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4 Main Objectives of the Thesis

7.7 Conclusion

Para entender a complexidade de ideias em torno da expressão civic journalism há a necessidade de explicar melhor as diferenças de significados entre os termos civic e suas palavras correlatas como citizenship (cidadania), citizen (cidadão), public (público) e community (comunidade) entre os norte-americanos e brasileiros para compreender porque as traduções livres não devem ser usadas indiscriminadamente no Brasil quando nos referimos a esta nova modalidade jornalística.

É preciso destacar que os norte-americanos vivenciaram momentos históricos completamente diferentes dos brasileiros. Por esses motivos, a tradução literal de civic journalism para jornalismo cívico não é a mais completa nem a mais adequada para tentar explicar o que desejam os profissionais que optam por este tipo de atuação profissional.

Os Estados Unidos e Brasil foram colonizados com objetivos bem distintos por parte dos seus governantes. Enquanto os ingleses faziam do novo território uma opção de novas oportunidades e, por este motivo, com uma relação de pertença desde o início, o Brasil era visto de outra forma:

[...] reza a História que o processo de independência americano foi forjado a partir da união das então 13 colônias (mais tarde Estados) para derrotar o Império inglês. E que, realizado este feito, vigorou por muito tempo o espírito de unidade entre as partes que compunham o novo país [...] Formou-se, então, um conceito de civismo ligado menos ao nacionalismo, menos ao patriotismo, e mais em nome da construção coletiva de uma cidade, de uma região, de um país. Algo distinto se deu no Brasil, lugar onde a instabilidade política [...] em muito contribuiu para a ausência da cidadania com características semelhantes às americanas ou de outras nações [...] Para além disso, é de conhecimento geral que a República do Brasil, em fins do século 19, nasceu por iniciativa e liderança do Exército Nacional [...] Assim, acontecimentos como esse contribuíram para a consolidação de um modelo distinto de cidadania (FERNANDES, 2007, p. 7).

No caso do Brasil ainda, a palavra civismo remonta à figura das Forças Armadas, o que, consequentemente, lembra aos brasileiros todos os atos impostos desde as votações indiretas para presidentes da República até o longo período de ditadura militar (1964- 1984). Assim, longe de espelhar a melhor tradução do termo em inglês civic journalism, o

nome jornalismo cívico tem sido usado confusamente com outras expressões como “jornalismo público”, “jornalismo cidadão”, “jornalismo participativo”, “jornalismo de contato com a comunidade” ou “jornalismo de interesse público” para expressar melhor o novo conceito de se fazer o que vem sendo chamado, também, de “o bom jornalismo28”, e não se confundir aqui com o que Cruz (2007, p. 5) chamou de jornalismo do bem, ou seja, um movimento para só se noticiar coisas boas, hábito comum nos veículos de comunicação que trabalham o conceito de responsabilidade social empresarial e publicam as notícias, “em tom de leveza, embaladas pela presença redentora da empresa”.

A verdade é que os Estados Unidos têm conseguido compatibilizar melhor os interesses empresariais dos meios de comunicação com os desejos comunitários oferecendo espaço para o civic journalism em função do seu histórico e porque até hoje é um país que cultiva, especialmente nas pequenas cidades, a vida comunitária. Ao passo que na América Latina, inclusive no Brasil, onde os meios de comunicação têm mais influência na política do que os próprios partidos políticos, mais poder econômico do que muitas empresas, há pouco interesse de se promover a cidadania.

É importante definir agora o conceito de cidadania, palavra-chave para esta modalidade de jornalismo e que será muito utilizada ainda neste trabalho. Soares (2008, p.2) explica que cidadania remonta à Antiguidade quando significava privilégios das categorias sociais dominantes. Nas cidades da Grécia, ela era atributo dos proprietários, mas nunca das mulheres, escravos ou pobres. Entre os romanos, correspondia a vantagens legais da oligarquia. No final da Idade Média e Renascença, era garantia de imunidade para mercadores e outras pessoas protegidas dos senhores feudais, “um conceito destinado a marcar um exclusivismo social”. A partir do século XVIII, com as revoluções americanas e francesas a favor do republicanismo, o termo cidadão adquiriu caráter libertário e ganhou o sentido contemporâneo de “luta por uma cidadania para todos”.

Marshall (1967) apud Soares (ibidem), distingue três momentos da cidadania: a conquista dos direitos civis, no século XVIII; dos direitos políticos, no século XIX e dos direitos sociais, no século XX. Para ele, os direitos civis são: a liberdade individual, o direito de ir e vir, a liberdade de pensamento, de contrato, de propriedade e à justiça. Os direitos políticos são os de votar e ser votado. E os direitos sociais garantem um mínimo de bem-estar e segurança. Todos são provenientes de conquistas históricas.

28Expressão usada por Jan Schaffer, diretora executiva do Pew Center for Civic Journalism, durante o 5º. Congresso

Sendo históricos, há, nas sociedades democráticas, uma permanente busca pela conquista de novos direitos, a partir dos já adquiridos, de modo que, num movimento social imprevisível, os seres humanos vão reinventando a cidadania (SOARES, 2008, p. 3).

Fernandes (2002) apud Soares (ibidem), conclui:

[...] depois do fracasso nas sociedades contemporâneas, de concepções teóricas e de estratégias políticas incapazes de articular a multiplicidade de pedidos por uma vida melhor, a cidadania tornou-se para muitos movimentos sociais um tema central, porta de entrada dos sujeitos no espaço público, no qual apresentam interesses diversos, convocando a sociedade a examinar suas questões, abrindo a discussão, em busca do entendimento e da legitimidade de suas reivindicações de direitos (2008, p.3).

Mas qual é, então, o papel do jornalismo diante da construção da cidadania? Como o civic journalism pode contribuir? Seria ele um modelo melhor do que os outros, tradicionais? Estas indagações se fazem extremamente necessárias em uma pesquisa que deseja determinar se um modelo diferente de jornalismo é capaz de despertar o valor da cidadania nas pessoas.

Concordamos com Soares (2008, p. 4) quando ele afirma que o direito civil à informação é um pressuposto necessário à realização dos direitos políticos. “É por meio da informação que os cidadãos podem fazer escolhas e julgamentos de forma autônoma”. Este autor estende o raciocínio e transporta para os meios de comunicação – públicos e/ou privados - a responsabilidade social de cuidar da cidadania de um povo.

O que presenciamos hoje não é isso. A mídia valoriza a publicidade – que encoraja a mudança do eixo de informação para entretenimento – e age a favor dos anunciantes e muitas vezes contra os cidadãos, numa atitude cada vez mais corporativista. Também trata as causas sociais à distância, privilegiando a classe média, consumidora, em detrimento dos menos favorecidos. Por esta razão, suas pautas, na grande maioria das vezes, atendem às classes média e alta. O marginalizado só é notícia em caso de desgraça ou pelo que é inusitado. Na cobertura política, por exemplo, as notícia são do Executivo e do Legislativo, e pouco se fala dos movimentos sociais, que são expressão não institucionalizadas da política. Os temas sociais são geralmente tangenciados e, quando aparecem na mídia, é por questão pontual, sem um acompanhamento sistemático. A cobertura factual não permite conhecer, por exemplo, as

causas e consequências do problema. Muitas vezes não é possível nem acompanhar o desenrolar dos fatos porque eles são logo substituídos por outros temas .

Estes e outros equívocos praticados no jornalismo mundial é que abriram espaço para esse novo modo de pensar e fazer jornalismo denominado civic journalism. Estava (e continua) aberta a brecha para o fortalecimento do movimento.