Nesta seção, mostramos a visão de ensino de Língua Portuguesa de acordo com a concepção tradicional contrapondo-a com a concepção de ensino defendida no presente trabalho, que é baseada na Linguística Funcional Centrada no Uso, conforme caracterizado em Furtado da Cunha, Bispo e Silva (2014).
A necessidade de se discutirem questões relativas ao ensino parte de nossa preocupação com a qualidade de ensino de Língua Portuguesa no nosso país. Na maioria dos casos, esse ensino se resume ao estudo da variedade padrão, em que são apresentados aos alunos conceitos e regras descontextualizados. Nesse sentido, é tarefa do docente reproduzir o que estiver de acordo com a orientação normativo-prescritiva que é adotada nas escolas. O resultado desse ensino são aulas cansativas e improdutivas, que desmotivam o estudante.
É notória a desmotivação dos nossos alunos dos níveis fundamental e médio com esse tipo de ensino que visa apenas à reprodução de conceitos gramaticais, já que há uma considerável diferença entre a língua que eles estudam e a língua que utilizam para se comunicar no dia a dia e, por isso, muitas crianças e adolescentes não consideram as aulas de Português prazerosas. Essa insatisfação não atinge apenas os alunos, mas também muitos profissionais da educação que almejam uma melhor qualidade de ensino nas escolas brasileiras.
Apesar de os documentos governamentais que norteiam o ensino em nosso país, como os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), destacarem a importância de práticas de ensino que viabilizem a reflexão sobre a língua em situações de uso, um ensino que valorize as formas de oralidade e a realidade e os interesses dos alunos, notamos que o ensino tradicional ainda prevalece nas instituições escolares. Diante dessa situação, precisamos de mudanças que melhorem o processo de ensino-aprendizagem e que façam cumprir o objetivo da escola de proporcionar ao aluno a ampliação de sua competência comunicativa, priorizando aspectos que estejam presentes no cotidiano de cada um.
Neste trabalho, assumimos uma perspectiva de ensino de língua diferente da que é adotada no ensino tradicional. Acatamos a visão da Linguística Funcional Centrada no Uso, a qual prioriza um ensino que proporcione o uso eficaz da língua nos variados contextos comunicativos em que se insere o aluno.
De acordo com essa abordagem, o estudo da língua não pode se resumir a análise de sua forma isoladamente, visto que esta se relaciona a um significado e está a serviço do propósito pela qual é utilizada. Nesse sentido, defendemos que a língua como atividade social é determinada pelas situações de comunicação real(FURTADO DA CUNHA E TAVARES, 2007, p. 14).
Além disso, a perspectiva teórica aqui enfocada defende que o ensino de língua deva proporcionar atividades de análise e reflexão sobre a língua em uso a fim de desenvolver a competência comunicativa dos alunos. Destaca, ainda, a importância de se trabalharem as diferentes variedades linguísticas, associando-as às variadas situações comunicativas.
Enfatizamos, assim, que é necessário desmitificar a ideia de que existe apenas uma forma “certa” de falar e levar nossos alunos a entender que a utilização da língua depende de cada contexto comunicativo e, por isso, dispomos de uma variedade significativa em nossa língua. Essa visão nos mostra uma relação entre o Funcionalismo e as orientações presentes nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), como podemos ver a seguir.
No ensino-aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o que se almeja não é levar os alunos a falar certo, mas permitir-lhes a escolha da forma de fala a utilizar, considerando as características e condições do contexto de produção, ou seja, é saber adequar os recursos expressivos, a variedade de língua e o estilo às diferentes situações comunicativas: saber coordenar satisfatoriamente o que fala ou escreve e como fazê-lo; saber que modo de expressão é pertinente em função de sua intenção enunciativa, dado o contexto e os interlocutores a quem o texto se dirige. A questão não é de erro, mas de
adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada da linguagem. (BRASIL, 1998, p. 31)
Considerando, ainda, as aproximações entre a abordagem funcionalista e os documentos que norteiam o ensino em nosso país, Oliveira e Cezario (2007, p. 89) afirmam que a base dos PCN é funcional, já que assume a língua como produto e instrumento das manifestações humanas, ou seja, utilizamos a língua para nos comunicarmos, para persuadir alguém, para expressar sentimentos, entre outras coisas.
Diante disso, as autoras concluem que o objetivo maior do ensino de língua portuguesa é desenvolver competências necessárias a uma interação autônoma e participativa nas situações de interlocução, leitura e produção textual. Dessa maneira, o aluno será preparado para exercer plenamente sua cidadania através do domínio da expressão verbal, falada e escrita. (OLIVEIRA; CEZARIO, 2007, p. 91-92). Tendo em vista essa perspectiva de ensino da língua, como bem abordam as autoras citadas, reiteramos a necessidade de se formarem sujeitos, tanto alunos como professores, orientados a essa visão de ensino de língua materna.
Segundo Oliveira e Wilson (2011, p. 239), a abordagem funcionalista apresenta dois pressupostos básicos que são fundamentais no ensino de língua: o primeiro é que os usos linguísticos são organizados nos contextos de interação e, a partir daí, se sistematizam a fim de formar os padrões convencionais de expressão; e o segundo refere-se às funções desempenhadas pela língua, que, segundo as autoras, são motivadas por fatores externos.
Em outras palavras, em um estudo de cunho funcionalista, é preciso identificar os diferentes usos da língua em contextos reais de comunicação a fim de observar quais formas são mais rotineiras. Além disso, é necessário analisar como fatores externos motivam os usos linguísticos.