Uma longa linhagem de horrores...
Em relação à linhagem dos tantálidas (progênie de Tântalo), à qual pertence Orestes, as narrativas míticas apontam uma sequência de crimes bárbaros. Tântalo, filho de Zeus, amado pelos deuses, entre os quais tinha passagem livre, inaugura o modelo dos horrores que viriam a ocorrer entre seus descendentes, matando o próprio filho, Pêlops, e servindo carne humana em um banquete aos deuses com o intuito de botar-lhes a onisciência à prova.
4MIGNON, Paul-Louis. Le théâtre ao XXe siècle. 2. ed. France: Éditions Gallimard, 1986, p.
135.
“Daí em diante, linguagem, estilo, poesia estiveram geralmente no âmago da busca dos autores preocupados em tirar a cena do prosaísmo: eles intencionavam devolver ao texto dramático o prestígio e a magia do verbo.” (p. 135, tradução e grifo nossos).
Reanimado pelos deuses, que perceberam o ardil, Pêlops teria sido aquele que, após ser vítima do pai, trouxe a ate para sua estirpe (os pelópidas), matando Mírtilo, filho de Hermes, que o ajudou a casar com Hipodâmia. Existe mais de uma versão para o motivo desse assassínio, mas o fato é que, pouco antes de sua morte, Mírtilo amaldiçoou-lhe a descendência com uma imprecação pródiga em efeitos, como evidenciam os acontecimentos que em seguida ocorreram.
Atreu e Tiestes, filhos de Pêlops, após desentendimentos decorrentes de uma divisão de poderes, reconciliaram-se com um banquete oferecido por Atreu como manifestação de paz. No entanto, o terrível festim constituía-se das carnes dos filhos de Tiestes, que o pai comeu sem nada suspeitar. O único filho que escapou da chacina, Egisto, viria a matar Atreu e, posteriormente, ajudar Clitemnestra a assassinar o filho deste, Agamêmnon, rei de Argos, que foi a Tróia resgatar Helena, esposa de seu irmão Menelau5.
Tais são os primórdios da história que veremos mais adiante resultar nos eventos que envolvem Orestes e Electra, filhos de Agamêmnon, no assassinato da mãe, Clitemnestra.
As Electras: Eurípides e Giraudoux
Em sua Electra, Eurípides apresenta a filha de Clitemnestra casada com um camponês, vivendo em condições adversas e longe da cidade, uma condição que lhe foi imposta por Egisto para que ela não fizesse bom casamento, nem gerasse herdeiros de boa linhagem que pudessem vir a vingar Agamêmnon ou exigir o trono. No entanto, respeitada pelo marido, que se constrange com a união desigual, Electra não foi por ele obrigada a consumar o casamento.
É nessas condições que Orestes, chegando aos arredores de Argos, acompanhado do amigo Pilades, encontra a irmã, que ele pensa ser uma serva, e lhe pede informações. Após perceber que se trata de Electra, o irmão, dizendo-se
5 Cf. KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 8. ed. Rio de
um mensageiro, informa-lhe que Orestes encontra-se vivo e determinado a vingar o pai.
Orestes finda por identificar-se e, com a ajuda de Electra, planeja a estratégia que usará para matar Egisto e Clitemnestra. Sabendo que nesse mesmo dia Egisto fará uma cerimônia de sacrifício fora da cidade, determinam que seja essa a ocasião de matá-lo. Quanto a Clitemnestra, Electra manda-lhe dizer que teve um filho e solicita sua presença para o cumprimento dos rituais necessários. Assim, Egisto, no campo e, logo após, Clitemnestra, na casa da filha, o casal é morto, sendo cumprida a determinação do oráculo que tinha sido consultado por Orestes.
Logo após os morticínios, mediante o artifício do deus ex machina, surgem os Dióscuros, os gêmeos Cástor e Pólux, irmãos de Clitemnestra. São eles que indicam a Orestes e Electra as medidas a tomar dali por diante. Orestes dá então Electra em casamento a Pilades e parte da cidade para buscar refúgio e julgamento em Atenas, onde, indicam os Dióscuros, será absolvido6.
Em treze de maio de 1937, no Teatro Athénée, a dupla Giraudoux-Jouvet estreia uma Électre escrita por Jean Giraudoux naquele mesmo ano7.
Nessa reescrita da tragédia homônima de Eurípides, o jovem Estrangeiro/Orestes chega incógnito a Argos e encontra a casa real guiado por três meninas. Sua chegada coincide com o dia previsto para o casamento de Electra, sua irmã, com o jardineiro do palácio, com quem o jovem trava conhecimento ao chegar. Vão surgindo aos poucos alguns parentes do Jardineiro, Electra, Clitemnestra com o amante Egisto, travando-se, ao longo das cenas seguintes, discussões em torno da pertinência do casamento de Electra com um serviçal.
6 Deus ex machina (o deus que sai da máquina) – estratégia dramatúrgica para facilitar soluções em situações difíceis de obter verossimilhança. Alguma deidade chegava de repente e deslindava o enredo. Por mais injustificável que o caminho tomado pela trama pudesse parecer, o fato de se tratar da deliberação de uma divindade permitia uma saída irracional para a peça.
7Para facilitar ao leitor o acompanhamento do nosso texto, optamos por fazer referência aos
personagens do drama em sua forma portuguesa (Electra, Orestes, Egisto etc.). A única exceção ocorrerá quando fizermos citações do original, onde manteremos os prenomes em francês. Ainda, com o intuito de não saturar o texto com referências, usaremos a sigla (E) para indicar o texto de Giraudoux, cuja referência já foi feita na introdução. Todas as traduções de Électre serão nossas.
A trama desenvolve-se a partir da conjunção entre as bodas de Electra, evento previsto, e a chegada do jovem estrangeiro/Orestes, um evento inusitado. Evoluindo muito mais por meio de conversas e discussões tangenciais ao problema que se coloca do que pela ação, o mythos se caracteriza sobretudo pelo crescente número de revelações que ocorrem em seu curso.
Giraudoux apresenta-nos uma Electra intrigada com a história oficial da morte, supostamente acidental, de Agamêmnon, e guiada, em sua ação, pela busca da verdade sobre aquela morte e outros fatos. Seu ardor é potencializado pelo encontro com o irmão e, após todas as revelações necessárias, ambos vingam a morte do pai com o assassinato de Egisto e Clitemnestra.
Encontram-se inseridos na peça alguns personagens misteriosos: um mendigo, que pode ser enviado de um deus, ou o próprio; as três meninas que se dizem as Eumênides; a mulher Narsès, conhecida do mendigo e presença súbita, arrematando a peça.
Na análise que se segue, almejamos lograr nosso principal objetivo, qual seja, apontar na peça de Giraudoux os elementos que confirmarão nossa hipótese de que temos em Électre um drama em que a linguagem poética constitui um elemento de intensificação da instância simbólica, do mito, do transcendente. A profusão de metáfora e a riqueza poética na constituição das cenas da peça e naquelas narradas pelos personagens, assim como no cenário, levam-nos a constatar uma realidade feérica, não racional, em muitos aspectos oposta à nossa realidade objetiva. Enfim, é nossa intenção demonstrar, no texto de Giraudoux, a presença da palavra mágica, da realidade mítica.
Verificaremos que, inseridos nessa construção alimentada pelo material mítico, e dele potencializadora, encontram-se, no entanto, indícios da linguagem demótica/descritiva, vinculada ao pensamento conceitual a que chamamos de razão. Identificamos tal presença preponderantemente através do humor, dos chistes e da ironia, estratégias que convocam o leitor/espectador a uma resposta emocional de base intelectiva.
No que tange à nossa análise do ponto de vista da composição dramática, priorizaremos a investigação da relação entre ação e caráter, cujo delineamento
parece-nos central para o desenvolvimento da peça e para a deflagração da contradição trágica insuperável que gerará a catástrofe.
Considerando que os aspectos míticos e simbólicos consistem em uma camada a recobrir todas as dimensões da peça, eles serão considerados sempre em paralelo à análise da questão dramatúrgica.
3. Électre: sendo para o que se nasce