• No results found

A atividade do facho e a produção de carvão começam a se tornar uma alternativa à sobrevivência e reprodução dessas comunidades a partir da década de 1990. Essa atividade corresponde ao aproveitamento dos resíduos de eucalipto não utilizados pela empresa após a colheita para a produção de carvão e posterior venda às siderurgias e, posteriormente, às olarias. A coleta do facho também é realizada para alimentar os fornos a lenha das casas de farinha, diante da falta de madeira.

110 Inicialmente, essa atividade era ilegal, pois a empresa (Aracruz Celulose, na época) proibia a entrada dos moradores para a coleta do resíduo. Depois de vários embates, a empresa aceitou a prática sob algumas condições, como a liberação a partir das associações de apanhadores84. A prática fica então condicionada à cadeia e ao ritmo de produção da celulose, sua temporalidade e espacialidade, apresentando grande dependência em relação à empresa.

Ao mesmo tempo, o facho representa a luta pela permanência e reterritorialização dessas comunidades, sendo uma conquista dos quilombolas. Com o tempo, a atividade do facho vai ficando cada vez mais difícil, pois a partir dos avanços tecnológicos na produção do eucalipto, o aproveitamento das toras vai ficando cada vez maior, restando um facho cada vez mais fino, que gera menos carvão.

Em Angelim, essas atividades se estabeleceram principalmente a partir da década de 1990, sendo o auge do carvão no início da década de 2000. A relação de conflito se acirra, pois a estratégia de sobrevivência passa a se relacionar com a única abundância do entorno, o resíduo do eucalipto, o facho, colhido no próprio território das firmas. Essa atividade irá se tornar uma das principais para a sobrevivência no Sapê, não sendo diferente no Angelim. Como relata um dos moradores.

Terezino: A nossa relação com o monocultivo é o conflito, né. É a disputa pelo espaço, né.. e ao mesmo tempo pela sobrevivência, né. Então, a gente resume assim, que com a chegada dessa monocultura e passando um bom tempo que isso foi sendo trabalhado, surge a atividade do carvão, né..então, as comunidades aprendem a fazer o carvão..então, se dá um novo ciclo econômico aqui no norte do estado com a fabricação do carvão, né. Então, hoje toda essa nova geração de 1990 pra cá, aprendeu a fazer carvão devido à oferta que a gente teria e..a viabilidade econômica, né, ser mais fácil assim..então isso deu muito atrito, né..muita confusão, ainda existe até hoje, né..e as pessoas tão aí, lutando, buscando essa ...essa dignidade (28 anos, entrevista concedida a autora em julho/2013).

Mesmo com a perseguição por parte da segurança da firma, que em alguns momentos negocia esse facho, a partir do acirramento do conflito e suas repercussões

84

Depois de um evento em que muitos quilombolas foram presos, o movimento quilombola pressionou o poder público. A Prefeitura se reúne à empresa e aos quilombolas, mas não à Comissão Quilombola. Houve acordo quanto ao uso do facho pelas associaç ões, mas uma das condições foi

111 públicas, bem como a perseguição do Estado pela fiscalização ambiental que impõe certas condições para a exploração dessa atividade, os moradores recorrem à produção do carvão devido à possibilidade do “dinheiro rápido”, pois a demanda é estável, apesar de suas condições adversas.

O resíduo é resignificado, sendo uma forma de reapropriação dos recursos do entorno ambiental pelos quilombolas, e uma possibilidade de permanência em detrimento de outras possibilidades, como o trabalho assalariado ou a migração. Assim, se constitui como uma r-existência no Sapê, dentro deste contexto.

Imagem 6: Fornos de carvão

Fonte: Trabalho de campo, 2013. Autoria: Luiz Henrique Vieira.

Outra atividade incorporada em algumas comunidades é a de plantio de eucalipto via Fomento Florestal. O fomento faz um programa de incentivo ao plantio de eucalipto para agricultores familiares iniciado na década de 1990 e que através de subsídios como mudas, insumo, entre outros, impulsiona a produção familiar para este tipo de cultura, cuja venda final é direcionada à empresa. Foi desenvolvido após a proibição da compra de novas terras por meio de decreto do governo do estado do Espírito Santo pela Aracruz Celulose. As famílias que entravam no contrato do

112 fomento deixavam assim de plantar alimentos para plantar eucalipto, conformando um tipo de terceirização dos serviços da empresa.

Em alguns casos, a atividade do fomento se complementava à do carvão, como no caso da família Guimarães, que viveu por cerca de quinze anos com as duas atividades. Com o resíduo do eucalipto que era entregue para a empresa, faziam carvão.

Getúlio: A gente também, Isabela, a gente começou fortemente com a agricultura é..com mais preocupancia em 2000 e, no final de. ..no início de 2011. A gente era muito dependente do carvão

-Vocês faziam carvão?

Getúlio: a gente fazia. Desde 90 (...). Meu pai começou essa atividade. Antes, a gente tinha duas atividades, que a gente começou com plantio de mandioca na década de 1980. A gente tinha uma área muito grande de mandioca, tanto meu pai como meu tio ali, eles faziam muita roça de mandioca. Eles chegaram a fazer 200, 300 sacos, né. Na mão mesmo, sem ser mecânico. E vendiam, naquela época 16, na época era cruzeiro quando chegou em 95, era 16 reais, 17 reais de 60kg, então eles sobreviviam disso. A partir daí que veio o carvão, eles começaram a investir no carvão né..aí veio o carvão, foi a família toda pro carvão. Aí esqueceu a agricultura né. (...) (23 anos, entrevista concedida a autora em julho/2013).

Atualmente, essa atividade apresenta grande decréscimo, grande parte devido às crescentes dificuldades, como: a diminuição do resíduo deixado após o corte, sua burocrática liberação e o difícil acesso às áreas liberadas para a coleta do facho da empresa, fatores que tornam a atividade não compensatória como anteriormente. Mesmo assim, a atividade ainda é realizada por algumas pessoas da chamada segunda geração85.

-Mas aí os filhos da senhora num tem..eles têm emprego, alguma coisa? Luzia: Tem nada minha filha! Num tem, não.. O emprego deles é quando tem condições de fazer um forninho de carvão [risos]. Apanha assustado de noite, embaixo de toda a chuva..pra poder apanhar, porque às vez eles acham que os bichos num andam aí embaixo de chuva, né..os carros,

85

Aqui entendemos geração como um grupo de pessoas que vivenciou experiências e referências sociais comuns, contextualizadas em uma dada realidade situada geográfica e historicamente. Aqui chamaremos de primeira geração o grupo de pessoas que vivenciou uma realidade local antes das empresas chegarem (em geral entre 80 e 50 anos). A segunda geração é a que nasceu já com a presença da empresa no local (entre 20 e 45 anos) e a terceira já está crescendo com as mudanças de relacionamento das empresas com a comunidade, abarcando crianças e adolescentes.

113 né..aí aproveita pra panhá [risos] (...). É triste, minha filha..aqueles pau, né..pesado! minha senhora, pra botar na carroça..ah meu Deus (...). -Aí pra panhá era difícil também, né?

L: Era, difícil..é. Com tanta terra aqui..que eles acabaram com as terras do..num é, menina..pra quê isso, gente?..Dá aos pobres, os pobres tudo morrendo de fome, num têm condições pra comprar as coisas, pra comer (71 anos, entrevista concedida à autora em outubro/2013).

O Fomento Florestal também é praticado pela mesma geração, e fica restrito atualmente a poucas pessoas da comunidade. Esta diminuição também foi incentivada por uma Lei Municipal que proíbe a expansão de novos contratos e áreas de fomento pela Fibria em Conceição da Barra.