PART IV - CONCLUSION
4.1 Conclusion
Figura 12 – Instrumentos guardados durante a realização da missa.
Neste item, estou chamando de música, especificamente, as construções sonoras presentes no congado do Rio das Mortes. A música que é executada por este congado é transmitida através de gerações por tradição oral, o que faz com que toda vez em que é executada, ela seja interpretada de uma forma diferente, em comparação com os padrões mais fixos, orientados por uma partitura. Apesar de os elementos inerentes àquelas músicas permanecerem os mesmos, como, por exemplo, os acentos rítmicos, a harmonia e, de uma forma um pouco mais flexível, a melodia, muitos elementos contribuem para que a audição desta música seja diferente, dependendo do dia, da situação e dos componentes que a executam.
Um dos desafios de uma corrente de pesquisa etnomusicológica é justamente a descrição em palavras escritas e nas notações tradicionais da música européia, as situações e saberes que se constituíram de maneira ágrafa. O trabalho etnográfico seria, portanto, uma forma de entender um conhecimento fora dos parâmetros da academia e traçar estratégias para um diálogo possível. Uma descrição que representa bem a
tradição estudada e que seja “entendida por um leitor da tradição cultural do investigador” (Seeger,1988, p. 173 citado por Lucas, 2002,p.232).
O trabalho de transcrição para o sistema de notação pode ser uma estratégia de análise e detalhamento musical. O pesquisador tem a chance de entrar em contato com detalhes da execução musical, ampliando o entendimento dos sons estudados, bem como do próprio funcionamento do sistema europeu de notação.
No caso da presente pesquisa, tanto o pesquisador quanto o grupo pesquisado compartilham de alguns códigos culturais relativos ao conhecimento musical do sistema europeu, de um modo mais ou menos intenso, lembrando que alguns integrantes do congado fazem parte da banda Lira do Oriente Santa Cecília, onde a execução musical é realizada através da leitura de partituras. Este saber comum, apesar de não ser central na música do congado, possibilitou a abertura de diálogos proveitosos, no processo em que a música ganhava uma nova maneira de ser descrita, com a ajuda dos próprios executantes.
A transcrição musical se mostra como uma importante ferramenta para o etnomusicólogo, assim como as gravações em vídeos e a própria imersão em campo. No entanto, lidamos com inúmeros problemas referentes a este tipo de escrita musical, assim como acontece na música popular de caráter comercial, em que percebe-se um distanciamento entre a música escrita e a executada.
Glaura Lucas (2002), em seu trabalho etnográfico, percebeu que, ao transcrever os ritmos das caixas do congado pesquisado, adequava sua percepção auditiva aos padrões de divisões temporais da notação ocidental. Ela procurou, então, outra forma de representar as durações sonoras, através de um programa de computador específico. Os resultados foram reveladores no sentido de demonstrar que as células rítmicas não obedeciam às divisões exatas indicadas pela notação européia, apresentando uma tendência de comportamento culturalmente estabelecida. O exemplo abaixo deixa claro esta diferença:
Refletindo sobre o exemplo citado acima, as durações estabelecidas na notação ocidental dividem o tempo em frações iguais. Na música estudada pela etnomusicóloga Glaura Lucas, ela encontrou este e outros exemplos de durações que não são exatamente divididas na forma proposta pela notação européia, a qual não prevê durações assimétricas, o que muitas vezes é encontrado na música popular e tradicional como o padrão.
A música do congado do Rio das Mortes pode ser percebida em compasso quaternário simples, com a subdivisão binária. A transcrição, no caso, não se distancia tanto das divisões da notação européia, porém, como no caso do jazz e do choro, a leitura dos ritmos deve ser relativizada, prevendo alterações ou ajustes que são determinados e compartilhados culturalmente como a demonstrada por Glaura Lucas. Não utilizo aqui programas de computador, as transcrições foram baseadas na audição de gravações, conversa com os músicos e na contribuição de Vladimir Cerqueira75 na transcrição das melodias.
Algumas reflexões sobre o processo de transcrição se mostram necessárias. Como se trata de uma tradição musical oral, a transcrição funciona como um retrato (Lucas, 2002) daquela execução específica. As músicas não têm modelos cristalizados e nem formas rígidas. Elas seguem regras para começar e terminar de acordo com o capitão regente, mas a sua duração, bem como as variações, que acontecem de uma maneira particular a cada execução, dependem de vários fatores como o número de componentes e de quem está tocando determinado instrumento, em qual momento a música está sendo tocada, se é um ensaio, se estão na rua ou dentro da Igreja.
Segundo o integrante Robinho: “De acordo com cada momento assim é que vai encaixando as músicas (...). Vai repetindo, é de acordo com a distância também, de acordo com o lugar que ta vai caminhando e repetindo até chegar lá”76.
A música do congado nos mostra como há uma transculturação entre elementos africanos e europeus (Lucas, 2002). No Rio das Mortes, os elementos musicais africanos se traduzem na forma ritualizada como a música acontece, de maneira circular, onde a duração da música e suas variações vão acontecer de acordo com o momento e o sentido de tal execução. Os elementos europeus se fazem perceber na utilização de instrumentos harmônicos, na preocupação com a afinação dos mesmos, segundo os moldes da música tonal, na relação de afinação do canto, na referência ao tom dado pelo acordeom que, pela tradição do grupo, é sempre o sol maior.
Procurei, no meu trabalho, fazer transcrições de elementos comuns às execuções. Saber, com a ajuda de tais elementos e muita observação, os denominadores comuns, os elementos musicais que fazem com que este seja reconhecido como o congado do Rio das Mortes.