As irmandades religiosas negras já existiam em Lisboa e Lagos desde o final do século XV. É necessário notar também que do século VI ao XIV Portugal foi dominada por povos africanos islamizados, denominados Mouros. Em conformidade com o pensamento de Cunha Jr. (2006, p. 4):
A relação entre Africanos e Europeus datam deste período. As guerras eram pelo comércio, mas tinham também significado religioso. O cristianismo era uma religião de fora da Europa, que foi adotada pelos europeus e passou a ser símbolo da unificação dos reinos europeus e da constituição da civilização ocidental. Então, o aprisionamento de africanos e a escravização na Europa foram realizados inicialmente por motivos religiosos.
No Brasil, as irmandades surgem nos primeiros anos da colonização, especialmente as de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário e tornam-se muito importantes na sociedade colonial brasileira. Tinham como objetivo cultuar um determinado santo seguindo
a linha da evangelização. Nestes espaços os negros exerciam uma organização grupal e encontraram formas de manter suas tradições e construir novas identidades. De acordo com Souza (s/d, p. 64):
[...] os africanos, retirados de suas aldeias e do convívio de suas famílias, e que buscavam compor novos laços sociais e formas de relacionamento com a sociedade para a qual haviam sido trazidos à força, viram nas irmandades uma oportunidade de associação da qual poderiam tirar proveito. Assim, as irmandades de ‘homens pretos’, como eram chamadas, foram entidades na qual era permitido que os africanos e afro-descendentes, escravos ou não, se reunissem oficialmente para prestar devoção ao santo escolhido e para desenvolver atividades de ajuda mútua.
Nas irmandades, os escravizados utilizavam o disfarce para inserir elementos da cultura africana. O surgimento dos folguedos de reisados no Brasil está diretamente ligado às cerimônias realizadas nas irmandades, das celebrações de eleição do Rei de Congo, enquanto um meio de reterritorialização das formas ancestrais da organização social e ritual africana. Segundo Lopes (2006, p. 191):
[...] essas festas de coroação, com música e dança, seriam não só uma recriação das celebrações que marcavam as eleições dos reis na África como uma sobrevivência do costume dos reis bantos de, com séqüito aparatoso, fizerem suas excursões e ‘embaixadas’ entoando cânticos e executando danças festivas.
Para esse autor, “[...] uma Congada, um Congado, ou um Baile de Congos é uma dança dramática dos Bantos afro-brasileiros conforme uma usança imemorial dos bantos africanos” (id. ibid., p. 192). Ele se contrapõe ao folclorista Alceu Maynard de Araújo quando este nega a origem africana da Congada, defendendo ser esta “uma reminiscência ‘Chanson de Roland’” que demonstra os autos escritos pelos padres católicos utilizados como instrumento de catequese e controle dos escravos.
Lopes destaca que apesar da estrutura narrativa de algumas peças analisadas por Maynard evidenciar claramente a origem européia, citando a presença de Carlos Magno, imperador dos francos, como personagem, conclui que “[...] a estrutura africana desses folguedos é anterior à sua transformação em autos, tendo os catequistas apenas inserido neles esses textos evocativos da Idade Média européia” (ibidem., p. 193).
Dessa forma, a congada não é nem sobrevivência de tradições africanas nem aceitação passiva das instituições dos grupos dominantes, e sim prova da capacidade das comunidades negras de criar novas identidades e atribuir significados coerentes com as suas culturas de origem às instituições da sociedade colonial escravista (SOUZA, op. cit, p. 67).
O fato de ter faltado na sua origem uma estrutura que os aglutinassem em torno de um espetáculo único permitiu que tivéssemos uma variedade de reisados como a que temos hoje:
Quando tomou emprestado a corte de reis negros da Congada para estruturar a seqüência de seus números, o Reisado apareceu sob a forma de reis de Congo. Quando estruturou-se como uma família sertaneja, tomou o nome de Reis de Couro ou Reis de Careta. No caso de ter como base a realização de um baile medieval, com suas contradanças de engenhosas coreografias, o reisado denominou-se Reis de Bailes (BARROSO, 1996, p. 42).
É importante considerar também que fez parte da colonização brasileira a imposição religiosa através da ação da igreja católica. Ao padre, cabia a tarefa de cuidar da cristianização dos negros e estava diretamente ligado aos senhores de engenho, quando não era filho, estava a seu serviço, inclusive recebendo remuneração. Desta forma, é que se dava a perseguição e proibição às manifestações culturais negras, a partir da justificativa que estas religavam os escravos às suas antigas nações, além de incentivar os bárbaros e fazê-los afastar-se do trabalho (id. ibid.). A partir da interdição dos deuses africanos, proibida pelo sistema escravocrata, os negros passam a devotar os santos cristãos que se tornam para eles, transmissores da religiosidade africana.
No Brasil, não se sabe exatamente onde se originou o Reisado, mas há a hipótese de este ter surgido na zona açucareira – onde havia uma grande aglomeração de populações negras o que possibilitava o florescimento de traços culturais próprios – e, posteriormente, ter emigrado para o sertão, onde se sedimentou. Barroso (op. cit.), registra um folguedo de “reis” num engenho no início do século XVIII e se reporta a Mello Morais nos informando que havia coroações de reis negros no Rio de Janeiro, a partir do ano de 1748 e a Antonil dando notícias da existência de artes negras nos engenhos de cana.
Martins (1997), cita Cascudo quando este autor assinala a presença de um enredo particular performados pelos Congados, os autos e as embaixadas, no século XIX. Estes apresentavam como tema a memória e os feitos da rainha negra angolana Njinga Nbandi. A palavra reisados passou a denominar, de acordo com a concepção de Barroso (op. cit., p. 41): “[...] pequenos grupos de brincantes que à semelhança dos Ranchos de animais reuniam-se em torno de um personagem (um animal, no caso dos ranchos, para apresentar espetáculos cantados, dançados e dramatizados, constituídos de um único episódio)”.