“O Anelka tem um talento especial. “ (Valdano, 2001: 43)
“Um grande talento se não for estimulado perde-se claramente (…) Há o inato e depois a potencialização do inato, digamos que a melhoria gradual e a sua descoberta. Porque esse inato, esse talento também terá que se descobrir (…) e só se vai descobrir depois de se passar pelas situações”. (Carvalhal, 2006 pp. XXXII)
Pele, Cruyff, Maradona, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Lampard, Raul, Figo, Messi, Cristiano Ronaldo, e outros, são jogadores cujo reconhecimento da qualidade do seu desempenho no Futebol é inquestionável. Muitos são aqueles que os consideram mesmo verdadeiros milagres genéticos, jogadores dotados de “dons”, isto é, jogadores que nasceram para jogar Futebol (Fonseca, 2006).
Mas terá mesmo que ser assim? Será que a supremacia das suas prestações resultou de um processo baseado em pressupostos biológicos (talentos inatos) ou, pelo contrário, deveu-se à qualidade e à quantidade de actividade na área específica, ou seja, o Futebol? Será, então, que estes jogadores “nasceram” ou “formaram-se”?
Segundo Zagallo (2006), o Talento é um dom natural e na ausência deste não adianta forçar uma vez que não vão estar reunidas as condições para a criança se tornar um Talento.
Também Howe, Davidson & Sloboda (1998) encontram-se na mesma linha de pensamento que Zagallo, uma vez que sugerem que a existência de indivíduos talentosos, numa certa actividade, depende da presença ou ausência de atributos que têm uma componente biológica inata, denominados por “dons”, “talentos” ou “aptidões naturais”, os quais lhes permitirão alcançar desempenhos de excelência nessa actividade.
Podemos então concluir que, segundo os autores referidos, o talento é algo que se possui e que não se aprende, excluindo-se portanto a importância da prática de todo o processo.
Mas será o conceito de Talento tão redutor ao ponto de se considerar a genética o único responsável pela sua manifestação?
“Nunca fui um predestinado no Futebol, e cheguei a internacional e a titular de uma equipa como o Sporting, sou a prova viva de que é possível chegar longe com trabalho e dedicação”
(Carlos Pereira, 2005 cit. por Costa, 2005)
“... eu construí-me. Eu também tinha as minhas qualidades, mas construí-me ao longo de toda a minha carreira. E como? Devido a alguns factores importantes e coisas boas que tenho como a observação e percepção para retirar coisas positivas para mim exactamente daquilo que ia observando.”
(Paulo Sousa, 2003 cit. por Costa, 2005) Após os testemunhos anteriores, parece evidente que a genética, por si só, não chega para explicar o talento. Efectivamente, se por um lado muitos
atletas excepcionais nunca manifestaram sinais precoces da sua excepcionalidade, por outro, muitos jovens embora tenham manifestado, de facto, habilidades e características distintas, nunca chegaram a atletas de alto nível.
Assim, se boa parte do futuro dos Futebolistas decide-se na infância (Cruyff, 2002), e sendo já um dado adquirido que as actividades realizadas pelos jogadores durante os anos iniciais do seu desenvolvimento exercem grande influência sobre o que poderão vir a ser no futuro, pode-se então concluir que é TAMBÉM o “ambiente” a produzir Talentos (Santoalha, 2008).
De acordo com Levitin (2007, cit. por Maciel, 2008), o desenvolvimento do Talento é um processo Epigenético, que, como tal, não deve ignorar a existência de factores genéticos, contudo estes não podem ser interpretados e compreendidos, se dissociados dos factores ambientais.
Nesta linha de pensamento encontra-se Araújo (2004) ao defender que uma perspectiva epigenética e emergente do talento. Para este autor, para um indivíduo chegar a desempenhos excepcionais terá que evidenciar uma constante actualização do talento, ou seja, os genes combinam-se de acordo com o desenvolvimento do indivíduo e com as oportunidades do contexto.
Também outros estudos sugerem que o nível de aperfeiçoamento adquirido através do treino é influenciado por factores genéticos. Lewontin (2000, cit por Baker, Horton, Robertson-Wilson & Wall, 2001) utiliza mesmo a metáfora do “balde vazio” para descrever a contribuição dos genes e do ambiente no desenvolvimento: os genes determinam o tamanho do balde, enquanto o ambiente determina o conteúdo.
Marques (2006), também, salienta a importância do meio envolvente na Formação dos Talentos, considerando que um Talento é um “indivíduo que apresenta características endógenas especiais, as quais sob a influência de condições exógenas óptimas deixa prever a possibilidade de obtenção de prestações desportivas elevadas”. Então, se um miúdo tiver uma predisposição enorme para jogar Futebol (as tais características endógenas especiais) e nunca jogar, dificilmente se irá tornar um talento, um expertise, porque a prática, o meio (condições exógenas óptimas), não irão estimular o
desenvolvimento. De facto, os bons são aqueles que têm uma predisposição e que depois têm um meio propício a esse desenvolvimento (Gomes, 2008a).
Assim, “o indivíduo já nasce com determinadas características para determinadas áreas (…) que depois se forem bem “treinados”, isto é, se os estímulos posteriores ao nascimento forem executados de forma repetida (…) esse talento poderá ser aproveitado em termos do indivíduo para a área em que se encontra vocacionado.” (Maçada, L., 2008 pp. XVIII).
É neste sentido, que Garganta (2004) defende que para ser jogador de TOP não é suficiente nascer com talento, treinar torna-se imprescindível. A genética predispõe para algo, mas só por meio da modificação das atitudes e dos comportamentos se consegue, efectivamente, sê-lo. Assim, o talento possibilita e potencia a aprendizagem, mas não pode substituí-la, o que significa que o capital biológico do jogador precisa de validação posterior.
Podemos, assim, concluir que a genética não é um destino nem determina o que cada um irá ser. Ela apenas oferece predisposições (Ramos, s/d cit. por Sgarionii, M. & Narloch, L.). Nesta linha de pensamento, “todos estão sujeitos a influências ambientais que podem mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem” (Ramos, s/d cit. por Sgarionii, M. & Narloch, L. pp. 50), ou, acrescentaríamos, manifestem-se ainda mais. Desta forma, “é evidente que o talento é um processo” (Oliveira, J., 2008 pp. XCIII), sendo que a pratica, embora não sendo suficiente, é condição necessária para que ocorra a aprendizagem e se atinjam níveis de desempenho superior (Fonseca, 2006).