Três outros conceitos comuns à Geografia são bastante utilizados quando se fala em turismo: lugar, território e região.
O lugar é o mundo em escala. O lugar não é a parte, é o mundo em dimensão. Nele se manifestam os fenômenos, nele o mundo se realiza. O lugar se concretiza também pelo sentido que a sociedade dá aquele espaço. Espaço da cultura, dos sentimentos, do vivido.
Armando Corrêa da Silva (1986) ao falar sobre as categorias em Geografia enumera- as: espaço, lugar, área, região, território, habitat, paisagem e população, entre outros. Sendo que o espaço é o mais geral e que engloba todos os outros.
Entre os que interessam a esse trabalho, a categoria lugar, segundo o mesmo autor, denota o espaço como um complexo de relações que se dão em uma localização definida. Já a categoria território, é onde o lugar se torna real, concreto, lócus da existência do Estado. Depois da categoria território vem a de região, pois se trata de um território já ocupado, com uma organização do espaço e de um modo de vida bem definido (SILVA, 1986, p. 30).
O turismo se manifesta no lugar, no território, na região. Para Carlos (1999), o lugar é produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade. Aí o homem se reconhece porque aí vive. O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar se liga indissociavelmente à produção da vida. Para ela, é no lugar que emerge a vida, sintetizando-o como a “unidade da vida social”. É nesse espaço concreto e real que cada um se localiza, se identifica ou não, usufrui e modifica, visto que o lugar “tem usos e sentidos em si. Tem a dimensão da vida” (CARLOS, 1999, p. 28).
Partindo do pressuposto de Silva (1986), já citado, podemos concluir que o território, essa parcela do espaço, está sempre associado ao domínio e o poder exercido sobre um espaço
limitado. Logo, é um espaço definido político e administrativamente por um povo. Suas raízes estão na possibilidade de domínio e controle sobre o mesmo pelo Estado.
A respeito do território, Claude Raffestin (1993) foi um dos principais estudiosos dessa temática geográfica, destacando-a dentro de uma ótica que considera o caráter político do território, entendendo-o, também, como um substrato do espaço, este antecedendo ao primeiro. Nas palavras de Reffestin:
É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (...) o ator “territorializa” o espaço. (1993, p. 143).
Quando o autor refere-se à territorialidade do espaço, o faz no sentido da apropriação concreta e abstrata, remete ao entendimento do território como um espaço resultado do trabalho humano, seja objeto ou ideia, e dessa forma revela relações marcadas pelo poder. Nesse sentido, para o autor, o território se manifesta no espaço, mas não pode ser confundido com ele, e sim uma produção a partir do espaço e, para realizá-la, envolve muitas relações, implicando relações de poder (RAFFESTIN, 1993).
Roberto Lobato Corrêa (2002) explica a territorialidade referindo-se às manifestações simbólicas ou materiais com o intuito de se apropriar e manter o território por um determinado agente social, que pode ser o Estado, os diferentes grupos sociais e empresas.
É nesse sentido, como já foi frisado, que podemos concordar com Cruz (2003) para quem, toda a análise que se faça sobre a produção de espaço a partir do turismo, ou ainda, da criação de territórios turísticos, deve levar em conta o conjunto de relações que se estabelecem nessa atividade, sem esquecer a sua dimensão global e local. Nessa imensa teia de relações, o turismo representa apenas uma parte (CRUZ, 2003, p.12).
A identificação de um lugar turístico implica sempre o reconhecimento do espaço e do território. Como afirma Cruz (2003), o turismo enquanto uma prática sócio-espacial vai se apropriando de determinados espaços, transformando-os e, a partir disso, produzindo
territórios e territorialidades, turistificando os lugares. É a autora quem acrescenta: “Se a produção do espaço é um processo complexo e conflituoso, entender a participação do turismo nele requer o desvendamento de sua natureza, da sua complexidade e de seus conflitos” (CRUZ, 2007, p.11). Essa é uma concepção que vai nortear o desenvolvimento deste trabalho.
Um outro conceito caro a ciência geográfica, mas que é utilizado por outras ciências, principalmente a Economia, é o de região. Apesar de essa discussão não ser nova, sempre há uma certa insegurança na sua definição e no seu uso. Corrêa (1997), em suas discussões sobre região e organização espacial, coloca a região como um conceito-chave para os geógrafos e não-geógrafos quando se referem à questão espacial. Ele esclarece que a região, genericamente, tem referência a lugares que se diferenciam um dos outros. No entanto, o conceito de região desenvolvido pelos geógrafos ao longo de sua história constitui respostas aos múltiplos ângulos com que eles observaram e observavam o mundo real, já bastante fragmentado e articulado. Com a globalização, este processo de exercer muitos olhares sobre o espaço do homem foi acentuado. E ressalta: “A região, esta particularidade dinâmica, continua a desafiar os geógrafos em sua tarefa de tornar inteligível a ação humana no tempo e no espaço” (CORRÊA, 1997).
Apesar dessa complexidade no estudo da região, a expressão é empregada de diversas formas no cotidiano e no senso comum, referindo-se, geralmente, a um lugar com características comuns ou particulares. O exemplo da Região da Valéria, em Parintins, se assemelha a essa concepção, visto não haver um estudo detalhado que a defina como tal. Todavia, na Amazônia, é comum referir-se a lugares mais distantes, que englobam diversas comunidades e possuem alguma especialização, como “região”.