Neste capítulo, é descrito brevemente o percurso metodológico de geração de dados da investigação sobre publicidade infantil, na pesquisa aqui proposta. Na primeira seção, desenvolvo uma discussão sobre a contribuição metodológica da Análise de Discurso Crítica. Na seção seguinte, apresento a pesquisa qualitativa, adotada para o percurso investigativo, e os objetivos que delineiam esta investigação. A terceira seção tece considerações sobre a abordagem etnográfica, que inspirou as escolhas dos procedimentos geração de dados. E por fim, são esclarecidas as estratégias adotadas para a constituição do corpus de análise.
3.1ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA E METODOLOGIA
Fairclough (2009) sustenta que a metodologia deve ser compreendida em sua relação dialética com a teoria, em sua transdisciplinaridade social, uma vez que ela é o processo teórico em que os métodos são selecionados de acordo com o objeto de pesquisa que é construído teoricamente. Nesse sentido, o autor reforça que a Análise de Discurso Crítica (ADC) é associada a um método geral e a métodos específicos de pesquisa originados de um processo teórico de construção do objeto.
A respeito da relação dialética entre teoria e método em ADC, Wodak e Meyer (2009) ilustram, a seguir, como se dá a articulação entre teoria, operacionalização e interpretação dos discursos/textos. Os autores destacam que há uma relação cíclica na junção entre: a seleção de conceitos teóricos e relações; os procedimentos e instrumentos de coleta e geração de dados; o processo de seleção de informações e o exame de suposições.
Figura 3 - Pesquisa empírica como um processo circular.
A ADC é, portanto, uma “abordagem teórico-metodológica para o estudo da linguagem nas sociedades contemporâneas” (RESENDE & RAMALHO, 2006, p.7). Trata-se de abordagem de análise textualmente orientada, e conforme destaca Wodak (2008), os métodos de análise da ADC estão pautadas no texto em contexto.
Van Dijk (2008, p. 116) destaca que a ADC ocupa-se por compreender “o modo como as estruturas específicas do discurso são organizadas para reproduzir a dominação social”, a partir dos contextos e gêneros discursivos envolvidos. Assim, consideram-se dois níveis de análise: o macronível que compreende questões relacionadas a poder, dominação e a desigualdade social; e o micronível que consiste na análise do uso da linguagem, o discurso, a interação verbal e a comunicação, verificados pela realização textual.
Nessa perspectiva, os textos são eventos sociais e constituem uma dimensão do discurso (FAIRCLOUGH, 2001). O texto é a unidade mais específica de realização do discurso, e os textos, por sua vez, realizam-se em gêneros (WODAK, 2008). Assim, para a análise do discurso da dominação masculina, podem-se, por exemplo analisar diversos textos e gêneros, como debates na TV, telenovelas e revistas.
As pesquisas em ADC, cujo olhar debruça-se sobre os aspectos relacionados a poder e dominação, têm se instaurado em alguns campos de atuação, como o político e o midiático. O discurso da mídia tem sido inspiração para diversos estudos críticos na área. Esta pesquisa, portanto, instaura-se no campo midiático, na análise dos olhares de mães e pais sobre o consumo da publicidade destinada a crianças. O foco na perspectiva de mães e pais justifica- se pela escassez de pesquisas voltadas para os efeitos da publicidade infantil vivenciados por eles. Assim, são contempladas entrevistas semiestruturadas realizadas a vinte mães e pais, além das práticas sociais relacionadas às instâncias de socialização da criança, geradas por meio de observação e notas de campo.
Fairclough (2009; 2010) propõe quatro etapas para organização do processo investigativo em ADC. A primeira fase consiste na focalização de um desvio social48, em seu caráter semiótico. O autor prefere utilizar o termo “desvio social” em lugar de “problema social” para referir-se a aspectos do sistema que são prejudiciais às pessoas. Ambos os termos trazem pressuposta uma noção negativa relacionada ao objeto de análise e sua relação com a sociedade. Utilizo aqui o termo “desvio social” para localizar os processos de investigação dessa análise, dentro da perspectiva metodológica da ADC. Considero, no entanto, que o olhar
sobre o objeto de análise, neste caso, a publicidade infantil, deve atentar, em uma perspectiva crítica, para não assumir postura previamente negativa ou positiva.
A segunda etapa citada por Fairclough (2010) é identificar os obstáculos relacionados
ao desvio social. Esse aspecto relaciona-se ao entendimento da organização do desvio social,
como forma de compreensão estrutural, e às condições que o impedem de ser identificado. O terceiro estágio da organização da pesquisa é considerar se as ordens sociais precisam do
desvio social. Nesse tópico, analisa-se se o desvio social contribui ou não para a manutenção
de relações de dominação e poder e se pode ou não sofrer mudanças. A última etapa proposta consiste em identificar possibilidades de superação dos obstáculos do desvio social.
Com base na adaptação proposta por Castilho (2013) em relação às etapas de organização da pesquisa apresentadas por Fairclough (op.cit), exponho a seguir síntese do percurso analítico aqui desenvolvido e sua relação com a organização dos capítulos.
Etapas da pesquisa Ações no percurso da pesquisa Capítulo
1. Compreensão do “desvio social” e de sua conjuntura
- Práticas do cotidiano acadêmico: leituras de pesquisas relacionadas à publicidade infantil.
- Compreensão da constituição histórica do fenômeno.
- Identificação dos contextos sócio-históricos do objeto de análise.
- Ajuste do olhar teórico e perspectivas de análise.
Capítulos 1 e 2
2. Geração dos dados de pesquisa
Geração dos dados a partir de:
- Observação nos intervalos das escolas. - Anotações de campo.
- Realização de entrevistas semiestruturadas a pais e mães.
Capítulos 3, 4 e 5.
3. Análise das práticas sociais
- Análise das práticas sociais relacionadas ao consumo da publicidade e a instâncias de socialização da criança: a escola e a família.
- Compreensão do contexto escolar: por meio das observações e notas de campo.
- Reflexão sobre os hábitos familiares: por meio da observação, notas de campo e análise das questões contextuais da entrevista semiestruturada.