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Historicamente o Brasil tem uma dívida com a inclusão social, especialmente quando falamos na distribuição de renda. Encontramos ao longo da história diversas tentativas para amenizar esta problemática, que está permeada por situações constrangedoras, inclusive quanto à linguagem utilizada para se referir a este grupo social, pois em alguns momentos da história foram definidos simplesmente como “pobres”, em outros como “excluídos” e, mais recentemente, como “vulneráveis da sociedade”. Falar deste grupo social, que representa a maior parte da população do Brasil e conseqüentemente no Rio Grande do Sul, é comprometer-se em primeiro lugar com a linguagem e com as diferentes compreensões de “falta”, ou seja, pobre era aquele que tinha algo faltando em sua

vida de cidadão. No subcampo marista os alunos bolsistas eram considerados “pobres”, porém categorizados em pobres materiais ou pobres espirituais.

A lei da filantropia foi aos poucos sendo regulamentada e dentre as regulamentações, houve a definição de vulneráveis sociais, agora já não mais chamados de pobres, e definidos pelos critérios econômicos e de risco social. Para os maristas o conceito de pobre espiritual não mais cabia dentro do conceito econômico para concessão de bolsa de estudo. Nem todos os maristas resistiram a esta regulamentação, ao contrário, um dos principais agentes na implantação das obras sociais mostra-se satisfeito com tal decisão do Governo e se expressa dizendo que a decisão foi

altamente positiva, porque isto despertou um pouquinho mais o amor aos pobres nos Irmãos. E ainda hoje eu digo, bom, eu acredito que nós estamos vivendo numa riqueza demasiada [...] e que nós ainda não distribuímos suficientemente nossos bens para os pobres17.

A resposta deste agente marista octogenário, carregada de otimismo e senso de partilha, relembra uma expressão do Ir. Weibert, que foi um dos três fundadores, em 1900, da Província Marista do RS:

as dificuldades não impedem as obras de Deus, mas quando aceitas com fé e confiança, são garantia da bênção divina. Irmãos, não deveis esquecer que, quando fordes bem pobres, sempre sereis suficientemente ricos, mas no dia em que fordes ricos, começareis por desaparecer (HENZ, 1990, p.19).

Os maristas tiveram um começo difícil na chegada ao RS, pois não disponibilizavam de recursos financeiros, ficando em alguns momentos desprovidos de materiais básicos para a manutenção da casa, tendo que recorrer à comunidade,

ou ao pároco, no caso, de Bom Princípio18. Essas experiências vividas foram

fundamentais para que se formasse na maioria dos maristas do RS um habitus

17 Entrevistado A.

18 Rodrigues relata com emoção as dificuldades iniciais enfrentadas pelos três Irmãos fundadores da

PMRS: “não é escondido nos anais o agradecimento aos colonos, que mostram-se perceptivos, adivinhando as necessidades dos Irmãos, ao seu “desnudamento”, levando-lhes os principais víveres durante algum tempo. O valor pago por mês pelos alunos era de 2$000 (dois mil réis), porém muitas vezes faltava dinheiro, pois o pagamento era feito trimestralmente. É fato notório e digno de registro o seguinte: Uma vez nos faltou o dinheiro necessário para despachar uma carta para a Europa, ali ficou até o dia em que o Padre vigário a viu em cima da mesa sem selo, notou então que o problema era a falta de dinheiro e prontamente pegou a carta para despachá-la” (RODRIGUES, 1997, p. 139–146).

identificado com os cidadãos “empobrecidos”, especialmente os “colonos” que no início assumiram a “maternidade” destes três professores que mal sabiam se comunicar em português ou alemão. Tal experiência faz parte do habitus construído no interior do subcampo religioso marista. Segundo Bourdieu o habitus é conseqüência de uma construção estrutural que se concretiza a partir das experiências vividas, pois o

habitus é o princípio gerador e unificador que retraduz as

características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de escolhas de pessoas, de bens e de práticas (BOURDIEU, 1996, p.22).

A história dos maristas no RS está intimamente ligada à educação, que em determinados momentos esteve mais voltada aos vulneráveis, o que não significou deixar os colégios pagos. A partir de 1996 a Província Marista do RS decidiu, pressionada pela legislação e orientada pelo XIX Capítulo Geral, investir os recursos provenientes da filantropia em locais de maior vulnerabilidade social do RS, iniciando o processo de abertura de obras sociais. Este processo foi considerado por muitos maristas como uma “volta às fontes”, ou seja, retomada de antigas ações sociais desenvolvidas no RS, como no colégio São José em Porto Alegre ou na FAG (Frente

Agrária Gaúcha)19.

A forma de atuação escolhida pelos maristas, no campo social, foi a educação, dando seguimento à tradição que também os identifica perante os demais campos do espaço social. Quando os maristas decidiram fundar obras sociais, retomaram a própria história percebendo que as ações com os empobrecidos foram pouco expressivas durante quase cem anos de presença no RS. Na década de 1990, com a fundação das primeiras obras sociais, a intervenção dos maristas cresceu e possibilitou que milhares de cidadãos pudessem usufruir dos serviços oferecidos.

Os maristas são orientados pelos documentos da Instituição a partilhar com os mais “pobres” os bens materiais e espirituais. Tais documentos desvinculam os maristas de situações que os demais cidadãos enfrentam no dia-a-dia como, por

19 Cf. Rodrigues, a FAG surge com grande força e logo prolifera: “Ir. Miguel Dario iniciou suas

atividades em maio de 1962, coordenando a FAG, sua ação direta atingia 35 municípios com seus 65 Departamentos Seccionais e 25 Sindicatos já criados com mais 26 em organização” (2000, p.356).

exemplo, ter posses ou reter dividendos para o próprio proveito. Organizam-se a partir de valores religiosos, respeitando a tradição do subcampo, que ensina que

por fidelidade a Cristo e ao Fundador, amamos os pobres. Prediletos de Deus, eles atraem sobre nós os favores divinos e nos evangelizam. A preocupação pelos pobres leva-nos a descobrir as causas de sua miséria e a libertar-nos de qualquer preconceito ou indiferença para com eles. Torna-nos mais responsáveis no uso dos bens que devemos partilhar com os mais necessitados20.

A valorização das obras sociais, feita pelos maristas, demonstra o quanto esses religiosos sentem-se realizados e orgulhosos com os projetos que deram certo. Muitos demonstram tal satisfação nas respostas dadas, como este Irmão que estabelece a Província do Rio Grande do Sul como exemplo para as demais na opção pelos “desamparados do Reino”, assim se expressando:

Eu acho que isto (obras sociais) está sendo uma conquista muito grande e criou uma capacidade de disponibilidade em muitos irmãos, muito maior. Eu esqueci de dizer antes, isto já repercutiu nas outras duas províncias, porque antes elas não tinham obra social. Até pouco tempo as províncias tinham duas ou três obras sociais, hoje têm dezenas, repercutiu. Este aspecto social foi muito importante dentro da província e repercutiu dentro das províncias brasileiras, e também dentro da congregação [...]21

O doar-se aos “pobres” é parte da linguagem incorporada pelos maristas e está expressa nas orientações sobre como viver a “pobreza evangélica”, segundo os valores religiosos. Esta linguagem está presente em escritos maristas que variam de livros até folhetos de divulgação. A linguagem da grande parte do material publicado é profundamente identificada com a construção da inclusão social e com a linguagem do campo político, quando trata de políticas públicas. Alguns escritos ainda não se adaptaram a linguagem utilizada e estabelecem uma linguagem

incoerente ao falar das crianças pobres22. Esta linguagem não foi registrada entre os

20 Livro das Constituições Maristas, número 34. 21 Entrevistado A.

22 Encontramos em livros de circulação interna dos maristas, expressões como: “meninozinhos”, ou então “foi

organiza a escola São José, para os pequenos vagabundos dos arredores”, ou então para engrandecer a figura de um Irmão marista, “vê-lo percorrer as estações da via-sacra na capela (o irmão), cercado de um grupo de negrinhos”, expressões essas, que no mínimo, revelam uma percepção acerca daquelas crianças e adolescentes, separando-as por condição social e cor, o que talvez seria mais aceitável se o texto fosse dos anos 50 ou 60, mas não de 1997. (RODRIGUES, 1997, p. 589) Podemos recorrer a Bourdieu na busca de uma provável explicação: “A questão ingênua do poder das palavras está logicamente implicada na supressão inicial da questão acerca dos usos da linguagem e, por conseguinte, das condições sociais de utilização das palavras”. (BOURDIEU, 1996, p.85)

maristas que responderam ao questionário, talvez porque estão engajados no trabalho religioso em prol das crianças e adolescentes, ou então porque houve crescimento e amadurecimento na missão estabelecida junto aos mais vulneráveis da sociedade e a própria linguagem foi sendo aprimorada, acompanhando o processo de consolidação das obras sociais.