Em que pese a limitação imposta pelo pequeno tamanho da amostra, o presente trabalho pretendeu, pela oportunidade dos dados disponíveis, explorar fatores que possam contribuir para a compreensão das decisões de jovens egressos do Ensino Médio público estadual na capital de São Paulo para ingresso no Ensino Superior. A condição excepcional que permitiu que se aglutinasse um inédito conjunto de dados sobre as características socioeconômicas das famílias, do desempenho escolar dos indivíduos, das expectativas dos pais, além de dados qualitativos sobre a escola de Ensino Médio pública onde estudaram, cobre uma lacuna nos estudos no Brasil sobre a busca por mais escolaridade. Os seis entrevistados como estudo de caso dentre os 52 considerados na amostra permitiram aprofundar ainda mais o que a amostra apresentou, possibilitando um olhar adicional sobre possíveis variáveis latentes.
O papel da assimetria de informação, manifestada por informação incorreta, incompleta ou pela simples falta de informação, bem exemplificada pelo entrevistado 1 (página 71), foi em parte reforçada pelas análises quantitativas do desempenho escolar do indivíduo. Surpreendeu que, dentre os cinco melhores desempenhos em Matemática no exame Saresp, dois jamais tivessem participado de um processo seletivo para ingresso no Ensino Superior, incluindo o melhor da amostra (Entrevistado 3, página 83). Caso aprofundamentos empíricos com amostras mais representativas a partir das notas do Saresp individual confirmem o observado no presente trabalho, políticas públicas de inclusão mais ativas poderiam ser formuladas. Sendo Matemática uma das áreas de maior defasagem nas competências esperadas dos concluintes do Ensino Médio em São Paulo, o fato de jovens de escolas públicas com elevado desempenho em Ciências Exatas não estarem realizando todo o seu potencial representa perdas para eles próprios, para as universidades e para a sociedade. A assimetria, nesse tipo de situação, acontece por causa, muitas vezes, da impossibilidade de esses indivíduos saberem quão melhor estão do que a média geral para tecer aspirações mais elevadas em termos de escolarização. É possível que também parte da autoexclusão e da descrença de chance de sucesso dos jovens das escolas públicas para o acesso às vagas das universidades públicas, percebida nos diálogos abertos, em grupo ou individual na fase preliminar desta pesquisa, seja também explicada por esse tipo de assimetria de informação.
Diante desse quadro, formas alternativas de seleção por parte das universidades públicas na capital, como a adotada pela Universidade do Texas, em Austin, que reserva a maior parte
das vagas dos cursos de graduação para os 10% melhores alunos de quaisquer escolas (BARONI, 2010), poderiam ser consideradas. Outras formas podem passar por alguma reformulação do Saresp para que os resultados individuais dos concluintes do Ensino Médio possam representar inscrição automática para processos de seleção diferenciados.
Ainda baseada no que foi apurado com os estudos de caso, a pesquisa sugere que tanto ou mais importante que o quantum de renda das famílias para a busca do Ensino Superior pelos filhos é a estabilidade da renda, desde que não em patamares muito baixos. O Entrevistado 2 (página 78), que pareceu ser o que mais informações possuía acerca das regras e facilidades para o ingresso no Ensino Superior, demonstrou isso. Nesse caso, a figura do pai, um agente de apoio na subprefeitura da Lapa, com renda modesta mas garantida porque o cargo oferece estabilidade, somado ao especial zelo na pressão sobre a escolarização do filho, pode ter ajudado a moldar no jovem elevadas aspirações e incomum capacidade de buscar informações relevantes. O Entrevistado 2 também foi beneficiado por estudar numa escola pública próxima de uma organização não governamental que oferecia curso pré-vestibular aos melhores alunos. Parece ter sido um caso em que a sorte encontrou terreno fértil: família com participação ativa e aluno de bom desempenho e que, conforme também apurado na entrevista, possuía grande gosto pela leitura. O resultado, um universitário de Direito que está bastante seguro da viabilidade das elevadas aspirações profissionais depois de formado: ganhar de 10.000 reais a 15.000 reais por mês.
A família da Entrevistada 4 (página 85), com renda domiciliar per capita de cerca de 2.000reais, em 2010, atualmente cursando Administração de Empresas na Universidade São Judas e estagiando numa companhia alemã, pode ajudar a compreender por que a escolaridade dos pais não se mostrou uma variável explicativa tão relevante para predizer os indivíduos que buscariam pelo Ensino Superior. Os pais dessa jovem possuem apenas quatro anos de escolaridade. No entanto, isso não impediu que o pai alcançasse um nível alto de renda do trabalho. Tal sucesso parece resultar de um grau maior de pressão dos pais para que os filhos tenham a escolarização que eles mesmos nunca tiveram chance de ter. A entrevistada correspondeu em desempenho acadêmico. Seu desempenho médio no Saresp (Língua Portuguesa e Matemática) foi o mais elevado da amostra. Porém, mais uma vez, uma postura de auto exclusão por descrença no seu potencial de sucesso para uma vaga mais concorrida para o mesmo curso na USP nem ao menos a fez cogitar se inscrever para o vestibular da Fuvest. A Entrevistada 4 também representou os sentimentos de urgência frequentemente verificados nos diálogos e entrevistas preliminares com grupos de jovens concluintes ou
egressos das escolas públicas da capital. Ela, com apenas 19 anos e na metade do curso superior, afirma que só permanecerá no estágio atual, de que gosta muito, se a chefe lhe garantir efetivação. A entrevistada acha que, se quando no ano da formatura não estiver efetivada, “as chances de conseguir um emprego” de 2.000 reais “serão pequenas”.
O Entrevistado 5 (página 90), no estudo de caso, foi representativo do quanto a figura de determinados professores e adultos e o quanto a oportunidade do diálogo podem resgatar potenciais fracassos. Fora um aluno com faltas constantes e baixíssimo desempenho. Estava para ser expulso ou transferido da escola por acusação de tráfico de drogas, quando uma longa conversa com um dos gestores, justamente o que queria seu afastamento, abriu-lhe os horizontes. O gestor, que no ano seguinte lecionou Filosofia para o entrevistado, se tornou um modelo para ele, que concluiu em 2010 o bacharelado em Filosofia e em 2011 pretende completar licenciatura para dar aula para “outros desiludidos”.
O Entrevistado 6 (página 93), recordista com quatro vestibulares entre os 26 da amostra que participaram de exame vestibular, pareceu representar os casos dos que buscam mas, por frágil formação, não conseguem o sucesso de uma vaga no curso de tecnólogo em Pavimentação, numas das Fatecs da capital. Ter um irmão mais velho já formado tecnólogo em eletrônica e ser egresso da escola com melhor desempenho entre todas as consideradas na amostra podem lhe haver moldado a determinação pela busca do ensino superior público. Porém, as notas fracas, a necessidade de prosseguir no trabalho atual, muito valorizada por ele, e uma disposição limitada de assumir riscos e ousar buscar por vagas em IES federais mais distantes parecem representar bem certo imobilismo dos egressos das escolas públicas. Diferente do Entrevistado 2, que, caso não tivesse conseguido a bolsa integral do Prouni na capital, teria ido estudar na cidade de Franca, na USP, em geral os alunos das escolas públicas jamais cogitam mudar de cidade para se graduar. Mais uma vez, assimetria de informação sobre as facilidades e baixas aspirações parece moldar decisões e comportamentos.
Nas análises quantitativas, fatores como a característica monoparental das famílias e a presença de computador em casa (em 2007) se destacaram como variáveis com elevado poder de explicação sobre as decisões pela busca do Ensino Superior. Domicílios com apenas o pai ou, na maioria das vezes, apenas as mães, reduzem de maneira importante as chances pela busca da graduação. Para efeito de política pública essa informação pode ter especial importância na formulação de critérios de concessão de bolsas de ensino, de financiamento educacional ou de sistemas de cotas sociais, beneficiando, por compensação, jovens com
famílias nessa condição que, conforme a PNAD 2007, representam 21,8% dos domicílios brasileiros.
Outras análises quantitativas da amostra também apontaram que o tamanho da família e a cor fazem pouca diferença quanto à probabilidade de decisão pela busca do Ensino Superior. O dado não corrobora com as teses em favor das cotas raciais para o conjunto de alunos das escolas públicas estaduais paulistanas. O enfrentamento da assimetria de informação para os alunos das escolas públicas poderia gerar mais justiça social através da inclusão de alunos pobres e de bom potencial no ensino superior de qualidade. A escolaridade dos pais e a renda (média domiciliar e familiar per capita) mostraram-se também variáveis com baixo poder explicativo para a busca de um diploma universitário. O fato de a amostra ser pequena torna casos incomuns demasiadamente influentes nos dados calculados, o que explica o fato de que a escolaridade das mães ter revelado um coeficiente de variação negativo e a dos pais, apenas ligeiramente positivo. Ambos não mostraram um poder explicativo significante quando da busca de ensino superior. Como já apontado a partir do caso da entrevistada 4, nessa população, pais com baixa escolaridade e renda mais elevada podem ser tão ou mais exigentes da escolarização superior dos filhos que aqueles de família de classe média ou média alta, cujos filhos estudam em escolas particulares.
O fato de as regras para a concessão de bolsas como o Prouni envolverem patamares limítrofes per capita também pode afetar o uso dessa variável como uma das que podem explicar a busca pelo ensino superior. Apesar de não ter sido possível verificar tal efeito na amostra, é provável que jovens de algumas famílias não avancem para um curso de graduação por se encontrarem na situação peculiar: não são pobres o suficiente para conseguirem uma bolsa Prouni nem possuem renda suficiente para custear as mensalidades numa IES particular. Se essa hipótese for verdade, as novas e mais abrangentes regras do Financiamento Estudantil (FIES) podem minimizar o problema. A investigar.
Medidas de desempenho escolar dos indivíduos, como suas notas no Saresp em Língua Portuguesa, mostraram-se boas previsoras da busca por mais escolarização. Porém, os indicadores de desempenho da escola, medido pelo mesmo Saresp, ou pelo Enem, revelaram baixo poder explicativo para a decisão pela busca do diploma do Ensino Superior. Ainda que o Saresp tenha ao menos mostrado sinal positivo aderente com o esperado, o que não aconteceu com o Enem, o baixo poder explicativo desses indicadores, carecendo de maiores aprofundamentos, pode revelar uma preocupante carência no Brasil de um indicador prático e intuitivo sobre a qualidade das escolas de Ensino Médio públicas. Ao contrário das escolas
particulares, que têm no Enem seu indicador mais importante, o fato de este exame ser por adesão voluntária dos alunos e de apenas uma pequena parcela dos terceiranistas do Ensino Médio público nele se inscrever (na amostra tomada, o máximo de participantes chegou a 49%), torna o dado médio por escola de muito pouco valor prático. Caso a Prova Brasil, que avalia o universo de escolas do ciclo Fundamental, não fosse apenas amostral para escolas de Ensino Médio (SAEB), essa limitação grave do Enem seria minimizada. No entanto, o Ensino Médio público no Brasil, a fase escolar cujo desempenho dos alunos apresenta a pior defasagem nos níveis esperados de aprendizagem, não conta com um indicador que permita que alunos e pais façam escolhas das escolas públicas pela qualidade.
Finalmente, a condição de trabalho dos jovens, seja em 2007, quando estudavam no Ensino Médio, quanto atualmente, durante o survey aplicado para este trabalho, não mostrou qualquer poder explicativo quanto à busca do diploma Superior ou para a interrupção dos estudos. Por outro lado, considerando as respostas dos pais em 2007, quanto mais elevadas foram as expectativas que eles disseram ter sobre o grau máximo de escolarização dos filhos e quanto maior a frequência dos diálogos que mantinham sobre o futuro profissional dos filhos, maiores foram as probabilidades de esses filhos terem buscado pelo ensino superior.