao microcosmo criado por Aluísio Azevedo e, por conseguinte, aos habitantes da estalagem.

A partir da ilustração de João Lin, vários elementos narrativos de O cortiço, críticas sociais apontadas por Aluísio Azevedo e características naturalistas são resgatados. O espaço narrativo é apresentado com a ilustração do Corcovado ao fundo. Dois personagens, João Romão e o cortiço, também compõem a capa.

Quanto às críticas, citam-se: o semicolonialismo ainda presente no Brasil no final do século XIX, cuja representação pode ser apreendida pela marionete manipulada por uma das mãos do português; as cédulas de dinheiro que caem do bolso como uma referência à exploração da terra e das pessoas; o lusitanismo marcado pelas cores das roupas de João Romão.

Já o darwinismo, presente em O cortiço, pode ser compreendido por todo o conjunto que compõe a ilustração de João Romão: o tamanho ocupado na capa, a manipulação do cortiço- marionete, o enriquecimento e, principalmente, pelo fato de o personagem estar à frente do

Corcovado, Rio de Janeiro, Brasil, ou seja, do meio. Evidenciado, o fato de que esse português venceu a “terra encharcada e fumegante” (AZEVEDO, 2012, p. 82).

Ao estabelecer a relação entre texto verbal e não verbal, para a segunda capa, observou-se a precariedade das construções da fotografia em correspondência ao pessimismo de O cortiço. Essas duas características provocam tensão nas respectivas leituras, da imagem e da palavra, ativando, dessa maneira, a leitura de mundo de cada leitor.

Com referência à estética naturalista, cuja conexão pode ser estabelecida com a capa da Editora Hedra, destacou-se a descrição minuciosa de ambientes e personagens, uma técnica possível pela palavra que remete à técnica pertinente ao campo fotográfico ao captar uma imagem.

Ainda sobre a capa da Editora Hedra, observou-se as sombras próprias e projetadas da fotografia em oposição à luz. Apesar de os espaços abertos, não é percebida a entrada de luz no interior da construção, como uma negação a essa onda eletromagnética, ponto esse que coincide com o amaldiçoar da personagem Piedade à luz do Sol, segundo a portuguesa, responsável por toda a sua desgraça no território brasileiro.

Finalizando o estudo dessa segunda capa, observou-se, também, o que representa a moldura em uma composição imagética, estabelecendo a conexão de que Aluísio Azevedo emoldurou, na estalagem, parte da sociedade carioca que desejava apresentar em seu texto.

Com referência à última capa analisada, da Editora Ática, também foi possível estabelecer relações entre diferentes expressões de arte, a instalação Irruption Series (2005) e o texto literário O cortiço, ou seja, texto não verbal e verbal.

Constatou-se que a deformidade presente na obra de arte também pode ser encontrada na obra literária. Em Regina Silveira, a deformidade faz-se evidente por meio da técnica utilizada para compor sua arte, anamorfose; em Aluísio Azevedo pelo corrompimento que os habitantes da estalagem são submetidos pelo meio ou pela hereditariedade, podendo essa deformidade ser associada, ainda, à falta de individualidade propiciada pela estrutura civil de um cortiço.

Verificou-se, ainda, outro elemento comum presente em ambas obras, a desarmonia. Na instalação, a desarmonia é marcada pela multiplicidade de formas e direções das pegadas; já no texto literário, a desarmonia aparece nas relações entre os habitantes da estalagem. E, seguindo essa analogia, as pegadas foram observadas e apreendidas como símbolos que representam os moradores do cortiço.

Assim como nas outras duas capas, as cores também foram analisadas. Na capa da Ática examinou-se, sobretudo, o contraste entre o preto e o branco, relacionando-o ao corrompimento tanto cromático, no caso da instalação, quanto social, no caso do texto literário. Findas as análises empreendidas no quarto capítulo e aqui retomadas, propõe-se uma comparação entre os três textos imagéticos selecionados como corpus para esta pesquisa que teve como objetivo examinar as correspondências semânticas entre capas e texto literário.

Por ser uma capa, elaborada visando ao texto principal e leitor, a imagem da capa da DCL é a que permitiu, a esta pesquisa, empreender o maior número de análises, no âmbito literário e formal, ao reconstruir, por meio da imagem, vários elementos narrativos do texto principal.

A imagem utilizada pela Hedra, como explicado pelo designer Júlio Dui, não tinha a pretensão de retratar o cortiço de Aluísio Azevedo na capa, de ser fiel ao texto literário, dessa forma, embora tenha sido possível estabelecer relações entre as duas linguagens, a análise pautou-se, primeiramente, no estudo das formas, e, portanto, nas leis gestaltistas, para então organizar as correspondências semânticas com o texto literário.

A imagem da capa da Editora Ática, por sua vez, foi a que possibilitou o maior número de relações com o determinismo, uma das características naturalistas mais presentes em O

cortiço. Essa aproximação foi possível, pois, em Aluísio Azevedo o determinismo é o princípio

que marca a deformidade dos personagens; em Regina Silveira a anamorfose é a técnica que marca a sua instalação.

Cabe destacar, ainda, que, embora a Ática, com a reestruturação da Coleção Bom Livro almejou atingir, também o público adulto, como explicado por Fabricio Waltrick; e que a fotografia na capa da Hedra não apresente fielmente a estalagem de O cortiço, todas as edições, da DCL, Hedra e Ática, destinam-se, de forma mais evidente, ao leitor em formação. Isso pode ser constatado, observando-se os demais paratextos editoriais, em complemento ao estudo imagético.

O ilustrador João Lin afirmou que a Coleção Grandes Nomes da Literatura da DCL era direcionada ao público jovem. Mas, ainda que não tivesse feito essa afirmação em sua entrevista, o elemento textual que aparece na capa, “Texto integral com comentários”, sugerindo que há esclarecimentos acerca do texto principal, leva o leitor a considerar que a compreensão da leitura será facilitada pelo editor.

Mesmo não estando visível nas edições comercializadas pelos canais virtuais, o que pode ser aqui compreendida como uma estratégia mercadológica que tem por objetivo ampliar o público-alvo, o nome da coletânea, Clássicos na Escola, a qual se insere O cortiço na Editora

Hedra, na versão impressa é extremamente indicativo a qual público se destina essa edição. Inclusive, assim como a DCL, a Hedra inclui notas de rodapé, explicando elementos do texto principal.

Por fim, a edição da Ática, não apresenta nenhum indicativo explícito na capa a qual público a edição se destina, mesmo porque, como já explicado, a editora, com sua coleção reformulada, almeja públicos diferenciados. No entanto, a contracapa apresenta indicativos de que, além das notas explicativas ao longo do livro, da capa representada por uma arte brasileira contemporânea, a edição conta com “introdução e apêndice ilustrados, escritos por especialistas”, corroborando a ideia de que esses elementos contribuirão com o leitor no que se refere ao entendimento da obra.

Apesar de não ter sido possível empreender uma análise comparativa sobre os números de tiragem e vendagem dessas edições de O cortiço, ampliando as informações aqui apresentadas, foi possível examinar, com base, sobretudo, nas leis gestaltistas, na tradução intersemiótica e nos paratextos editoriais, como uma obra do século XIX é traduzida imageticamente na capa para o leitor do século XXI. E, por conseguinte, a importância da capa, um paratexto que versa sobre um discurso e que primeiro apresenta o texto principal ao leitor. Portanto, um elemento textual que não deve ser negligenciado, seja didática ou mercadologicamente.