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Antes de discutirmos a questão do saber do trabalhador é pertinente deixarmos claro que apesar de tratarmos desse, de forma sucinta e objetiva, não o faremos “[...] como fazem certos psicólogos e pesquisadores [...] da área[...], como se tratasse de uma categoria autônoma e separada das outras realidades sociais, organizacionais e humanas nas quais os [...] homens se encontram mergulhados” (TARDIF, 2008, p. 11). Ao tratarmos desse tipo de saber, o faremos considerando que

[...] o saber do trabalhador não é um saber sobre o trabalho, mas realmente do trabalho, com o qual ele faz corpo de acordo com formas _______________

51 Compreendemos, ainda que empiricamente, que além do saber tácito, a formação da identidade

pescadora dos jovens da Colônia de Pescadores Artesanais Z-16 de Cametá-Pa também se forma com outros saberes como por exemplo; o saber pesqueiro, o saber cultural, o saber artesanal, etc.

múltiplas de simbolização dos gestos e das palavras necessárias à realização concreta do trabalho. Estabelecer a distinção entre saber e o trabalho é uma operação analítica de pesquisadores ou de engenheiros do trabalho, mas, para um grande número de ofícios e profissões, essa distinção não é tão clara nem tão fácil no processo dinâmico de trabalho. (Idem, p. 17, grifos do autor).

Assim, a perspectiva por nós assumida para tratar do saber do trabalhador é aquela que o compreende como um tipo de saber que é “[...] plural e compõe-se de vários saberes proveniente de diferentes fontes” (TARDIF, LESSAR, LAHAYE, 1991

apud ZAIDAN, 2003, p. 88).

A nossa escolha por assumir o saber do trabalhador a partir dessa perspectiva se justifica, entre outros, por entendermos que ao tratarmos desse tipo de saber sob a ótica da pluralidade, ampliaremos o nosso horizonte de compreensão sobre esse saber, uma vez que não estaremos nos limitando a entendê-lo restrito apenas as suas particularidades e especificidades, mas sim enquanto resultado de múltiplos saberes que no movimento prático cotidiano dos trabalhadores, amalgamam-se estruturando- se e formando o saber desses sujeitos.

Nesse sentido, são importantes as afirmações que fazem Franzoi e Fischer (2015, p. 149) quando advogam que por saber do trabalhador entendem “[...] aquele que é produzido, mobilizado e modificado em situação de trabalho”. Consideramos as afirmações de Franzoi e Fischer (2015) importantes por compreender esse tipo de saber, não como o resultado de uma atividade da qual o trabalhador está totalmente alienado, exercendo um papel meramente mecânico, mas sim, como fruto de um fazer-aprender, que estruturado a partir de sua prática, faz brotar nesse sujeito aprendizados e macetes específicos que não são possíveis de serem adquiridos fora de sua prática, quebrando assim o paradigma de que esse saber é sempre fruto de uma formação/qualificação anteriormente adquirida à prática da atividade do trabalho. Com efeito, o saber do trabalhador nem sempre é fruto de uma formação/qualificação anteriormente adquirida à prática da atividade do trabalho, mas é sim, o resultado de um processo em construção que se dá nas diversas esferas da vida social, tais quais, no cotidiano do trabalho, em reuniões de trabalhadores, nas reuniões sindicais, nos diálogos com seus pares, etc.

Na realidade, no âmbito dos ofícios e profissões, não creio que se possa falar de saber dos trabalhadores sem relacioná-lo com os

condicionantes e com o contexto de trabalho: o saber do trabalho é sempre o saber de alguém que trabalha alguma coisa no intuito de realizar um objeto qualquer. Além disso, [esse saber], não é uma coisa qualquer que flutua no espaço: o saber dos trabalhadores é o saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com as suas experiências de vida e com as suas histórias profissionais, com as suas relações com os [...] [colegas de trabalho] [...], etc (TARDIF, 2008, p. 11).

Se partimos do princípio de que o “saber é sempre o saber de alguém que trabalha alguma coisa no intuito de realizar um objeto qualquer” consideramos que ao se tratar dos trabalhadores o saber desses sujeitos, tem, no trabalho por eles executado, origem, desenvolvimento e aplicação. Nesse sentido, o trabalho executado vai assumindo a centralidade na constituição desse tipo de saber. Contudo, algumas questões precisam ser levadas em consideração quando a questão é o saber do trabalhador.

A primeira consideração que precisamos fazer é que: a) o saber do trabalhador, apesar de estar relacionado com algumas finalidades pré-estabelecidas à prática desses sujeitos e, portanto, estáticas, como por exemplo; executar uma atividade pré- estabelecida, gerar um produto que seja comercializável no mercado de trabalho, etc., não nasce e se desenvolve única e exclusivamente a partir dessas finalidades. Assim, apesar de tais finalidades estarem presentes na prática cotidiana dos trabalhadores, os saberes que dessa (das práticas cotidianas) nascem, estão para além de tais finalidades, uma vez que o saber que aqui compreendemos como do trabalhador é “[...] evolutivo [...] [e, portanto, não estático] [...] porque pessoal/relacional contextual, podendo modifica-se com o tempo e a experiência [do trabalhador], por tanto provisório” (ZAIDAN, 2003, p. 84).

Já uma segunda consideração que também precisamos fazer é aquela que se pauta na afirmação de que: b) o saber do trabalhador deve ser adquirido antes do executar do trabalho. Para compreendermos essa consideração devemos primeiro esclarecer que há uma certa confusão na diferenciação entre saberes e conhecimentos. Para muitos, os termos conhecimento e saber são usados sem distinção de significado (FIORIENTINI; SOUZA E MELO 1998), isso faz com que se confunda o saber do trabalhador (um tipo de saber que é desenvolvido no trabalho), com o conhecimento que é adquirido pelos trabalhadores nos cursos de formação e qualificação, que se destinam para o trabalho.

Arroyo (2003) ao fazer uma discussão sobre trabalho, afirma que “[...] o próprio trabalho tem que ser visto como produtor de saberes” (p. 52), pois, é pelo trabalho que se registra um momento de constituição da humanidade do homem, porque lhe permite o exercício da engenhosidade, da criatividade, do planejamento e da execução do seu querer, o que, em termos de saber do trabalhador, registra-se como momento de criação, pois requestiona e recombina saberes “[...] reproduzindo em permanência novas tarefas para o conhecimento” (SCHWARTZ, 2003, p. 23).

Nesse caso então, a segunda consideração por nós aqui levantada que afirma que o saber do trabalhador deve ser adquirido antes da prática efetiva do trabalho, cai por terra, uma vez que não dá para tratarmos desse tipo de saber ou de qualquer outra produção humana deixando de lado a dimensão trabalho que segundo Rodrigues (2012b, p. 54) é o que gera “[...] tantos saberes quantas forem as necessidades demandadas pelos homens, permitindo-lhes o exercício de uma práxis sempre aberta ao novo [...]”.

Assim, ao discutirmos saber do trabalhador, além de entendermos que no geral, esse é o resultado plural de um conjunto de relações estabelecidos entre os trabalhadores e as diversas esferas da vida social na qual estão inseridos, também compreendemos, no especifico, que esse apresenta suas particularidades como por exemplo; entre os vários tipos de saberes é aquele que é pensado, planejado, formulado e reformulado a partir de um executar de uma prática especifica; é um saber que apesar de ser constituído a partir das diversas esferas da vida humana social, tem suas influências maiores nas dimensões sociais que estão relacionadas ao contexto do trabalho; é um saber que apesar de não ser reconhecido e valorizado como cientifico nasce a partir de uma atividade própria da espécie humana, o trabalho, pois, diferente dos animais, o homem é o único que consegue exercer o trabalho (MARX, 2008), etc.

Em suma, para se compreender o saber do trabalhador de maneira crítica e reflexiva, reiteramos que em primeiro lugar tem que se partir do princípio de que esse tipo de saber “[...] não existe de forma autônoma, pronto e acabado, mas é síntese das relações sociais que os homens estabelecem na sua prática produtiva em detrimento do momento histórico” (KUENZER, 1989, p. 183), e em segundo que o saber do trabalhador “[...] é plural compósito, heterogêneo porque envolve, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e um saber-fazer bastante diversos,

provenientes de fontes variadas e, provavelmente, de natureza diferente” (TARDIF, 2008, p. 18).

Portanto, esse tipo de saber é o resultado de múltiplas dimensões que determinadas pelo trabalho humano e o contexto histórico social dos sujeitos que o executam, denotam nesses a construção de habilidades, valores, atitudes e posturas, ou seja, saberes que voltados para suas práticas vão possibilitando-lhes articularem estratégias que ao mesmo tempo que lhes permitem executar seus trabalhos de forma exitosa, lhes possibilita também aprenderem novos caminhos, macetes e técnicas que no jogo prático do aprender-fazendo vai lhes permitindo potencializar suas atividades melhorando assim essas.