“O mito não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira como a profere” (BARTHES, 2012, p. 199). O que nos leva a compreender que o que estabelece uma existência mitológica não é o Seu Lunga e o seu comportamento, mas a forma como ele é construído em linguagem. A mídia em geral tem um peso muito forte nessa criação. Em especial o folheto, onde Seu Lunga é encontrado com maior frequência, onde tem mais referências.
A existência de Seu Lunga ganha notoriedade quando é registrada e difundida nas formas oral e impressa, quando o real é transformado em discurso. Para Barthes (2012), o mito é uma mensagem, formada por representações, não podendo surgir da natureza das coisas. Isso nos ajuda, mais uma vez, a defender nosso posicionamento metodológico no âmbito do discurso, lugar onde Seu Lunga se constitui como personagem, mas também como mito.
O mito é uma relação de significação estabelecida entre forma, sentido e o conceito, ou seja, as relações entre significante e significado, segundo a proposta de análise semiológica estruturalista de Barthes (2012). Este não será o nosso caminho principal, mas através dele podemos compreender e esta constituição de Seu Lunga como um mito originado na linguagem.
Por esta perspectiva, temos dois polos onde Seu Lunga se constitui como mito: a linguagem-objeto, que constitui o sistema onde o mito se desenvolve, e o segundo é o próprio mito, que constitui uma espécie de metalinguagem, que se faz a partir da linguagem-objeto. São respectivamente os elementos, símbolos, comportamentos de Seu Joaquim que se constituem como linguagem para a composição do mito, que reflete exatamente esses símbolos linguísticos constitutivos nos versos dos folhetos de cordel. O “conceito” ao qual
Barthes (2012) se refere é o significado da fala, que está ancorado na linguagem-objeto, estabelecendo relações de causa e efeito, neste caso referindo-se ao campo ontológico de Seu Joaquim.
O mito de Seu Lunga reside na combinação dos elementos textuais para a composição de um personagem cômico, nas palavras escolhidas e nos sentidos que elas produzem. O discurso produzido sobre Seu Lunga é que faz dele um personagem e o sentido deste discurso é que faz dele um mito. Está na forma como a sociedade se apropria e o reproduz, naturalizando-o. Segundo Barthes (2012), a característica fundamental do conceito místico está justamente em sua apropriação.
A significação de Seu Lunga pode ser constituída por diversos significantes, no caso, por muitos textos, por autores diversos que, de formas diferentes, reforçam um mesmo conceito, um mesmo mito, que é o do comportamento de Seu Lunga. Barthes (2012) considera o mito como um valor, que não é sancionado por uma ‘verdade’. Assim, o conceito de Seu Lunga não precisa de acontecimentos concretos na realidade cotidiana e, por isso, diante de narrativas sobre atos de grosseria, é comum que se atribua a ação a um Seu Lunga que não tem imagem, que não tem referente no real, mas que se constitui como um novo significante dentro de uma narrativa, cuja significação, ou seja, o mito, já está estabelecido.
Pois essa fala interpelativa é simultaneamente uma fala petrificada: no momento em que me atinge, suspende-se, gira sobre si própria e recupera uma generalidade: fica transpassada, pura, inocente. A apropriação do conceito é assim, de repente, afastada pela literalidade do sentido físico e judiciário do termo. (BARTHES, 2012, p. 217)
Esta naturalização consiste nas formas discursivas que saem dos folhetos e retornam ao cotidiano, de onde partiram. As pessoas grosseiras apelidam-se de Seu Lunga. Falar em Seu Lunga é uma referência de um comportamento que, de tão grosseiro, alcança o cômico. Essa combinação que produz um significado cristalizado é o mito de Seu Lunga. Um homem cujas histórias todas se referem a um mesmo enredo: perguntas tolas e respostas agressivas.
Ainda para Barthes (2012), a fala do mito constitui sempre uma analogia, ou seja, nunca é completamente arbitrária. No caso de Seu Lunga, a analogia é feita com o comportamento de Seu Joaquim, que é também o conceito deste mito. É o que inspira as falas que o compõem e que acaba servindo como uma espécie de justificativa para a construção dessas falas. E o mito, segundo Barthes (2012) “é uma fala excessivamente justificada” (p.221).
Rosenfeld (2011) discute o campo ontológico da personagem, o que é pertinente quando pensamos em Seu Lunga, cuja existência é transitória e sua representação no real levanta questões éticas. Os poetas autores de folhetos sobre Seu Lunga entrevistados nesta
pesquisa consideram a imaginação/criatividade como pontos de partida para a composição dos versos e admitem inspiração nas ações de Seu Joaquim que, chamado de Seu Lunga, é o mesmo homem ilustrado nos folhetos em forma de poesia. Seu Lunga é uma invenção baseada na realidade cotidiana. Atribui-se características a ele, inspiradas em Seu Joaquim, e ações que podem ter origem tanto em outros indivíduos quanto na criatividade dos poetas.
Temos um personagem que é transitório e cuja criação, no sentido de autoria primeira, não pode ser delimitada. Não sabemos se o Seu Lunga que hoje circula em cordel é criação do próprio Seu Joaquim sobre si mesmo sob a forma de encenação, ou se ele absorve e desenvolve determinados comportamentos grosseiros a partir das construções discursivas que lhe são impostas oralmente ou impressas.
Seu Lunga está constituído em imaginários e na realidade cotidiana, e podemos identificá-lo nos folhetos, que materializam esse imaginário criativo. Considerá-lo um personagem está relacionado com a forma narrativa que o constitui, muito mais do que com representações ontológicas. O termo “Seu Lunga” passa a ser um signo. É denotativo por se referir a mais de um significado (o personagem, o homem real, o adjetivo de grosseria etc.), e assim possui referentes em diferentes campos de significação.
Por isso, não consideramos que o personagem esteja relacionado apenas ao campo da ficção. As formas narrativas, que compreendemos como construções de realidades em variados campos de significação, possuem personagens que conduzem as ações e possuem características próprias, criadas ou representadas pelos autores. Compreendendo que a partir de discursos, realidades são construídas, conforme tratamos no capítulo 03, Seu Lunga dos folhetos é uma construção, portanto, personagem protagonista das narrativas dos folhetos aqui trabalhados. Além do discurso sobre Seu Lunga, os discursos atribuídos a ele são constitutivos de suas características, que se configuram como falas cômicas e que constituem campos de significação da realidade.
Pensando ainda na representatividade que Seu Joaquim adquire na realidade cotidiana, com características cristalizadas que sorrateiramente se estabelecem no imaginário coletivo dá a ele outra possibilidade de constituir-se como personagem. Neste caso, podemos compreender personagem como uma figura de destaque, representativa de um lugar, de um grupo social ou mesmo referente ao imaginário e que remete àquilo que representa assim que mencionado.
No caso de Seu Lunga, ele pode remeter ao Nordeste, mais especificamente ao Cariri Cearense, e destacar-se como personagem local, integrante da memória, da história social. Seu Joaquim faz parte do cotidiano do povo do Cariri e que frequenta o centro da cidade de
Juazeiro do Norte. Suas histórias são crônicas da cidade e fazem com que, mais uma vez, o personagem do cotidiano transite na interface entre a realidade vivida e a realidade construída em narrativa, seja dos discursos orais, sejam impressos em cordel, seja na televisão ou em revistas. Do personagem real ao personagem midiatizado.