• No results found

Conclusion: Profiling journals

latent culture of community-driven publishing

3.4 Conclusion: Profiling journals

Mon école est une maison. – A semana de internato na CFR é acompanhada diretamente

pelos monitores. Recomenda-se, inclusive, que os monitores permaneçam na Casa em tempo integral, neste período de internato. Durante a semana os jovens têm: aulas; atividades práticas profissionais (na própria CFR ou em alguma propriedade circunvizinha); momentos de convivência e lazer; orientações sobre os trabalhos; realizam trabalhos de manutenção e limpeza da Casa e da área desta; têm algumas orientações sobre seu comportamento e, em alguns casos mais particulares, orientações pessoais com os monitores. Na tese de Silva (2003, p. 150), sobre as representações dos monitores, pais e ―alunos‖, da CFR de Quilombo- SC, a autora destaca:

[...] a dimensão socioafetiva que integra as representações dos atores da Casa Familiar sobre os monitores. Apesar de a ênfase maior nas representações elaboradas pelos pais e alunos estar centrada na atuação técnica dos monitores, sobretudo nas atividades realizadas no meio familiar/produtivo, a dinâmica do sistema de internato vivenciada pelos alunos no meio escolar favorece a percepção e valorização da responsabilidade dos monitores no acompanhamento e na orientação pessoal dos alunos, que se objetiva nas imagens de monitor-pai e monitor-amigo. No conjunto, as representações do monitor-pai e monitor-técnico explicitam uma distinção de espaços e de funções desempenhadas pelos monitores na experiência de alternância: técnico na propriedade e pai/amigo no internato.

Por este excerto pode-se perceber o grau de envolvimento pessoal, neste modelo de

formação. A ―imagem de pai‖ parece uma idealização de um pai diferente do pai biológico ―que se tem em casa‖ ou não. Mas ao monitor são atribuídas as ―funções do pai‖, no sentido

de corrigir, ensinar, punir, advertir, controlar e castigar dentre outras funções, histórica e socialmente construídas e atribuídas ao homem.

Uma semana de internato significa que o pessoal da Casa terá um período denso de vivências. Batard (2003, p. 14-9) descreve o ambiente de uma Maison Familiale Rurale a

partir da expressão: ―Mon école est une maison‖. Para a autora a palavra maison não é insignificante, inofensiva: ―Dans l’expression maison familiale rurale, il y a le mot maison, et ce n’est pa anodin‖. Sua importância tem a ver com o aprendizado da vivência em comum. ―L’apprentissage de la vie en collectivité est un axe à part entière de la formation. Les élèves

ne sont pas seulement là pour préparer un diplome et se former à un métier, ils doiven aussi apprendre à vivre ensemble‖ (ibidem p. 15). Não se trata, para a autora, apenas de aprender um ofício e garantir um certificado; o processo se amplia para o aprender a conviver com o outro de forma coletiva e solidária. Não há desdém pelo diploma e pelo aprendizado em

algum ofício. A autora tenta colocar as coisas no mesmo nível de necessidade. A separação, supostamente realizada em outros locais de formação, não será repetida na CFR.

Diferente das escolas comuns, onde o aluno passa, aproximadamente, quatro horas por dia durante cinco ou seis dias por semana, na Casa Familiar Rural são vinte e quatro horas por

dia, cinco dias a cada duas semanas. As tarefas ―formais‖ de sala de aula fazem parte da

programação diária, assim como os momentos de amizade, disputas, brincadeiras, trabalhos coletivos, conversas íntimas, partilhas de problemas etc. A intimidade de todos, de uma forma ou de outra, se manifesta e pode ser objeto da apreciação de todos e, independente das reações do outro, esta intimidade, altera e é alterada na convivência. Para jovens do interior esta é uma situação um pouco comum e, muitas vezes, provoca resistências e conflitos entre jovens e monitores. Não é raro que os monitores tenham que intervir em algumas situações, até de forma dura, para poder estabelecer uma ordem funcional na Casa. A situação inaugurada pela CFR é uma novidade, pois entre jovens adolescentes rurais não se tem por hábito abrir-se para a convivência com conhecidos, muito menos com estranhos, ao menos inicialmente. Muitos

destes jovens saem para viver ―longe‖ de sua casa somente neste momento, aos 15, 17, 19 anos. O ―sistema de vida‖ da família, nas casas dos jovens, em quase nada se parece com a

vida que se tem na CFR. Uma semana na Casa é uma semana muito diferente. Se, por um lado, se pode sofrer estranheza, por outro, se pode experimentar uma liberdade e mudanças de

hábitos significativos que, em muitos casos, a família ―fechada em si‖ – tanto geográfica

quanto comportamentalmente – não alcançaria se não fosse essa experiência de Casa Familiar, ainda que este familiar seja bem diverso do familiar que se vive em casa. Os cinco dias na Casa, longe dos pais e da comunidade, com várias atividades programadas para grupos de trabalho e de estudos, a convivência com o diferente e com pessoas diferentes, havendo a necessidade de interação constante, podem produzir uma situação de progresso de relacionamento, de comunicação, de tolerância, de compaixão etc. Assim a Casa Familiar não

é só uma escola, mas ‗une maison‘, no sentido de formação em uma acepção muito mais

ampla e rica do que uma escola comum, de quatro horas diárias de convivência. Mas é uma casa diferente das casas das famílias.

Uma escola dentro da Casa. – Algumas coisas, quando se trata de educação escolar,

parecem que dificilmente mudarão: sala de aula, alguém para ensinar, alguém para aprender e um conteúdo, além de coisas materiais como material didático, tanto dos alunos, quanto do professor, e o material da sala mesmo: carteiras, mesa e cadeira do professor, quadro e murais.

Mesmo quando se quer defender uma educação partilhada, a partir do conhecimento e da realidade do educando, ou um modelo de educação a distância, via internet ou por correspondência, mudam as estruturas físicas e detalhes no material didático, mas eles ainda são necessários, e se sustentam a necessidade do conteúdo, alguém que ensine (professor) e alguém para aprender (aluno).

A novidade da CFR é propor-se como ―casa‖. Isto a faz uma proposta rica e de um potencial incomum, na comparação com outras formas de educação. Mas a CFR nasce como proposta educacional e é composta por pessoas dotadas desta cultura escolar. A manutenção, no seu interior e na consciência das pessoas envolvidas, de que ela é uma escola não nega ―a

escolaridade‖, mas a sustenta ainda que associada à pretensão de ser uma casa (familiar).

Assim como as mais diversas propostas de educação diferenciadas, alternativas ou

tradicionais, não conseguem criar um ―outro mundo‖ educacional e superar essa situação das coisas comuns da ―cultura escolar‖ a CFR não se faz diferente. Na prática quotidiana de uma sala de aula das CFR‘s duas expressões comuns são ―professor‖ e ―aluno‖, ainda que se faça

algum esforço para que se reconheça estas ―figuras‖ como ―monitor‖ e ―jovem‖. O comportamento de professor dos monitores e o comportamento de alunos dos jovens são óbvios. Apesar da pretensão de superação de artifícios, reconhecidos como elementos da educação tradicional, como o fato de que educando seja o jovem e não o aluno e aquele que ensina seja o monitor, e não o professor, não se consegue escapar da cultura escolar.

A expressão ―mon école est une maison‖ (BATARD, 2003) não abandona a cultura

escolarizada, assim como a Casa Familiar Rural não deixa de ser uma escola no sentido mais tradicional. Ainda que seja um ambiente de convivência integral, de formação de metier etc. continua sendo uma escola. Na Casa existe uma escola. A sala de aula é um momento escolar como se os jovens estivessem em suas casas e tivessem de ir à escola, como a qualquer escola; a école irrompe, durante o dia da maison como parte do quotidiano, modificando-o,

como um momento de estancamento da vida ―normal‖.

Os monitores, reconhecidos como amigos, do tipo ―monitor-amigo‖, ou ―monitor-pai‖ (cf. SILVA, 2003, p. 150), na sala de aula passam a ser ―monitor-professor‖, destacando-se a característica ―professor‖, como aquele que ensina, como aquele que leva o conhecimento

especializado, em oposição ao conhecimento popular.

O monitor é o pai do aluno, enquanto ele está lá na casa familiar, né. Ele lá repassa aquilo que der, aquilo que ele conhece e o bem, para o bem do aluno (fala de uma mãe). [...]

Enquanto ele [jovem] está lá na casa familiar rural, ele está trabalhando junto com alguém que sabe, que está acima dele, que tem uma capacidade e ele deve respeitar (fala de um pai). [...]

A alternância tem o papel de fazer a ponte do conhecimento científico e o conhecimento popular (fala de um monitor) [...]

Alternância para mim seria eu tá aqui na casa familiar e estudando uma atividade da agricultura, sobre a agricultura e ficaria duas em casa. [...] Então eu realizo e pratico o que eu estudo durante a semana aqui na casa familiar, eu pratico em casa (fala de um aluno). (ibidem, p. 128; 111; 142).

Nestas falas, das pessoas envolvidas com a CFR de Quilombo - SC pode-se perceber: o monitor é monitor, mas o jovem é aluno; a atribuição, pela mãe, da paternidade do monitor para com o aluno pela própria mãe; esta paternidade é limitada ao momento em que o jovem está na CFR; a CFR como locus de ―repasse‖ de conhecimento e do ―bem‖, para o bem do

―aluno‖; a condição de ―saber mais‖ do monitor e reconhecimento de relativa ignorância do

jovem, que deve respeito ao monitor por isto; a CFR como mediadora (―ponte‖) entre conhecimento popular e conhecimento científico; e, a CFR como local de estudo sobre o que praticar na propriedade, como um rompimento da seqüência da vida, para alterá-la.

Na Transamazônica, apesar dos discursos agressivos contra a escola tradicional150, a aproximação entre CFR e escola é presente e nítida: a ficha pedagógica é um material didático

semelhante a um ―livro em fascículos‖; o plano de formação equivale a um currículo; o plano

de estudo é uma tarefa, tema ou trabalho de casa; os horários, inclusive com intervalos para a merenda e brincadeiras, obedecem à estrutura cronométrica da maioria das escolas; a relação e a disposição das pessoas (monitores e jovens) em sala de aula não diferem de qualquer escola. Na minha primeira semana de convivência com uma das turmas observei:

Até agora, independente de necessitar de mais tempo para conclusões, já é possível dizer uma coisa, com muita chance de estar certo: não há grande diferença entre os alunos, estejam eles no meio rural ou no meio urbano. Satirizam os colegas, a si próprios, ao monitor, aos estranhos, têm seus códigos de turma; brincadeiras, gozações deboches; irresponsabilidade com a aula, rompem com sua temática quando e como bem entendem.

A turma é bastante agitada; conversam um com o outro, de um canto ao outro da sala, riem bastante, levantam-se de uma ponta à outra da sala e dão-se esfregões e empurrões, no meio da aula sem nenhum medo de autoridade. O monitor chama a atenção repetidas vezes. É tolerante, com alguma generosidade. Consegue brincar com a turma, rir com eles. Pede que se envolvam com o trabalho da aula, sem impedir que brinquem. Chama a atenção para a necessidade de se concentrar e conta que um pai de aluno comentou com os monitores que o filho já está menos malandro, depois de entrar na Casa Familiar, e que a turma deve se comportar (Diário de campo, p. 23151).

150 A expressão ―escola tradicional‖, no interior da CFR, tem sempre uma conotação pejorativa, como algo anacrônico e impraticável para a educação de jovens do meio rural (agrícola), mas ela sempre será usada como sinônimo de ―escola formal‖ ou ―escola oficial‖. É atribuída uma carga negativa ao ―tradicional‖ como oposto do ―novo‖, mas não há nenhuma explicação além disso.

151

Esta observação foi na 4ª turma que tem características bem diversas da 3ª turma. A principal característica, até pela idade, é de um comportamento bastante ―irresponsável‖, numa transgressão pueril como forma de romper com uma indisfarçável monotonia, como se monitores e alunos estivessem naquele ambiente por algum tipo de obrigação não criada e não assumida por eles.

A CFR de Cametá trabalha com aulas e professores de disciplinas escolares do sistema oficial de ensino, e monitores para conteúdos específicos da estrutura da CFR. Apesar das críticas que têm sofrido pela equipe pedagógica da ARCAFAR N/NE, os monitores admitem que é a única forma de trabalhar algumas disciplinas e conteúdos das disciplinas oficiais, as quais nem os monitores se sentem capacitados para trabalhar.

Sobre o tempo. – Em se tratando do tempo, em particular, chama a atenção o fato de que

cada CFR tem um horário de funcionamento que, em geral, é idêntico ao que se poderia

chamar de ―horário comercial‖. Não há uma orientação ―rural‖ na estrutura dos horários nas CFR‘s. Na verdade o horário admitido é uma distribuição comum a internatos de qualquer

tipo.