Segundo Evans-Wentz (1911, p. 332-57), a concepção de mundo pós-morte celta não se situava em alguma região distante, mas no mundo subterrâneo, em cavernas, dentro de montanhas ou sob a água. Esse Outro Mundo seria uma versão do paraíso cristão, onde os espíritos dos mortos habitavam. Lá havia também demônios, deuses e outros seres sobrenaturais, dele também fazendo parte o mundo subterrâneo do povo das fadas, conhecido como Sidhe-folk, originado quando os deuses Tuatha De Dannan foram subjugados pelos filhos de Mil (milesianos), sendo obrigados a refugiar-se no submundo ou ilhas próximas, como a Ilha de Man (MOORE, 1891, p. 5-8), que seria protegida por névoas sobrenaturais para que os mortais não pudessem encontrá-la. Segundo Blamires (2003, p. 113-37), nas quatro províncias da Irlanda existiriam locais sagrados que se comunicariam com essa região espiritual. Assim, o Outro Mundo céltico seria habitado por deuses, espíritos feéricos, seres sobrenaturais e, também, espíritos humanos desencarnados, versão corroborada por Evans- Wentz (1911, p. 335):
Mas esse Outro Mundo ocidental, se for o que acreditamos ser – uma imagem poética do grande mundo subjetivo – não pode ser o reino de nenhuma raça de seres invisíveis que leve à exclusão de outras – deuses, Tuatha De Danann, fadas, demônios, sombras e toda sorte de espíritos incorpóreos – encontram sua própria morada; pois embora pareça rodear e interpenetrar esse planeta, assim como os raios-X interpenetram a matéria, não possui outros limites a não ser o Universo em si2.
Blamires (Ibid.) salienta que os seres do Outro Mundo formariam suas próprias sociedades, cada uma com seu próprio reino, como ocorre na vida real. Estes seres poderiam atuar sobre o mundo natural, envolvendo-se em questões de disputas e batalhas e exercendo sua autoridade sobre os homens.
De acordo com as narrativas tradicionais, para que um mortal pudesse atravessar ao Outro Mundo sem ter morrido, era necessário que a rainha das fadas permitisse sua entrada dando-lhe um ramo de prata retirado de uma macieira sagrada, ou então, uma maçã de prata – o que remete ao ramo de ouro da mitologia greco-romana, que foi levado por Enéas ao Hades, como descreve Virgílio. Ao atravessar ao mundo invisível, o mortal ali conduzido poderia,
2 Tradução livre do texto: “But this western Otherworld, if it is what we believe it to be--a poetical picture of the great subjective world--cannot be the realm of any one race of invisible beings to the exclusion of another. In it all alike--gods, Tuatha De Danann, fairies, demons, shades, and every sort of disembodied spirits--find their appropriate abode; for though it seems to surround and interpenetrate this planet even as the X-rays interpenetrate matter, it can have no other limits than those of the Universe itself.”
inclusive, tornar-se um herói naquele reino e até mesmo encontrar-se com seus amados ancestrais, como consta no mito de Connla, filho de Conn, Grande Rei da Irlanda (BLAMIRES, 2003, p. 335).
Embora as regiões do Outro Mundo fossem mormente retratadas como um paraíso, não existindo dor, velhice ou morte, há também outro aspecto retratado nas narrativas populares, semelhante ao Hades greco-romano, onde o herói é submetido a terríveis provações. Muitas vezes, o herói é seduzido por festas e banquetes a ali permanecer, e quando volta ao mundo real, é surpreendido com o fato de terem se passado anos após sua partida, ou mesmo sendo condenado a viver ali para sempre (MOORE, 1891, p. 41-2).
Embora os contos retratem o Outro Mundo em grande parte como fora engendrado pelo paganismo, a partir dos séculos VIII e IX, alguns passaram a mostrar influências do cristianismo, com idéias sobre o paraíso, inferno e purgatório. A mescla entre cristianismo e paganismo no Outro Mundo pode ser evidenciada em várias histórias, onde foram acrescentados salmos, igrejas e altares (EVANS-WENTZ, 1911, p. 353-55).
Pela tradição celta, o espírito do morto era guiado ao Outro Mundo, reencarnando em outro corpo ali, continuando sua existência como o faria no mundo material, entretanto, sem as atribulações e dificuldades comuns à vida diária. Segundo o autor (Ibid.), ainda em época recente, os camponeses da Irlanda acreditavam que seres do Outro Mundo vinham buscar a alma dos mortos, e também que sob o feitiço das fadas, os vivos poderiam ir e retornar de lá.
2.3.4.1 A tradição das fadas – habitantes do Outro Mundo
Entre os habitantes do Outro Mundo celta, talvez as fadas sejam as personagens que mais causem fascínio na tradição dos contos maravilhosos. Segundo Coelho (2003, p. 71-81), embora não se possa determinar a data e o local precisos do surgimento desses seres mágicos, pesquisas apontam para o mundo celta e sua veneração pela natureza, conectando-os a cultos e ritos religiosos.
Na literatura ocidental, as fadas se apresentam como personagens das novelas de cavalarias, dos romances corteses e dos lais, os quais sofreram grande influência do mundo celta. Elas são aí retratadas como mulheres muito belas, dotadas de poderes sobrenaturais, que tanto podem ser utilizados para auxiliar os mortais, como para causar o mal. Ao encarnarem o mal, são consideradas “bruxas”.
A magia e o mistério atribuído às druidesas, realçando o poder feminino, também contribuíram para a composição dessas personagens, fazendo menção à dualidade feminina, à
presença do bem e do mal na mulher. Um bom exemplo disso seria a fada Morgana dos contos arturianos, a qual é iniciada na sabedoria dos druidas e exerce grande fascínio sobre os mortais, trazendo em si um misto de druidesa, maga e fada.
A princípio, as fadas surgiam nos contos como sendo amadas por mortais, mas após a cristianização do mundo pagão, passaram a ser personagens mediadoras entre os apaixonados e suas amadas ou entre os heróis e a concretização de seus desejos, passando a ter um papel secundário nas histórias.
Moore (1891, p. 33-51) revela que uma antiga lenda irlandesa diz que, no princípio dos tempos, a Ilha de Man, sendo parte do Outro Mundo, era habitada por fadas e outros espíritos. Esses seres sobrenaturais mantinham acesa uma fogueira que queimava eternamente, cujas chamas produziam uma bruma azulada, mantendo a Ilha escondida dos olhos dos mortais. Porém, um dia, pescadores perdidos em seu barco acabaram por aportar na Ilha e, ao retornarem para casa, avisaram os habitantes de outros países sobre a existência daquele local. A Ilha foi invadida e o castelo de Rushen – morada do rei das fadas – foi ocupado por estrangeiros que ali viveram por algum tempo, mas foram derrotados por uma raça de gigantes que só vieram a ser extirpados da Ilha por Merlin, na época do reinado de Artur.
O autor nos fornece uma descrição detalhada de como as fadas e elfos eram vistos pelos camponeses celtas: tratava-se de seres diminutos e de natureza meio humana, meio espiritual. Eram dotados de poderes sobrenaturais e podiam ficar invisíveis, aparecendo aos olhos humanos somente quando assim desejassem. Normalmente, trajavam vestimentas azuis ou verdes, sempre com um capuz vermelho e pontudo na cabeça. Poderiam ser benevolentes com os humanos se estes fossem merecedores, caso contrário, causavam-lhes doenças e, quando se sentiam gravemente afrontados, poderiam atingi-los com pequenas flechas mortais.
Assim sendo, os camponeses achavam ser uma boa idéia cultivar a política da boa vizinhança com esses seres, tendo por hábito acender uma fogueira durante a noite para que os pequeninos pudessem ali encontrar aconchego, bem como manter um recipiente com água para lhes matar a sede, além de um pedaço de pão para lhes saciar a fome.
As mães temiam deixar os bebês sozinhos, pois acreditavam que as fadas poderiam raptá-los, substituindo-os por uma fada feia e decrépita. Para evitar tamanha tragédia, bastaria colocar um objeto de ferro próximo à criança ou, então, amarrar uma fita vermelha em seu pescoço. Tudo isso mudou com o advento do cristianismo, pois o batizado do bebê o protegeria contra as maldades das fadas.
Porém, não eram apenas as crianças que estavam à mercê dos caprichos desses seres encantados. Para proteger homens e animais contra seus feitiços, certos recursos poderiam ser utilizados, como sal, cinzas das montanhas em forma de cruz e, se nada desse certo, deveriam chamar um Encantador – Charmer – que resolveria o problema com suas ervas medicinais.
Para evidenciar quão surpreendentes esses pequeninos seres poderiam ser, Moore (Ibid.) nos conta a estória de um homem que foi levado por músicos invisíveis a um local desconhecido onde serviam comida e bebida. Um deles lhe avisou para não provar nada, pois se o fizesse, adquiriria uma aparência estranha, e jamais voltaria para casa. Foi-lhe entregue um cálice com bebida, a qual jogou fora, fingindo ter bebido. Mais tarde, as fadas e elfos desapareceram e ele conseguiu voltar para casa. Para provar o ocorrido, levou o cálice até a igreja e o padre colocou-o no altar, para glorificar ao Senhor.
Existem também histórias nas quais elfos e fadas caminham em grandes grupos, cantando, dançando e fazendo muito barulho e estripulias; possuem até mesmo pequenos cães, que também usam capuzes pontudos.
Como se observa por meio de tais crenças e histórias, as fadas celtas são bem diferentes das que pertencem ao folclore ocidental, e bastante propensas a trocar recém- nascidos, abduzir pessoas e animais, provocar mal-entendidos nas negociações, enfeitiçar pessoas com sua música, etc. Porém, para consolo, dizem que os poderes das fadas e espíritos bons são mais eficazes que os dos espíritos maus, embora eles normalmente auxiliem os necessitados mediante troca de favores ou se comprovarem merecimento.
2.3.4.2 Concepção de reencarnação
Evans-Wentz (1911, p. 366 - 80) explica que os celtas acreditavam que deveriam viver várias encarnações como animais, até evoluírem à posição de seres humanos, conforme ensina a doutrina bárdica. A partir disso, a alma humana iniciava um período de crescimento em direção à divindade, possibilitada pela morte do corpo humano e reencarnação no Outro Mundo. Fadas e seres espirituais também poderiam encarnar em um corpo humano. Uma variação dessa concepção seria que o indivíduo, se assim o desejasse, poderia morrer também no Outro Mundo e voltar encarnado para a Terra.
Por meio das narrativas relativas ao Ciclo Mitológico e ao Ciclo de Ulster, chegou-se também à conclusão de que os deuses e heróis poderiam reencarnar neste mundo, mais de uma vez, mantendo a mesma personalidade. Por exemplo, a tripla deusa do sol, Etain, transformou-se na esposa mortal de um rei irlandês. Conchobar, o rei de Ulster, seria um deus
terrestre; Cuchulain, o grande guerreiro celta, às vezes confundia-se com o próprio deus Lugh, pois, ao fecundar a mãe da criança, Lugh diz-lhe que o menino seria a reencarnação de si mesmo.
Como exemplo bem conhecido, temos a história do rei Artur, que também revela a conexão deste com o Outro Mundo. Artur seria a contraparte galesa de Cuchulain, e assim como os deuses Tuatha de Dannan, teria vindo do Outro Mundo para este, reencarnado em um corpo mortal. Nas lendas galesas do Ciclo Arturiano, ele é conectado ao povo das fadas, como irmão da Fada Morgana. Quando Artur morre, ele é levado a Avalon pela própria Senhora do Lago, o que significa que é uma figura importante também no Outro Mundo. Assim, sua descendência divina fica estabelecida.
Entretanto, segundo o autor, várias histórias perderam a conexão com o tema da reencarnação por terem sido compiladas por escribas cristãos, que teriam optado por se desvencilhar desse aspecto embaraçoso à religião corrente.
Esperamos ter abarcado neste capítulo as principais características das crenças e tradições celtas, as quais poderão elucidar certos aspectos obscuros da narrativa maravilhosa advinda desses povos.
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