Comunhão e excomunhão na doutrina cristã seja ela de qualquer vertente, dado que entre os protestantes a idéia de comunhão e excomunhão também vigora163 é o grande trunfo encontrado pelo sistema de governo cristão para manter o reino da terra subordinado as coisas do céu. Esse controle se dá não apenas por uma comunhão tratando-se de reuniões em determinados locais e de repetições de determinadas fórmulas, mas de uma comunhão que vai além das fronteiras de um país.
Rousseau chama a atenção de que, quando um padre comunga, ou seja, celebra os mistérios da fé e reafirma os dogmas essenciais do cristianismo em um determinado lugar, esse padre de certa maneira estabelece um vínculo de fé e poder com todos os outros membros da comunidade cristã, mesmo que essas pessoas estejam a milhares de quilômetros umas das outras: “(...)São concidadãos, ainda que estejam nos dois extremos do
mundo164.
Logo, não há necessidade de uma relação meramente local para estabelecer comunhão entre os membros do reino dos céus, mas basta eles estarem em comunhão com aquilo que foi pré-formulado pelas instituições que representam esse reino. A comunhão se torna o grande laço entre os povos nos tempos cristãos, ela não só ganhou uma dimensão religiosa, mas, sobretudo, assumiu uma forma política: “(...) Essa invenção é uma obra prima
de política. Não havia nada de semelhante entre os padres pagãos(...)165
Comungar no sentido político dado pelo cristianismo significa estar dentro de um sistema, fazer parte de algo muito maior do que uma simples relação institucional local. Se comungar significa a porta de entrada para o reino, tanto o da terra quanto o dos céus, a idéia de excomunhão assume na história política do cristianismo um local extraordinário.
163 LEONARD, E.G. Histoire générale du protestantisme, t. III. Paris: PUF, 1964, p. 73.
164 ROUSSEAU. J.J. Do contrato social. São Paulo: Abril Cultural. Livro IV, Capítulo VIII p. 140. Nota
Nº 486.
Excomungar alguém, a olhos leigos, parece ser uma ação puramente religiosa que delibera sobre alguém que não pode participar da comunhão dominical na missa ou no culto. Essa é uma análise que não leva em consideração a noção política que esse termo carrega. Estar excomungado do seio do cristianismo significa não só um desligar do reino dos céus, no qual todos os que aqui estão serão julgados e enviados a ele, mas um desligar das relações terrenas.
Um rei que estivesse excomungado pela autoridade religiosa teria todos os seus atos de conquista dados como nulos e todas as suas ações dadas como inválidas em seu território166. Observa-se que a autoridade que determina a excomunhão daquele rei está fora de seu território, em um outro local qualquer, mas o vínculo a que essa autoridade está ligada é metafísico, e toma uma forma universal. Um rei, uma vez fora da comunhão com a fé cristã, não rompe apenas com a autoridade religiosa de Roma, ou de Constantinopla, mas está fora também de todas as relações com aqueles que professam a fé, tanto entre os reis de outros povos como entre os seus próprios súditos, pois a justificação de sua autoridade sobre os mesmos se dava por manter-se em comunhão com o reino espiritual.
O poder do rei entre os seus súditos é sustentado por um vínculo entre aquilo que é humano e o que é divino. No cristianismo, a tradição de interligar o humano e o divino sob a figura da autoridade do papa, que é o vigário de Cristo na terra foi um grande primado.
Defendem alguns autores que a justificação do poder civil sob a tutela da comunhão com a fé cristã, se deu de forma oficial na noite de Natal do ano de 800167, quando Carlos Magno foi coroado sacro-imperador.168 Todos os atos do imperador agora estavam justificados e abonados por sua missão maior, que era através de suas conquistas levar o reino dos céus aos quatro cantos da terra.
166 PIERRARD. PIERRE. História da Igreja. São Paulo: Paulus. p.60.
167
No Natal do ano 800, Roma viveu uma invasão pacífica de nobres e guerreiros francos. Na antiga Basílica de São Pedro, onde o papa Leão III celebrou a missa de Natal, se reuniram autoridades eclesiásticas e líderes políticos, entre eles, Carlos – rei dos francos e lombardos, nessa mesma noite, Carlos Magno foi de sagrado como sacro imperador romano.
168
O Sacro Império Romano-Germânico foi à união de territórios da Europa Central durante a Idade Média, sob a autoridade do Sacro Imperador Romano.
Logo, trata-se aqui de entender que estar excomungado era agir por si mesmo, sem carregar sobre seus estandartes a cruz que agora era o símbolo máximo da ação política.
Mas nessa exposição ainda parece faltar um elemento, que seria pensar sobre a possibilidade de se fazer com que o controle administrativo se mantivesse sobre os povos, já que a comunicação entre o centro do poder e as filiais era mal estruturada.
Segundo Rousseau, o cristianismo estabeleceu algo que entre os povos pagãos não havia ainda nenhuma referência: a invenção do clero enquanto um corpo.169 Esse estabelecer do clero enquanto corpo, jurídico e legal, se dá pela introdução no meio cristão da idéia de hierarquia, copiada do modelo imperial romano, ou seja, das ordenações às funções clericais.170
Um padre, antes de ser declarado como ministro do reino, tem que necessariamente passar por um processo de formação, a fim de que entenda como universalmente o cristianismo está configurado e para que também ele não venha a romper com essa estrutura. Esse processo dá a alguns a sensação de que foram eleitos para ocupar determinadas funções na hierarquia e que essa eleição fora feita não por meios humanos, mas por um chamado divino. O clero cristão invoca a capacidade de se entender não apenas como escolhido por Deus, mas como responsável direto pelo estabelecimento do seu reino no mundo.
Ora, a idéia de comunhão e excomunhão estabelecida pelo cristianismo, deu a sua política, afirma nosso autor, uma grande capacidade operacional, pois anulou quase que por completo a necessidade de uma relação local em matéria religiosa. Então, não existe um cristão nacional francês, nem
169 Cf. ROUSSEAU. J.J. Do contrato social. São Paulo: Abril Cultural. p. 140. Nota Nº 486.
170 Na Igreja Católica foram aceitos três graus de ordenações as funções clericais; primeiro aparecem a
figura dos diáconos, como aqueles que auxiliavam no culto e em seguida os bispos (episcopos) ou os que supervisionavam as ações de uma Igreja determinada e oficiavam o culto. Na seqüência aparece a figura dos presbíteros, que na cristandade despontam como ponto central do poder clerical. Com o avanço do poder dos presbíteros os diáconos perdem espaço a ponto de sua ordem praticamente desaparecer e os bispos assumem uma função cada vez mais burocrática, de supervisionar os presbíteros. A figura do presbítero passa a ser determinante na lógica de pensamento da Igreja. Nessa lógica institucional apenas aqueles que recebem as ordenações, são reconhecidos como dotados de direito na oficialização do culto e na propagação do discurso de poder da Igreja Católica. A figura do presbítero foi tão marcante na condução das ações políticas do cristianismo que mesmo após a reforma, alguns grupos presbiterianos (como os calvinistas), abolem a estrutura episcopal, entregando todo o poder na mão de “um conselho de presbíteros”.
português, nem alemão, o que existe é o cristão, concidadão de todos os cristãos no mundo, que não possuem outra identidade a não ser essa.