A segunda metade do século XIX presenciou a progressiva mercantilização do jornal, a partir da instalação de oficinas de tipografias nos principais centros urbanos. A popularização do jornal foi se consolidando como resultado de uma série de fatores combinados, dentre eles o processo de modernização pelo qual passavam todas as esferas sociais e o progresso tecnológico proporcionado pela industrialização e pelo avanço do pensamento científico. Dúnya Azevedo elenca alguns desses fatores nos seguintes termos:
Em várias partes do mundo, o grande salto dado pela imprensa a partir do século XIX acompanhou o surpreendente crescimento urbano e a ampliação
das atividades culturais e sociais. O número de habitantes nas grandes cidades aumentava a passos largos em busca de empregos e melhores condições de vida. Na mesma proporção crescia a capacidade de consumo da população. A construção das estradas de ferro, o surgimento da fotografia e do telégrafo para a transmissão das notícias, dentre outras inovações, alterou profundamente o sistema de distribuição de mercadorias e de informações. A abertura de novos mercados e a necessidade de conquistá-los abriu espaço para a propaganda como elo entre a imprensa e a produção de mercadorias. Com a difusão da alfabetização nos centros urbanos, o público-leitor torna-se maior e mais exigente. E a imprensa, ao mesmo tempo em que estimula a voracidade de leitura da população, cria meios de se adequar à demanda crescente desses leitores (AZEVEDO, 2009, p. 88).
No Brasil do século XIX, no entanto, as condições para o desenvolvimento da imprensa não eram tão favoráveis. A distribuição dos jornais estava comprometida pela escassa rede de comunicações e um serviço quase nulo de correios; invariavelmente, ou se valia do navio, ou, em vias terrestres, do transporte animal ou ainda do locomóvel (inaugurado apenas em 1867), o que restringia sua disseminação, principalmente, ao ambiente urbano (SODRÉ, 1983, p. 208-209). Sabemos, ademais, que, até muito recentemente, o Brasil era predominantemente agrário e analfabeto, características que desencorajam, ainda mais, uma empresa fundada essencialmente na cultura letrada.
Apesar desse cenário nacional, o ambiente de escrita das crônicas machadianas, a cidade do Rio de Janeiro, foi favorecido pela condição de capital da corte, centro efervescente do padrão de cultura irradiado para o resto da nação. Ali, a distribuição das folhas se dava, a princípio, mediante assinatura e, a partir de 1876, dois anos antes da escrita das “Notas semanais”, por meio da venda avulsa. Desde então, inicia-se um processo de divisão do trabalho jornalístico, com o surgimento dos jornaleiros, das bancas e dos pontos de venda. Nelson Werneck Sodré conta que o primeiro vendedor ambulante de jornais utilizava-se de uma buzina para chamar a atenção dos transeuntes, o que não agradara a população, gerando repulsa pela iniciativa (SODRÉ, 1983, p. 226).
Na época, a produção de um jornal era bastante dispendiosa e dependia, já aí, do financiamento de “anúncios (de casas comerciais de amigos, de falecimentos, de missas, de
40 partida de navios em Santos, de espetáculos de teatro, de chegada de médicos da Corte, de negros fugidos) e de assinaturas” (SODRÉ, 1983, p. 226). Nesse contexto, ao ser inserida no rodapé das primeiras páginas dos jornais, a crônica assumiu mais essa função: a de atrair o interesse do público, aumentando a expectativa de vendas. Para corresponder a esse propósito comunicativo, o cronista deveria se valer de estratégias discursivas de captação como o humor; as narrativas extravagantes; a seleção de fatos curiosos; o estabelecimento de uma relação amigável para com o leitor, por meio de diálogos diretos e de elogios constantes à sua figura; além do uso de figuras de estilo que proporcionasse o deleite e a fruição. De fato, encontramos tais características em muitas das crônicas machadianas, especialmente naquelas produzidas nas décadas de 1860 e 1870, embora possamos notar que cada uma das séries escritas por Machado possui uma fisionomia própria, em consequência da adequação necessária ao perfil editorial do periódico e ao tema mais premente da época de escritura.
De maneira geral, até o final da década de 1830, a imprensa tematizava predominantemente assuntos políticos voltados para a consolidação da Independência nacional. O tom era virulento e marcado por ataques hostis entre adversários políticos. A partir de 1838, a literatura passa a ocupar um espaço mais significativo nos jornais, propiciando o início de uma nova fase para o jornalismo (CRESTANI, 2009, p. 43-45), que passou a considerar um público consumidor maior, ao tratar de assuntos amenos como moda,
fait divers, eventos culturais e notícias do cotidiano, mais conformes com a mentalidade
burguesa europeia que vinha sendo implantada artificialmente em solo nacional.
Atendendo a essa nova demanda da agenda pública, alguns gêneros foram eletivamente atraídos para o novo suporte, como foi o caso do folhetim e posteriormente da crônica. Em suas primeiras manifestações, a crônica apresentou características híbridas que poderíamos hoje relacionar com as formas textuais da notícia, do artigo de opinião, da coluna de humor e do conto, visto que possuía a obrigação de informar sobre os acontecimentos da
semana a partir de um julgamento pessoal, sem perder de vista o caráter de entretenimento. A demão literária ficava por conta da formação mais comum dos convidados para a atividade de cronista, a maioria deles romancistas já conhecidos.
No tempo de produção da série “Notas semanais”, 1878, o jornal estava já conformado a essa lógica do mercado, pautando suas configurações pelas exigências comerciais. Como resultado desse processo de massificação da imprensa, temos, de um lado, “o desenvolvimento cultural e o começo de uma história democrática, onde o corpo coletivo teria cada vez mais acesso às informações e bens culturais”, de outro, “a banalização da cultura transmitida e o condicionamento dos intelectuais às estratégias de mercado” (CRESTANI, 2009, p. 45). Nessa primeira fase, e mesmo considerando o jornal de referência, a imprensa instaura um dispositivo paradoxal de informação: ao mesmo tempo em que promove a instrução da população em geral (ampliando a comunidade de leitores antes restrita a apenas uma elite econômica e intelectual que podia ter acesso aos livros), torna as discussões de interesse coletivo rarefeitas, uma vez que prevê para o posto de sujeito interpretante um leitor inábil que espera encontrar nas páginas do jornal um divertimento para acompanhar a digestão, e, acima de tudo, um consumidor, responsável direto pela lucratividade da empresa.
Sem destoar do objetivo de atrair o leitor, por meio de um tratamento superficial e, algumas vezes, anedótico dos temas, o discurso jornalístico valia-se, em geral, de uma linguagem rebuscada que buscava impressionar o público mais pela forma que pelo conteúdo. Esse era, aliás, um dos efeitos do sistema paternalista que ditava a convivência entre as camadas sociais, baseado nas relações de favor: embora em condições adversas, a classe desfavorecida nutria uma admiração incondicional pelos hábitos da classe privilegiada. Assim, “a linguagem culta apresentava um torneio rebuscado, não para que se afastasse do público, mas exatamente para que fosse reconhecida como uma marca de doutor” (LIMA,
42 1981, p. 10). Nossa hipótese é que, na contramão dessa conduta, Machado instaura nas “Notas” uma crítica ácida a esse comportamento discursivo da considerada elite intelectual, por meio de uma série de paródias do estilo retoricista em favor da “frase sadia e nua: pão, pão; queijo, queijo” (ASSIS, 2008a, p. 137), mas que fosse prenhe de ideias e reflexões.
Diante dessa configuração da instância de produção, acreditamos que o sujeito enunciador das crônicas machadianas estabelece uma relação de afinidade e afastamento diante dos imperativos materiais que incidiram sobre sua elaboração do gênero em diversos periódicos da época, durante mais de quarenta anos. Como estratégia de captação do leitor- consumidor, notamos (especialmente nas primeiras duas décadas de atividade como cronista) uma atitude de bajulação para com o leitor, sempre tratado por vocativos amigáveis como “caro leitor”, “leitora castíssima”, “prezados leitores”, “leitora minha devota”, “leitor sagaz” e declarações simpáticas como “Quero tratar meus leitores a vela de libra”, “Resta que me torne digno, não direi do aplauso, mas da tolerância dos leitores” etc.; um uso acentuado do humor e de narrativas extravagantes (nesse caso, especialmente nas últimas duas décadas de produção do gênero) e a seleção de temas graves, porém mesclados com toda sorte de notícias do cotidiano, incluindo crimes, eventos culturais, fenômenos bizarros, falecimentos etc. No entanto, apesar da aparência de comentário gratuito e da qualidade cômica da maioria das peças, acreditamos que a crônica machadiana não se dobra à contingência da empresa jornalística da época de rarefazer a discussão proposta. Ao contrário, notamos que, velada por estratégias de captação que priorizam o entretenimento, a orientação argumentativa da maioria de seus escritos visa a uma complementação de sentido, por parte de seus leitores, baseada nos preceitos de uma ética cidadã, isto é, suas crônicas promovem uma problematização do espaço público e, além disso, reclamam a presença de um leitor crítico, gerando uma necessidade de adequação cognitiva da instância de recepção que preenchia a outra extremidade do dispositivo jornalístico da época.