Com vista a responder aos objetivos práticos delineados e à resolução de problemas organizacionais concretos, foi utilizado um design de investigação-ação planeado, com a utilização de dados de natureza qualitativa provenientes da observação, da análise documental e da realização de diversas entrevistas semiestruturadas. A investigação-ação tem como finalidade dar resposta a questões práticas de investigação com o objetivo de transformar a realidade ou melhorar a ação (Simões, 1990). Segundo Simões (1990) este tipo de investigação cumpre três objetivos: 1) a produção de conhecimentos, 2) a modificação da realidade e 3) a transformação dos seus atores, onde é visível uma ligação contínua e interativa entre as suas diferentes fases, isto é planificação, ação, observação e reflexão. O mesmo autor prossegue argumentando que a investigação-ação se carateriza pelo envolvimento de outros atores, para além do investigador, como o sejam os próprios intervenientes das instituições onde é realizada a mesma. Por este motivo é muitas vezes designada de investigação-ação participante (Simões, 1990). Por sua vez e, ainda que numa perspetiva holística de investigação, isto é, na abordagem estratégica do fenómeno como um todo, a opção pela metodologia qualitativa prende-se com a necessidade de compreender a complexidade dos dados em detalhe e profundidade. Segundo Patton (2002) os dados de natureza qualitativa são mais longos, mais detalhados e com mais variáveis, comparativamente com os dados de
28 natureza quantitativa. Em consonância com o referido, as técnicas de recolha de dados que melhor cumprem este propósito e que foram usadas consistem: i) na entrevista semiestruturada, ii) na observação direta e a iii) na análise documental (Patton, 2002).
A entrevista tem como propósito a formulação de questões diretas acerca da experiência, conhecimentos, sentimentos ou opiniões dos indivíduos acerca de determinado tema. Na perspetiva de Patton (2002) o objetivo das questões formuladas, através da entrevista semiestruturada, residem na compreensão do fenómeno tal como é visto pelo respondente sem ser pré-definido ou estabelecido à priori. Como limitações encontramos o possível viés na resposta, de acordo com a perspetiva pessoal e individual, estados emocionais do respondente, ou respostas socialmente desejáveis, de acordo com políticas, normas internas ou interesses individuais dos respondentes.
A observação consiste na descrição detalhada das atividades, comportamentos ou ações num contexto organizacional e de interações interpessoais específicas (Patton, 2002). Neste âmbito, a observação participante e direta do fenómeno, embora não sendo possível em todas as situações, possibilita a compreensão completa do mesmo já que permite a recolha de dados para além daquilo que é dito através do discurso dos respondentes. Como principais limitações da observação identificam-se a dificuldade em observar fenómenos ou comportamentos não exteriorizáveis e a alteração dos comportamentos ou fenómenos observados de formas não conhecidas, fruto da perceção ou do conhecimento dos indivíduos de que estão a ser observados (Patton, 2002).
Por último, a análise documental centra-se na pesquisa e recolha de dados em suporte físico, muitas vezes escritos, e que se referem à caraterização de determinado assunto, tema ou contexto organizacional, como por exemplo objetivos, planos, fluxogramas, decisões e interfaces (Patton, 2002). Este tipo de fonte de dados providencia informações acerca de dimensões, fatores ou elementos que não podem ser observados e que de outra forma o investigador não teria conhecimento (Patton, 2002). Como limitações desta técnica salientam-se as eventuais faltas de precisão ou atualização de dados, informações ou materiais recolhidos (Patton, 2002).
Para ultrapassar as possíveis limitações quanto à fidelidade e validade dos dados e métodos de análise qualitativa Webb, Campbell, Schwartz, e Sechrest (1966, cit. por Duarte, 2009) referem que os métodos de “triangulação” dos dados, ou seja, a obtenção e análise de dados através de diferentes fontes e estratégias permite melhorar a validade dos resultados. Este método possibilita uma maior consistência nas informações recolhidas e nas
29 interpretações concebidas. Em suma, a abordagem teórica com enfoque no pragmatismo e inquérito qualitativo permite responder a questões como: quais as implicações práticas sobre determinado assunto ou tema? ou como e porquê elas podem ser úteis em determinado contexto? (Patton, 2002).
Desta forma e, para responder às questões: a) Como desenvolver um Programa de Análise e Descrição de Funções?, b) Quais os seus contributos para a identificação de competências e c) Quais os contributos do programa e da identificação de competências para a gestão estratégica de recursos humanos? o presente trabalho situa-se a um nível de profundidade descritivo já que, por um lado, procura descrever e compreender os fenómenos em causa, e por outro, procura resolver problemas concretos e particulares. Para o efeito, a análise documental e a observação foram métodos de recolha de dados essenciais à compreensão do contexto do estágio e ao aprofundamento dos pedidos da organização, enquanto as entrevistas semiestruturadas foram o meio fundamental de recolha de informação sobre o trabalho, as funções e as competências da Empresa. Dada a profusão de informação daí resultante, as entrevistas deram lugar a descritivos funcionais que foram revistos, comparados e posteriormente sistematizados. A análise de conteúdo, segundo Bardin (2009) pode integrar também uma análise mais quantitativa. Por exemplo, enquanto a análise qualitativa procura identificar a presença ou ausência de determinadas dimensões ou categorias do discurso, a análise quantitativa inclui a análise da frequência de diferentes categorias. Neste caso concreto, a análise de conteúdo qualitativa foi particularmente útil na identificação de competências, enquanto a análise quantitativa permitiu quantificar a frequência em que as competências foram mencionadas, por funções e grupos funcionais, refletindo a sua importância relativa.