• No results found

A educação como prática da liberdade, ao contrário daquela que é prática da dominação, implica a negação do homem, abstrato, isolado, solto, desligado do mundo, assim como também a negação do mundo como uma realidade ausente dos homens. (Paulo Freire, 2008)

Na epígrafe posta, Paulo Freire explicita que a educação para a libertação passa, necessariamente, por uma tomada de consciência do indivíduo frente ao mundo e que esta consciência e o mundo tecem uma relação simultânea, na medida em que a reflexão sobre este mundo e sobre o próprio homem o leva a alargar sua percepção, sua visão, independente de estar preso ou não à educação bancária.

A este respeito, existem, ainda, muitas pessoas que acreditam numa só forma de educar – a educação formal – e que só se aprende no prédio chamado

escola. Durante as entrevistas, pude perceber que as entrevistadas, com exceção da Mulher Jovem, não se dão conta da aprendizagem adquirida no exercício da profissão de louceira. Para elas, nunca aprenderam nada porque não frequentaram uma escola no tempo devido. Quando indagadas sobre estudo, na verdade, me referia, à educação formal, e, sobre estas questões, obtive as seguintes respostas:

A Mulher Jovem assim declara: “Eu estudo, já terminei o Médio e agora estou no segundo Normal Médio no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e segundo ano do curso de Pedagogia na UFCG”.

Já havia observado, desde o nosso primeiro contato na feira livre, que ela se expressava muito bem, demonstrava estudar ou ter estudado, mas não sabia que era valente e determinada.

No início dos contatos com as louceiras, fui à feira livre e pedi autorização para fotografar a louça exposta, como também, os vendedores que ali se faziam presentes: duas mulheres e um homem; uma das mulheres é esta jovem louceira e estudante que vendia louça com a mesma simplicidade de quem, na academia, produz um texto, dada a aceitação que demonstra ter quando permeia entre o saber formal e o não-formal adquiridos, simultaneamente, enquanto o tempo cronológico a ajudava a tecer a sua formação. Admirei muito mais a Mulher Jovem, no ato da entrevista, quando me falou dos seus estudos e de suas metas:

Quero muito terminar meus cursos. Minha mãe sempre quis dar uma vida melhor para nós, mas sou eu quem quer dar uma vida melhor a ela quando tiver mais velha. Acredito que esta é a minha maior meta. (Mulher Jovem)

Ainda sobre as práticas educativas. Relembra a infância:

Sempre falo que a lembrança é do primeiro dia de aula, quando minha mãe foi me deixar e eu não queria ficar... Chorei bastante, mas a professora chamou com jeitinho e foi chamando e eu lembro- me dela até hoje, era muito carismática e as histórias que as professoras contavam que eu ainda gosto muito. A escola era a

Vitória Bezerra19.(Mulher Jovem)

E continua:

      

19

Ainda esta semana eu comentava que quando comecei o Normal eu não sabia o que fazer, não tinha certeza do que eu queria, não... Fui gostando do curso e quando fui fazer vestibular, escolhi a mesma área, Pedagogia, porque eu gosto. Amo demais criança e ensinar também. Acho que ensinar é uma dádiva sei lá... Deus. Porque eu penso que é mágico ensinar ao outro. Só que, atualmente, estou em dúvida, não porque não goste, mas é porque está tão desvalorizado! Eu acho muito desvalorizado o ensino. Eu vejo em sala de aula, aluno manda em professor, pais mandam em professor, além dos demais membros da instituição... e, ainda, a desvalorização econômica porque professor é aquele que forma todos os demais e é desvalorizado! Tem certos cursos em que o principiante ganha mais que o professor como o técnico de enfermagem, além das demais coisas que acontecem como o que está pra ser aprovado. O preso vai ganhar setecentos e cinquenta reais. Eu acho um absurdo! Porque a gente passa o dia todo estudando para ganhar um dinheiro e o outro faz um crime e vai ganhar por isso! Aí, estou em dúvida, mas eu gosto demais da educação... (Mulher Jovem)

Num certo momento, comentei sobre a evasão no ensino, principalmente, no Normal Médio e ela acrescentou:

Uma das questões é a desvalorização da educação e outra é porque pensam que este curso Normal é para mulher... as pessoas têm medo disso, inclusive quando se vê um rapazinho... já pensam que não é homem. São sempre umas piadinhas... É gay! Mas eu penso que o curso é direcionado para todos. É formação. É para todos. (Mulher Jovem)

Percebi o valor que esta jovem confere à educação. Ensinar para ela é realmente conduzir pessoas a uma aprendizagem, quando diz: “Acho que ensinar é uma dádiva sei lá... Deus. Porque eu penso que é mágico ensinar ao outro”. Percebi também, após a entrevista, em uma breve conversa ainda sobre educação, o quanto a jovem idealiza esta profissão e demonstra que amor, carinho e vontade fazem do ato de ensinar algo prazeroso, porém ela se entristece quando fala da pouca valorização e desabafa: “[...] e, ainda, a desvalorização econômica porque professor é aquele que forma todos os demais e é desvalorizado!”. A Mulher Jovem se fundamenta a partir do que entende sobre a profissão de professor e diz que aquele que forma não tem o devido valor. Critica o poder quando fala de um suposto salário que os detentos receberão e não entende por que aquele que infringe leis é mais valorizado que as pessoas que além de formadoras de opiniões, são educadoras. Questões como estas a distancia deste sonho devido à necessidade de sobreviver a partir do que recebe por uma profissão. É fácil perceber que a jovem está dividida

entre a idealização da profissão e a realidade do exercício da mesma. A Mulher Jovem ainda fala do desejo de oferecer uma qualidade de vida a sua mãe como forma de agradecimento: “Minha mãe sempre quis dar uma vida melhor para nós, mas sou eu quem quer dar uma vida melhor a ela quando tiver mais velha”.

Apesar de não ter abandonado, totalmente, a visão idealizada, tanto sobre o magistério quanto sobre aos papéis atribuídos à mulher, esta narradora caminha para concretização das suas metas, empurrada pelas necessidades e realidades concretas da vida.

Dando continuidade aos questionamentos sobre estudos, a Mulher Adulta declara:

Fiz até a 5ª só, foi um dia desses, porque meu pai não deixava a gente estudar não... Era pra trabalhar na roça, quando a minha mãe botava a gente na escola... Nós morava no sítio... Ele mandava a gente sair porque ele aprendeu a ler e escrever sem estudar. Quem quisesse aprender a ler que aprendesse em casa! Eu vim estudar faz uns... 3 ou 4 anos que estudei, ali no Vitória Bezerra, mas ele nunca deixou. Eu sabia assinar meu nome mal. Eu fiz até a 7ª, aí... parei também, a vista ruim que só, aí pronto, eu digo já dá... sabendo

assinar o nome... (ênfase) tá bom demais!(Mulher Adulta)

Esta mulher demonstrou tristeza ao comentar a falta de oportunidade. Vivia na zona rural e não tinha como estudar. Vivia em um regime patriarcal onde a voz do pai era a voz do chefe, “a voz de Deus”. Não levava em consideração os apelos da mulher – esposa – que queria algo melhor para os filhos, como o estudo. A mulher era relegada às tarefas domésticas, à criação dos filhos e a transmissão da fé, para outros assuntos, não tinha vez, não tinha voz. Não tinha a altivez de exigir estudos para os filhos, mesmo que tivesse outra visão. Precisava ficar calada, sem argumentação, conforme está explícito também no dizer da Mulher Adulta que Perrot (2008, p.114) fundamenta quando registra a história da mulher nos tempos:

O trabalho doméstico é fundamental na vida das sociedades, ao proporcionar seu funcionamento e reprodução, e na vida das mulheres. É um peso também na sua identidade: a dona-de-casa perfeita é o modelo sonhado de boa educação. [...] O caráter doméstico marca todo caráter feminino: a mulher é sempre uma dona-de-casa.

Perrot explicita a realidade da recordadora verificada, ainda, em grande parte das mulheres, a exemplo de muitas que frequentam a educação de Jovens e Adultos e que precisaram abandonar a escola, – como outrora – para ajudar no sustento da família, trabalhando na roça, em casa e cuidando dos filhos e dos irmãos menores – que é o caso específico da Mulher Adulta – porque alguns homens-maridos não achavam e, ainda, não acham importante e, também, interessante que a mulher frequentasse ou frequente a escola, usando o argumento passadista: “quem casa precisa assumir, primeiramente, o papel de mãe, de esposa e de dona de casa”.

Reflitamos. A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Esta questão nos remete a Paulo Honório e Madalena20, e à diferença que residia entre ambos. A forma como a força bruta suplantou a capacidade intelectual. O poder do homem/sociedade sobre a mulher foi o que provocou o suicídio de Madalena, que mesmo inteligente, capaz e consciente disso, não conseguiu resistir à pressão e a opressão do marido.

Na arte de criar histórias como na vida e suas particulares vivências, muitas madalenas anularam suas convicções, desejos, prazeres, muitas vezes, devido à falta de reconhecimento e de credibilidade gerada pelo forte preconceito masculino, tão bem expresso na fala da recordadora em relação a sua mãe: “[...] quando a minha mãe botava a gente na escola. [...] Ele mandava a gente sair [...].”

Fica clara, também, a abnegação desta recordadora, quando satisfeita diz: “já dá... sabendo assinar o nome... tá bom demais!” Ela se contradiz quando esclarece que estudou até a 5ª e, na mesma fala, até a 7ª série, como se tivesse algo guardado. Não ficou claro.

Quanto à educação, esta é a única fala da Mulher Idosa

Só (estudou) quando eu era mais nova. Depois já houve aulas aqui para os velho, mas eu não fui mais não... Papagaio velho não aprende mais não... Tenho um problemas nas vistas... Nem assinar

o nome eu sei... Boto só o dedo. (Mulher Idosa)

      

20

Madalena – personagem do livro São Bernardo de Graciliano Ramos – mulher instruída, inteligente, humana, meiga e muito educada que vivia tentando combater as atrocidades e desumanidades do marido – personagem Paulo Honório –. Não resistindo a tanto sofrimento ela dá cabo a sua própria vida.

O advento da Educação de Jovens e Adultos-EJA trouxe, talvez, solução e esperança para uns e indiferença para outros. Esta idosa não acredita no estudo a esta altura da vida, nem tão pouco, na aprendizagem quando afirma que “papagaio velho não aprende mais não”. Ela traz, em sua essência, a história que aprendera ao longo dos anos. A Mulher Idosa parece viver presa ao entendimento de que a mulher não tem muito a dizer como fora submetida – e ainda se comporta assim em alguns países – submetida ao silêncio, ao não-dizer, a pensamentos como: “mulher é para outra coisa”, “lugar de mulher é em casa”, “para que a mulher saber ler e escrever?”. Este entendimento comunga com o que Perrot (2008, p. 152) afirma, em sua obra, reportando-se à França: “Tanto por sua natureza quanto por suas funções as mulheres não são reconhecidas como indivíduos”.