• No results found

Conclusion and Recommendations

Inspirada no curta “Mãe dos Netos” – que usa como técnica uma mistura de animação e documentário-, eu buscava uma forma de construir o documentário sem, entretanto, expor as histórias de dores das mulheres que compõem este trabalho.

Primeiro, por entender que o cinema, insuperável como propagador do ideal do amor, deixa de contemplar as mulheres negras, e, como afirmo noutros momentos deste trabalho, suas raras aparições no cinema de maneira geral estão carregadas de estereótipos. Parafraseando o sociólogo Muniz Sodré, acredito que as mulheres negras estão para o cinema, assim como o espelho está para o vampiro: elas olham, mas não se reconhecem, não se veem!

Segundo, por buscar um trabalho sobre mulheres negras que de certa forma pudesse sair do lugar da violência, da inferioridade, dos sentimentos de culpas e das angústias. Digo isso, não para negar o preconceito, a discriminação e o racismo, mas, sobretudo por entender que nós mulheres negras, historicamente submetidas a diferentes formas de violência, estabelecemos relações com o mundo onde construímos o ethos da africanidade (SOMÉ, 2003), a exemplo de nossas matriarcas e educadoras, Dandara30, Luiza Mahim31, Constância

30 Guerreira, junto com Zumbi dos Palmares, seu companheiro, Dandara liderou o maior e mais duradouro

quilombo das Américas – Quilombo de Palmares. Sua luta pela liberdade do povo negro é lembrada e comemorada principalmente pelo Movimento de Mulheres Negras.

31 Luiza Mahim foi uma das principais lideranças da Revolta dos Malês – movimento de resistência dos negros

na Bahia, no século XIX. Mãe do poeta Luiz Gama, participou também da Sabinada e de outras revoluções de escravizados.

43 d’Angola32, Tia Ciata33, Auta de Sousa34, Mãe Menininha do Gantois35, Lélia Gonzalez36, Beatriz Nascimento37, Neusa Santos38 e tantas outras39. A identidade com essas mulheres demarca nossos espaços e garante entre nós a construção de redes de solidariedade e companheirismo, fortalece nossa conquista por soberania e cidadania. Estamos tomando a força o que é nosso, e o nosso legado ancestral de acolhimento, de solidariedade, de afeto e, como no filme “A bem amada”40, de amor, sim!

Por essas expectativas, eu procurava formas de materializar as dores de amor, de engendrar valores que pudessem afirmar nossa existência como mulheres, como pessoas humanas que amam, que sonham e cobiçam, e que também vivem a contradição de todos os sentimentos. De alguma forma, acredito que era entes de tudo uma forma de aproximação entre esta pesquisadora e as mulheres, visando ao reconhecimento, nelas, do protagonismo de suas próprias histórias, e a tentar recuperar nossa autoestima.

Assim, expondo meu desejo de usar bonecas de pano para representar as paneleiras nas suas histórias de dor, foi do fotógrafo José Otavio Lobo Name (Jo Name) a ideia de fazer as mulheres de barro. Parti então para a execução da ideia e propus ao artista plástico Irineu Ribeiro41, cujo trabalho é marcado pelo envolvimento com a cultura capixaba e ainda, por utilizar no seu processo de criação a mesma matéria-prima das paneleiras, a realização das doze esculturas.

A reação delas ao verem suas bonecas foi um dos momentos mais significativos e emocionantes desse processo. A banda de Congo estava quase toda presente no quintal, ou

32 Constância d’Angola viveu na segunda metade do século XIX, na região do Vale do Cricaré, São Mateus,

Espírito Santo. Quilombola, desempenhou importante papel no combate à escravidão.

33 Famosa tia baiana do início do século XX, sua casa na Praça Onze, no Rio de Janeiro, era reduto de artistas e

músicos, como Donga, Sinhô e João da Baiana, Pixinguinha e tantos outros. Sacerdotisa de cultos dos Orixás, a casa de Tia Ciata foi símbolo de resistência e exaltação da cultura negra.

34 Poeta da segunda geração romântica, autora de Horto (1900). Segundo Luís da Câmara Cascudo, Auta de

Sousa é “a maior poetisa mística do Brasil”.

35 Maria Escolástica da Conceição Nazaré, conhecida como Menininha do Gantois (1894-1986), foi a quarta

Iyálorixá do Terreiro do Gantois, e a mais famosa de todas as Iyálorixá brasileiras.

36 Militante negra, fundadora do Movimento Negro Unificado (MNU), Lélia Gonzalez (1935-1994) foi

professora e antropóloga, e uma das propulsoras do movimento de mulheres contemporâneo.

37 Historiadora, pesquisadora, poeta e ativista negra, Maria Beatriz Nascimento (1942-1995) dedicou sua vida às

lutas antirracista e antissexista.

38 Psicanalista de orientação lacaniana e escritora, Neusa Santos nasceu na Bahia, foi militante do movimento

negro, faleceu aos 60 anos, em 2008.

39 No livro “Mulheres Negras no Brasil”, Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil revelam a vida e atuação de

centenas de mulheres negeas.

40 Esse filme de Jonathan Demme (1998, 172 min., EUA) foi baseado no romance Beloved, de Toni Morrison. 41 Em entrevista ao Blog Paixão Capixaba o artista revela: “Eu já até utilizei outros, mas o barro das paneleiras

foi o que me deu mais suporte. Primeiro pela facilidade de acesso ao local de extração e, sobretudo, porque, na sua composição, o barro do Vale do Mulembá tem fósseis marinhos que lhe conferem uma determinada plasticidade. Além é claro da possibilidade de queima a céu aberto...” < http://paixaocapixaba.com.br/?p=7876>.

44 melhor, no Quilombo da Jamilda. Cheguei “como quem não quer nada” e fui retirando as esculturas da caixa. Dona Sula foi quem primeiro exclamou: “Gente, olha nós aqui”. Começou então um jogo de adivinha, onde cada uma tinha de reconhecer as bonecas. Dona Sula e Isabel mandaram chamar suas filhas para que pudessem ver as esculturas. Dona Jenette dizia que Irineu havia caprichado na boneca de dona Lucila, mas que ela estava muito gorda. Entre as brincadeiras, o reconhecimento do perfeccionismo do artista veio inúmeras vezes à tona. Maria, que chegou mais tarde, ficou emocionada ao se ver representada numa mulher de barro: “Isso é uma homenagem?”, indagou, “eu nunca vi uma delicadeza tão grande assim.

Veja ela é linda, parece até eu...”.

O quilombo de Jamilda foi o espaço eleito de quase todos os encontros coletivos com as paneleiras. No entanto, estive na casa de cada uma delas, onde realizei as entrevistas individuais. E se nos nossos primeiros encontros elas se limitaram a falar apenas seus nomes, quando muito diziam que eram filhas e netas de paneleiras, agora era como se estivéssemos vivendo cenas do filme “Colcha de Retalhos”. À medida que se estreitava nossa intimidade, era como se reencenássemos o filme “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela”. Cada vez mais descontraídas, elas falavam das paqueras, dos namoros às escondidas, de casamento, de sonhos, desejos. Nos emocionamos com as histórias de dor e rimos muito com os causos das festas e dos bailes, dos namoros atravessados.

Ao passo que as conversas foram avançando, as narrativas ficaram tão descontraídas que, em vários momentos, houve disputa para contar suas histórias. Num desses momentos, um vizinho resolveu ligar o som com um repertório que passou por Odair José, Reginaldo Rossi, Vando e Paulo Sergio. Hoje, escutando os vídeos tenho a impressão que o vizinho não identificado, de sua casa fazia uma trilha sonora para cada uma das histórias. “Eu vou tirar você desse lugar / Eu vou levar você pra ficar comigo / E não me interessa o que os outros vão pensar”.

Nossos encontros foram marcados pela culinária capixaba: canjica, muchá, cuscuz de tapioca, moqueca de peixe, moquequinha de siri desfiado e torta capixaba, iguarias que há muito eu não saboreava e que me puseram em contato com aromas e sabores que nem mesmo “A Festa de Babette” ou “Como água para chocolate” seriam capazes de produzir.

45

Quadro 1 - Paneleiras Congueiras entrevistadas

ENTREVISTADA ATIVIDADE IDADE

Nome Tratamento Na Comunidade Profissional

Elizete Salles dos Santos Dona Elizete, Paneleira e Congueira Paneleira 79 anos

Gerci Alves Correia Dona Sula, Paneleira Paneleira 66 anos

Isabel Corrêa Campos Isabel Isabel Paneleira e Congueira Paneleira 66 anos

Ilza dos Santos Barbosa Dona Ilza, Paneleira e Congueira Paneleira 75 anos

Jamilda Alves Rodrigues Bento Jamilda Paneleira e Congueira Bibliotecária 50 anos

Jenette Alves da Silva Dona Jenette, Paneleira e Congueira Paneleira 76 anos

Lady Gomes Ribeiro Ladinha Paneleira Paneleira 65 anos

Lucila do Nascimento Correa Dona Lucila, Paneleira Paneleira 83 anos

Maria Cirino dos Santos Maria de Samarone Paneleira e trabalhadora doméstica Paneleira 57 anos

Maria Sales Graça ou Gracinha Congueira Congueira 63 anos

Tereza Barbosa dos Santos Terezinha Paneleira e Congueira Congueira 72 anos

Valdelicis Sales de Souza Valdelice ou Val Paneleira e Congueira Paneleira 66 anos