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se espelhou poeticamente em alguns autores, sobretudo aqueles pertencentes ao período do Romantismo. Quando o visitei em sua fazenda, em 2015, fotografei algumas obras que o poeta mantinha em seu poder e que também serviram de fonte de inspiração do autor. A seguir, imagem de algumas dessas obras:

Figura 6 – Alguns livros encontrados na casa de Juca

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora. Fotografia: Andréa C. de Paula

Faziam parte desse acervo, então, como podemos perceber, publicações de autores românticos, como Gonçalves Dias (I-Juca Pirama), José de Alencar (Iracema), Casimiro de Abreu (Poesias Completas) e Castro Alves (Os escravos). Aliás, em homenagem a esses dois últimos autores, Juca produziu o poema Numa caçada de onça, em que ambos os poetas aparecem na forma de dois papagaios para ajudar o eu lírico (que, durante uma caçada, perdeu-se dos amigos, em uma mata fechada) a reencontrar os companheiros de caça. O poema finaliza-se com a revelação da verdadeira identidade das aves, conforme se verifica, a seguir:

Saí a mata pra fora, Terminô os meus trabai. Perguntei: ‘Meus papagai, Mim conta quem é vocêis, Qui tanto favor mim fêiz,

Qui todo bem mereceu!’

Eles oiô para mim, Pra dizer uma coisa reta: - ‘Somos almas de dois poetas, Qui a tempos já faleceu. Istando cumprindo a sorte, Viemos ti livrá da morte, Adeus!’ E disapareceu.

- ‘Alembre do Castro Alves,

E o Casimiro de Abreu!’

Em vídeo (intervalo entre 38:48 a 40:10) realizado por Marialda Coury, quando acompanhou a visita da dupla caipira patense Chiquito e Rubão até a fazenda de Juca da Angélica, em março de 2001, Juca demonstra novamente sentir admiração pelos poetas românticos, quando conta que, certa vez, um médico, ao vê-lo recitar seus versos, o comparou ao poeta Castro Alves. Segundo Juca, ele recebeu isso como um elogio e foi logo transformando o lisonjeio em poesia:

Eu recitano meus verso, Co’ aquela voz tão suave Um formado im medicina Me chamô de Castro Alves (Transcrição nossa)

No material audiovisual em questão, Juca afirma, ainda, com um certo entusiasmo, ter sido comparado também ao poeta Casimiro de Abreu por um professor, comparação essa que motivou a criação de mais uma de suas poesias:

Tinha um preto professor Gostava dos versos meu Sempre admirirano muito Esse dom que Deus me deu Me chamava sempre assim: Casimiro de Abreu

(Transcrição nossa)

O interessante é que Juca cita apenas pessoas “estudadas” para validar a sua semelhança com os mestres da poesia romântica. E é claro que Gonçalves Dias não podia ficar de fora desse balaio de versos de exaltação, e, desta vez, foi um despachante quem comparou o poeta ao autor de Canção do exílio, resultando na poesia, a seguir:

Na Lagoa, um despachante Q’ intende de puisia Admirano muito Da minha sabedoria Um dia ele me cumparô E me chamô Gonçalves Dia (Transcrição nossa)

Juca não escondia, portanto, a sua admiração por esses três poetas românticos. Todavia, o poeta de Mata-burros parece ter tido influência também de autores regionais. Em sua casa, encontrei, por exemplo, os livros Coriscos da Inspiração, de Nego Moreira (escritor patense) e Cidadela da Rosa, de Altino Caixeta (poeta de Lagoa Formosa e primo de Juca da Angélica). Com este último, conhecido popularmente por Leão de

Formosa, costumava dialogar, entre outros assuntos, sobre algumas técnicas de composição poética, conforme relato do próprio autor, disponível em documentário (intervalo entre 4:32 a 4:45) organizado por Cássio e Juliana (2001), em que Juca, ao ser questionado sobre o momento no qual se descobriu poeta, comenta:

Com quatorze ano, eu já fazia uns verso muito ruim, fora da meta, assim, purque os verso se for de oito ... ele tem de ser de oito cirtim; se ele der nove, ele tá mancano, né? O Artino contava no dedo assim, ó: ‘Ô Juca, tem de contá desse jeito’. ‘Artino, eu conto é na cabeça’. Ele: ‘Pois eu conto assim, ó’. Eu falei: ‘eu conto é na cabeça: se deu cirtim,

tá certo, se mancar é porque num tá certo, né?’ (Transcrição nossa).

Embora cada poeta tivesse estilos próprios de fazer poesia – quanto à metrificação dos textos, por exemplo, em que Altino fazia uso dos dedos para contar as sílabas poéticas, enquanto Juca o fazia por instinto ou inspiração, sem, necessariame nte , utilizar-se de alguma técnica, como explica o poeta na citação acima – ambos compartilhavam de um dom em comum, que é a entrega à palavra poética.

Em maio de 2017, no Instituto Federal do Triângulo Mineiro, câmpus Patos de Minas, uma turma do 3º ano do curso técnico em logística integrado ao ensino médio apresentou para a escola, no evento cultural Mostra de Saberes, peça teatral intitulada

Juca: nosso canto de saudade, representando a amizade existente entre Juca e Altino. A seguir, apresentamos um pequeno excerto do texto dramático produzido pelos estudantes e que traduz bem o vínculo afetivo que ambos os artistas tinham um pelo outro:

Quando dois poetas e amigos se encontram, a poesia emana no ar como que por instinto. Para Juca da Angélica, Leão de Formosa era seu dicionário, aquele que o ajudou naquilo que ninguém mais havia

ajudado: a escrever. Para Leão de Formosa, Juca da Angélica era o ‘Rei

dos poetas’, um amigo que trazia em si a simplicidade do campo e o amor pela poesia. Entre dois poetas nada flui melhor na arte da escrita do que a inspiração, a alma do poema, o júbilo do autor!

Da apresentação teatral, selecionamos a seguinte imagem (ver figura 7), para constar neste trabalho:

Figura 7 – Estefany e Yasmim, duas irmãs gêmeas e netas do Leão de Formosa, representando, respectivamente, Altino Caixeta de Castro e Juca da Angélica

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora. Fotografia: Andréa C. de Paula

Em vídeo, realizado em 25 de novembro do ano 2000 (intervalo entre 14:33 a 15:30), que registra uma das visitas de Marialda Coury à fazenda de Juca, este confirma, em tom de gratidão, o apoio linguístico-cultural que recebera de Altino Caixeta, seja no esclarecimento semântico de algumas palavras desconhecidas pelo poeta de Mata-burros, seja na elucidação de algumas curiosidades que o inquietavam:

Agora o Artino, tá doido, eu tenho que agradecer o Artino e rezo pra ele, purque o Artino me apoiava muito e tem muita coisa que eu sei na

cabeça, uma pessoa ainda falou assim: ‘como é que ocê num teve escola

nenhuma e sabe tanto sinônimo?’ O Artino era o meu dicionário, era o

Artino. Queria sabê uma coisa: ‘Artino, cumé qué isso aqui?’ ‘Isso aqui

é assim’. Às veiz eu num ia na cidade e mandava uma listazinha grande pra ele, isso e isso e isso e ele punha tudo adiante o que qui é, né? Um dia eu me alembro de perguntar de saber dele o que qui é Petrarca e foi e falô que Petrarca era um poeta. Eu perguntei, achei aquele nome bunito, é um nome que num tem rima quase, mas um dia às veiz eu

precisava do Petrarca, né? Ele falou: ‘Petrarca era um poeta’

(Transcrição nossa).

Altino Caixeta foi para Juca, nesse sentido, além de amigo, uma espécie de mentor poético, especialmente no que diz respeito ao contorno formal do poema. Com o Leão de Formosa, aprendeu, por exemplo, como fazer um soneto. Entretanto, ambos tinham muito a ensinar um para o outro, pois, enquanto Altino dominava a habilidade da escrita, Juca carregava consigo o lirismo na voz e no corpo e um saber nato suficie ntes para suprir o pouco conhecimento na arte de escrever.