• No results found

7. Discussion

7.5 Conclusion

O Romanceiro na Espanha Neoclássica

Segundo Menéndez Pidal,119 em Espanha, durante o séc. XVIII o romanceiro tradicional, embora continue a viver oralmente entre o povo menos instruído, perdeu todo o favor entre o público ilustrado. Esta afirmação, ainda que contestada por alguns autores,120

119

Ver Ramón Menéndez Pidal, Romancero hispánico (hispano-portugués, americano y sefardí).

Teoría e Historia, 2ª ed., II, Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1968, p. 246.

120

Por exemplo, Joaquín Marco [Literatura popular en España en los siglos XVIII y XIX (Una

aproximación a los pliegos de cordel), I, Madrid, Taurus, 1977, p. 103] implicitamente põe em dúvida as

afirmações de Pidal (que antes citara), afirmando que “sabemos hoy cuán difícil es sustraerse a las influencias del arte popular”; contudo, em seguida, não apresenta provas que provem o erro de don Ramón. Posteriormente, Kathleen Kish [“The Spanish Ballad in the Eighteenth Century: A reconsideration”, Hispanic

Review, 49 (1981), pp. 271-2] contesta também as afirmações de Pidal, embora na parte em que o mestre

espanhol se referia a um quase abandono do romance enquanto forma literária por parte dos poetas cultos neoclássicos. E mostra que, pelo contrário, são vários os autores que nessa época escreveram romances (ver a respectiva lista nas pp. 283-4).

Pelo contrário, não sofre contestação a existência de repetidos anátemas que, por razões morais, desde a segunda metade desse século e durante o seguinte, são lançados contra os romances vulgares, a começar por uma lei de Carlos III que, em 1767, proibia a sua impressão (o texto dessa “real cédula” pode ler- se em Madeline Sutherland, Mass Culture in the Age of Enlightenment. The blindman’s ballads of eighteenth-

century Spain, New York, etc., Peter Lang, 1991, p. 14). Que tal medida governativa não surtiu efeitos é

provado pelos ataques ao género que preocupados intelectuais continuam a fazer, de que é bom exemplo o duríssimo “Informe del fiscal de la sala de alcaldes”, de 1798, escrito pelo fiscal (e poeta neoclássico) Meléndez Valdés (vários excertos deste relatório podem ser lido em M. Sutherland, op. cit., pp. xxi e 19). Sobre os ataques ilustrados contra o romanceiro vulgar, ver também, entre outros, Julio Caro Baroja, Ensayo

sobre la literatura de cordel, [2ª ed.], Madrid, Ediciones Istmo, 1990, pp. 18-22; Francisco Aguiar Piñal, Romancero popular del siglo XVIII, Madrid, C. S. I. C., 1972, pp. xiv-xvii; e sobretudo Madeline Sutherland,

parece substancialmente verdadeira, embora seja um facto que, nas últimas décadas do século, o panorama começa a mudar. Na verdade, data de 1768 o primeiro volume do Parnaso español, organizado, ao que se julga,121 por López de Sedano. Trata-se duma antologia, de que, até 1778, se publicarão nove volumes, onde os romances estão representados, ainda que apenas por textos de autor e quase sempre líricos.122 No entanto, o prólogo do I vol. contém uma passagem que, embora não referida apenas ao romanceiro velho, a ele também se pode aplicar; é quando o autor fala dos “romanceros: Colecciones [...] muy apreciables en su especie, que con este, u otros diversos titulos han recogido, y publicado sus Autores.”123

É verdade que, em nota ao único romance (de autor) publicado neste I vol., López de Sedano escreve as seguintes palavras, que claramente se referem apenas aos romances novos e, para mais, sublinham o relativamente baixo coturno desta forma versificatória:

Los Romances Castellanos son el depósito de las sentencias y los conceptos; [...] fueron por muchos tiempos el metro mas comun en todos los Poetas [...] estas Poesías no se hicieron para grandes asuntos, ni para tratar altas materias, no se deben pretender en ellas tanto la grandeza, la disposicion, el ornato del argumento, quanto la solidez de las sentencias, con la hermosura del estilo, la pureza de la frase.124

op. cit., pp. 14-20. Além disso, esta última obra é, ao que sabemos, o estudo mais actualizado sobre o romance

vulgar no séc. XVIII.

Prova da grande voga que, não obstante todos os ataques e proibições, os romances vulgares continuaram a ter entre o povo espanhol até há pouco tempo é a tradicionalização de muitos e muitos deles (ver Flor Salazar, El romancero vulgar y nuevo, preparado [...] con la guía y concurso de Diego Catalán, por..., Madrid, Fundación Ramón Menéndez Pidal / Seminario Menéndez Pidal, Universidad Complutense, 1999). Essa voga parece não ter existido em Portugal ou, então, ter aqui terminado muito mais cedo, talvez antes mesmo do séc. XVIII (possivelmente pelas condições políticas existentes desde a restauração da independência, em 1640, e a consequente diminuição de contactos com Espanha). Pelo menos, tal é o que parece poder concluir-se da tão escassa presença na nossa tradição oral desse tipo de romances, cuja função noticiosa e carácter truculento foram assumidas em Portugal, como se sabe, pelas canções narrativas, género esse, pelo contrário, muito rico entre nós (e que, infelizmente, continua à espera do seu historiador).

121

Até ao vol. V, inclusive, a obra saiu anónima. Porém, os volumes anteriores são considerados também de López de Sedano.

122

O I vol. apenas contém um romance; nos vols. II-VI, porém, publicam-se vários.

123

[Juan Joseph López de Sedano], Parnaso español. Colección de poesías de los más célebres

poetas castellanos, I, Madrid, Por Joachin Ibarra, 1768, p. ii. O itálico é da nossa responsabilidade.

124

57

Pelo contrário, em 1789, na 2ª ed. da Poética de Luzán,125 há palavras de muito apreço pelo romanceiro, mencionando-se também algo que passará a ser um lugar-comum em todas as reflexões espanholas sobre esta forma — o seu carácter castiço:

[o romance é] una versificacion excelente para varias composiciones, que como ya dixe126 es propia y peculiar de nuestra lengua. Los estrangeros no perciben la cadencia de los asonantes, y algunos, como el Abate Quadrio, dicen que es disonante y desapacible. Dexemolos en su error, pues por mas que hagamos no podremos añadirles intension y delicadeza en el organo del oido.127

Alguns anos depois, Quintana inclui, numa antologia,128 numerosos romances, é verdade que, na sua esmagadora maioria, pertencentes à classe dos novos. No prólogo do I vol., o autor, depois de lamentar o mau gosto em que, com poucas excepções, estaria escrita a literatura antiga espanhola, escreve: “Sin embargo hay en los Romanceros mas expresiones bellas y enérgicas, mas rasgos delicados é ingeniosos, que en todo lo demas de nuestra Poesía.” Vê-se, no entanto, que ao escrever estas palavras, não tinha em mente os romances velhos, mas sim outros, a que, logo em seguida, alude: “Los Romances Moriscos principalmente están escritos con un vigor, y una lozania de estilo que encanta.”129

125

A 2ª ed. foi organizada pelos filhos do autor e por Eugenio Llaguno, que a aumentaram e modificaram (em relação à 1ª, de 1737) com apontamentos deixados inéditos por Luzán; além disso, algumas das alterações parece deverem-se ao próprio Llaguno (ver Menéndez Pelayo, Historia de las ideas estéticas en

España, III, Madrid / Santander, C.S.I.C. / Aldus, S. A. de Artes Gráficas, 1947, pp. 220-1). A passagem sobre

os romances que, no texto, citamos não existia na 1ª ed.

126

Refere-se aqui ao que, na p. 362, escrevera: “Los asonantes, ó rima imperfecta, son propios exclusivamente de nuestra Poesía Castellana; pues no se yo que se usen en otra lengua”. Esquecia-se, obviamente, da portuguesa, pelo menos.

127

Ignacio Luzan Claramunt de Suelves y Gurrea, La poetica, ó reglas de la poesia en general y de

sus principales especies, por D. ..., corregida y aumentada por su mismo Autor, I, Madrid, En la Imprenta de

don Antonio de Sancha, 1789, p. 369.

128

[Manuel Quintana], Poesías escogidas de nuestros cancioneros antiguos. Continuacion de la coleccion de D. Ramon Fernandez. Tomo XVI: Contiene el cancionero, los romances moriscos, y los

pastoriles, Madrid, En la Imprenta Real, 1796. Embora a obra não esteja assinada, é usual atribuí-la a Quintana

(ver E. Allison Peers, Historia del movimiento romántico español, trad. de José Mª Gimeno, 2ª ed., I, Madrid, Editorial Gredos, S. A., 1967, p. 73).

129

Por seu lado, os romances pastoris, se possuem menos vigor que os mouriscos, têm, pelo contrário, mais “sencillez”. E sobre ambos estes géneros diz: “La invencion en unos y en otros es bellísima, y admira ver con que propiedad describen, y en quan pocos rasgos, el sitio, el personage, y los sentimientos que le agitan.”130

É óbvio, portanto, que o estilo dos romances velhos não agradaria a Quintana. De notar, aliás, que, os únicos romances velhos (quatro) que se incluem na antologia são apresentados como amostra para que “puedan conocerse quan fastidiosas serian semejantes composiciones”, pelo facto de, segundo ele, serem de rima consoante.131 No entanto, ainda que apresentados como curiosidade histórica e velharia ultrapassada pelo progresso da versificação, a verdade é que aqueles quatro textos são os primeiros romances velhos que, desde há muito tempo, se reimprimiam.

Renascimento, na Alemanha, do Interesse pelos Romances Velhos

Mas temos de esperar ainda vários anos até que, sintomaticamente na Alemanha, apareça a primeira colecção moderna dedicada ao romanceiro velho: a Silva de romances viejos de Jakob Grimm, publicada em 1815, e que, logo desde o título, mostra bem o seu propósito de separar as águas.132 No prólogo, Grimm explica: “la mayor parte de estos

130

Op. cit., p. xix.

131

Note-se que os quatros romances velhos estão englobados num grupo de 10 textos (pp. 74-83), pertencentes todos eles, segundo palavras de Quintana (p. xiii), a uma época em que naquelas composições, “guardándose por lo comun un solo asonante, no habia variedad en los sonidos, ni armonia, ni soltura”. A esse tipo de romance sucederiam mais tarde os escritos em versos vocálicos (“asonantes”), “mas fáciles, mas abundantes, y menos fastidiosos”. A verdade, porém, é que dos citados 10 romances só 6 são totalmente escritos em consoantes; os restantes quatro (que são, precisamente, os aludidos romances velhos) apresentam apenas alguns consoantes, misturados com versos de rima exclusivamente vocálica.

132

Desta obra afirmou Wolf: “ Elección y ordenación anuncian al maestro, siendo en este respecto la

primera verdadera colección modelo” (Fernando Wolf, Historia de las literaturas castellana y portuguesa,

trad. de Miguel de Unamuno, con notas y adiciones por M. Menéndez y Pelayo, II, Madrid, La España Moderna, s/d., p. 89; a ed. original, com o título de Studien zur Geschichte der spanischen und

59 romances la he sacado, como era debido, del cancionero de Amberes 1555”.133 E mais à frente frisa bem:

he mirado en lo que diligentamente [sic] discerniesse los romances verdaderos de aquellos, que se han compuesto posteriormente a la imitacion de los viejos, a los quales, falta mucho, para que puedan parecerse en ninguna manera.134

.

Aos romances em geral falta, segundo Grimm,

aquella fuerza de expresion, aquella viveza del introito y aquella vicisitud de movimiento, que manifestanse en las poësias populares inglesas, alemañes [sic] y escandinavicas; pero son todos simples, algunos son dulcisimos,135

pelo que, ao fim e ao cabo, não sabe se prefere as baladas ou os romances.

O autor informa ainda que, se a obra tiver êxito, publicará outro volume, e aí, juntamente com romances do Cid, de Bernardo del Carpio, etc., espera poder publicar alguns textos recolhidos da tradição oral moderna:

hay quien me ha hecho esperar que podre publicar en seguida algunos otros hasta ahora ineditos, recogidos por un viajero aficionado a la poësia castellana. Oxala que otros enamorados de ella hagan lo mismo, y arranquen al olvido los fragmentos de la verdadera poësia epica, que suele conservar el pueblo en sus viejos romances! bien que teme [sic] ser demasiado tarde para esta empresa meritoria.136

Da recolha do tal “viajero” (possivelmente daquele tipo de viajantes alemães interessados pela etnografia, a quem Herder, como vimos, aconselhava a recolha de canções tradicionais, a fim de conhecerem bem a essência dos povos que visitavam), nada se sabe, e ainda teriam de passar alguns anos até chegar o primeiro “enamorado” da poesia que

133

Citamos pela 2ª edição: Jacobo Grimm, Silva de romances viejos, Vienna de Austria, En casa de Schmidl, 1831, p. v.

134

Op. cit., p. vi.

135

Op. cit., p. xi.

136

recolheu romances da tradição oral moderna espanhola: Bartolomé José Gallardo, em 1825.137

Em 1817, dois anos depois de Grimm, outro autor alemão, Depping, publica uma grande colecção de romances (no original castelhano, sem tradução), acompanhada por um extenso prólogo.138 Ali se frisa que “os Espanhóis se distinguem entre todos os povos pela enorme quantidade dos seus romances” 139 e que nesta obra se limitou a publicar os melhores, os quais, para ele, deviam ser, fundamentalmente, romances velhos, uma vez que são esses que ocupam a maior parte do livro. Desta obra foi publicada, em 1825, em Londres, uma edição totalmente em espanhol, traduzida e “enmendada” por um exilado liberal.140

Em 1821, outro alemão, Böhl de Faber, inclui numerosos romances velhos no I vol. da sua Floresta.141

137

Ver, por exemplo, Antonio Sánchez Romeralo, “El romancero oral ayer y hoy: breve historia de la recolección moderna (1782-1970)”, in Antonio Sánchez Romeralo et al., El romancero hoy: Nuevas

fronteras, Madrid, Editorial Gredos, 1979, p. 17.

138

Desta colecção escreveu Wolf: “Depping ha alcanzado [...] el mérito de haber sido el primero en dar un romancero completado, ordenado y que abarca todos los géneros principales, habiéndola hecho mas accesible á un más amplio círculo de lectores por su introducción y sus notas” (Historia de las literaturas

castellana y portuguesa, cit., II, p. 89). Pidal, embora tendo sobre a obra de Depping uma opinião muito menos

entusiástica, não deixa de lhe fazer justiça, e dela diz que é um “trabajo de no mucha erudición ni mucha diligencia, pero que muestra cómo en adelante será ya imposibile la inveterada confusión crítica de varios géneros romancísticos” (Romancero hispánico, cit., II, p. 255).

139

“Die Spanier haben sich unter allen Völkern durch den übergrossen Vorrath ihrer Romanzen ausgezeichnet” (Ch. [sic, por G., de Georg] B. Depping, Sammlung der besten alten spanischen historischen,

ritter- und maurischen Romanzen, geordnet und mit Anmerkungen und einer Einleitung versehen von...,

Altenburg und Leipzig, F. A. Brockhaus, 1817, p. xi).

140

G. B. Depping, Colección de los más célebres romances antiguos españoles, históricos y

caballerescos, publicada por... y ahora considerablemente enmendada por un español refugiado, Londres, 1825

[ver Peers, op. cit., I, p. 131; Pidal (op. cit., II, p. 255, nota 29) identifica o “refugiado” como sendo Vicente Salvá]. Uma nova ed. em espanhol saiu em 1844-46 (3 vols.), preparada por Depping, que a aumentou quase em metade, e que foi “la más rica colección de romances que hasta ella se poseía” (Wolf, Historia, cit., II, p. 89).

141

Ver Juan Nicolás Böhl de Faber, Primera parte de la floresta de rimas antiguas castellanas, ordenada por Don ..., Hamburgo, En la librería de Perthes y Besser, 1821. Os romances velhos formam grande parte da secção intitulada “Romances” que ocupa as pp. 244-264. Na secção com o mesmo título que se encontra nas pp. 243-384, porém, os romances são todos cultos.

61

Traduções Inglesas, Alemãs e Francesas de Romances Espanhóis

Quanto a traduções de romances para outras línguas, várias se vão fazendo nas últimas décadas do séc. XVIII, sobretudo em Inglaterra. Tudo parece começar com duas versões de romances novos (extraídos das Guerras Civiles de Granada, de Pérez de Hita) que Percy inclui nas suas Reliques,142 “as a specimen of the ancient Spanish manner, which resembles that of our English bards and minstrels”.143 No prólogo que acompanha os textos, o autor frisa que “the Spaniards have great multitudes of them [i. e. romances], many of which are of the highest merit”, e informa que as traduções que aqui oferece são “from a small collection of pieces of this kind, which the Editor some years ago translated for his amusement when he was studying the Spanish language”.144 Tal colecção existiu, de facto, e esteve mesmo para ser editada anos depois das Reliques, em 1775, embora, por razões ignoradas, não tenha chegado a sair, tendo sido publicada apenas em 1932.145

Às traduções de Percy seguem-se, até finais do século, outras146 avulsas, devidas a vários autores, como o hispanófilo e lusófilo Southey, mas é preciso esperarmos por 1801 para encontrarmos um livro inteiro com romances traduzidos: as Ancient Ballads de Rodd,147 autor que, em 1812, publica novo livro em parte ocupado por romances.148

142

Ver Percy, Reliques, cit., I, pp. 334-342.

143

Op. cit., I, p. 332.

144

Op. cit., I, pp. 331 e 332.

145

Ver Thomas Percy, Ancient Songs Chiefly on Moorish Subjects translated from the Spanish by..., with a preface by David Nichol Smith, Oxford, Oxford University Press, 1932. Inclui a tradução de 7 romances, todos extraídos das Guerras Civiles de Granada.

146

Sobre as traduções de romances espanhóis na Grã-Bretanha, ver Erasmo Buceta, “Traducciones inglesas de romances en el primer tercio del siglo XIX. Notas acerca de la difusión del hispanismo en la Gran Bretaña y en los Estados Unidos”, Revue hispanique, LXII, nº 142 (décembre 1924), pp. 459-555; Shasta M. Bryant, The Spanish Ballad in English, Lexington, The University Press of Kentucky, 1973; e Diego Saglia, “British Romantic Translations of the ‘Romance de Alhama’ and ‘Moro Alcaide’, 1775-1818”, Bulletin of

Hispanic Studies, LXXVI (1999), pp. 35-56.

147

Thomas Rodd, Ancient Ballads from the Civil Wars of Granada and the Twelve Peers of France, London, J. Bonsor, 1801.

148

History of Charles the Great and Orlando,[...] Together with the most celebrated ancient Spanish

ballads relating to the twelve peers of France, mentioned in Don Quixote, London, 1812, 2 vols (ver Erasmo

Seguem-se-lhe outras traduções avulsas, de vários autores, alguns famosos por motivos diferentes, como Byron, Lewis ou Scott, e duas grandes colecções: a de Lockhart, em 1816,149 e a de Bowring, em 1824.150

Entretanto, na Alemanha, Herder, que parece ter tido o primeiro contacto com os romances através das Reliques de Percy, inclui várias versões (todas do romanceiro novo) nos Volkslieder, escrevendo mesmo que “os romances espanhóis são as mais simples, as mais antigas e, em geral, a origem de todas as baladas”.151

Alguns anos depois, o mesmo Herder traduz 70 romances do Cid da colecção de Escobar (na sua grande maioria a partir duma versão francesa em prosa, publicada em 1783),152 formando uma espécie de biografia do herói castelhano. Essa tradução começou a sair numa revista em 1803, mas só foi publicada completa, e em volume, em 1805.153 Levado talvez por essas recentes leituras, Herder escreve, em 1803, naquele que parece ser o seu último artigo (morrerá em Dezembro do mesmo ano): “La storia del Cid [...] nelle sue romanze è così ricca di scene eccellenti, di sentimenti e d’ insegnamenti nobili come (oso dirlo?) Omero stesso”.154

Outro alemão, Hegel, influenciado precisamente pela leitura do Cid de Herder, escreve as seguintes palavras, que se tornaram célebres:

O que esta flor poética [i. e., o tema do Cid] foi para o heroísmo nacional de Espanha e da Idade Média, exprimiu-o ela, em primeiro lugar, no poema do Cid, numa série de narrações chamadas romanceiros que Herder deu a conhecer à Alemanha. É um colar de pérolas, uma série de quadros

149

A primeira edição parece ter o título de The Spanish Ballads, e ter saído em Londres; na maioria das reedições (teve 11!), a obra chama-se Ancient Spanish Ballads (ver Bryant, op. cit., p. 28).

150

John Bowring, Ancient Poetry and Romances of Spain, London, Taylor and Hessey, 1824 (ver Bryant, op. cit., p. 30).

151

“Die spanischen Romanzen sind die simpelsten, ältesten und überhaupt der Ursprung aller Romanzen” (Herder, Stimmen der Völker in Liedern. Volkslieder, cit., nota a Zaid und Zaida, p. 26).

152

Sobre as origens da tradução de Herder, ver J.-J.-A. Bertrand, “Herder et le Cid”, Bulletin

hispanique, XXIII (1921), 181-210.

153

Der Cid. Geschichte des Don Ruy Diaz, Grafen von Bivar nach spanischen Romanzen. Consultámos a edição incluída nas Sämmtliche Werke de Herder (dirigidas por Berhard Suphan), vol. 28:

Poetische Werke, heraugegeben von Carl Redlich, Berlin, Weidmannsche Buchhandlung, 1884, pp. 399-546. A

obra não tem nenhum prefácio de Herder.

154

63 perfeitamente acabados, mas que se relacionam entre si a ponto de formarem um todo sólido e coerente; animados do espírito cavalheiresco, são ao mesmo tempo uma expressão da nacionalidade espanhola.155

Por essa altura, Friedrich Schlegel, nas famosas conferências que, em 1812, deu em Viena, afirma claramente que “ these romances [de Espanha] [are] more charming, to my fancy, than those in any other living tongue”.156 Além disso, estabelece, tal como vimos fazer a Grimm, uma comparação com as baladas inglesas (apreciadíssimas naquela época), mas, ao contrário do seu compatriota, não tem dúvidas em dar a palma de mérito aos romances espanhóis, por agradarem à totalidade do povo:

the Spaniards have as rich a store of romances as the English; but the pre- eminence of the former consists in the circumstance that they are not mere ballads in the more restricted acceptation of the term, a large majority being both devised and compiled in the epic form, thus presenting equal attractions to the illiterate and to the educated, since they are at once national in feeling and elegant in tone.157

Um pouco mais tarde, em 1821, Dietz publica uma extensa colecção de romances traduzidos para alemão,158 já não extraídos do romanceiro novo (como os escolhidos por Percy ou os do Cid de Herder), mas sim do velho, na linha, portanto, das preferências de Jakob Grimm.

155

Hegel, Estética. Poesia, trad. de Álvaro Ribeiro, Lisboa, Guimarães Editores, 1964, p. 272.

RELATERTE DOKUMENTER