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Para se entender o perfil da chamada Indústria Criativa, pode-se recorrer aos estudos formulados sobre a temática. Batista et al (2006), Lima (2006) e Miguez (2007) apontam Austrália e Reino Unido como sendo exemplos de experiências voltadas à adoção da criatividade como elemento propulsor de um novo setor econômico.

Gomes (2008) indica os estudos australianos como os precursores do entendimento da temática, devido ao desenvolvimento do conceito Creative Nation. Este conceito, formulado em 1994, tratava da tentativa de requalificação do Estado como promotor do desenvolvimento cultural no país (NATIONAL LIBRARY OF AUSTRALIA, 1994).

Em 1997, o plano de governo do partido britânico New Labor tratou as Indústrias Criativas como uma fonte de atividades empresariais, demonstrando interesse e preocupação em se desenvolver políticas públicas específicas (GOMES, 2008).

Reis (2007) aponta a adoção por estudos americanos, neozelandeses, honcongueses e cingapurianos do termo Indústria Criativa como referente às atividades elaboradoras de produtos simbólico-culturais que são passíveis de serem abarcados por políticas públicas de incentivo e desenvolvimento. Miguez (2007) aponta a XI UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, realizada em São Paulo em 2004, como marco no tratamento da temática no Brasil.

A atenção despendida pela academia sinaliza o interesse em desenvolver conhecimentos acerca das organizações criativas. Os dados anteriormente apresentados indicam o grande impacto que empreendimentos de projetos artístico-culturais podem ter na realidade econômica do país.

Segundo o Instituto da Economia Criativa (2007), criado com o objetivo de contínuo desenvolvimento de conceitos relativos à Economia Criativa em diversos setores de conhecimento, em seu I Fórum Internacional de Criatividade e Inovação, estabeleceu as categorias de atividades que compõem a noção de Indústria Criativa, conforme disposto no quadro 16.

52 Estas categorias corroboram com os estudos de Lima (2006), em que estão abrangidas, pelo conceito de Indústria Criativa, as atividades ligadas à moda, às artes plásticas, artes performáticas, fotografia, audiovisual, música, design gráfico, preservação do patrimônio, jogos eletrônicos de entretenimento, artesanato, comércio de antiguidades, publicidade e propaganda, edição e publicação, rádio, televisão e arquitetura.

Conforme exposto pela figura 7, as Indústrias Criativas possuem grande afinidade com os conceitos Economia Criativa ou Economia do Conhecimento, juntamente com atividades cultuais decorrentes. Contudo, deve-se ressaltar que a ligação existente entre indústrias criativas e cultura torna-se definida tendo em vista que nem todos os produtos culturais possuem aspecto econômico.

FIGURAS 7 - Componentes da economia criativa Fonte: adaptado de BATISTA et al (2008, p. 3)

Caves (2003) explicita que os serviços prestados e os bens produzidos pelas chamadas Indústrias Criativas possuem valor artístico-cultural ou de entretenimento, por serem oriundos de esforços de criação ou artísticos, o que abrange segmentos como os de publicidade, de arquitetura, de design, de filmes e vídeos, de internet, dentre outros. Percebe-se a interação entre artes criativas tradicionais e tecnologias modernas (BORGES, 2005), conforme resumido no quadro 16.

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Mídia e espetáculos ao vivo Design e Visual Patrimônio Histórico

Filme

Software de entretenimento interativo e serviços de computação Música Artes Cênicas Edição Televisão e Rádio Propaganda Arquitetura Artesanato, Design Design de Moda Artes Visuais

Mercado de artes e antiguidades Patrimônio Histórico

Museus e Galerias

QUADRO 16 - Categorias de atividades designadas como indústrias criativas Fonte: I Fórum Internacional de Criatividade e Inovação (2007)

Como dito, apesar de não haver um consenso em relação a uma definição sobre a delimitação, é certo de que há a incorporação da criatividade ao processo produtivo da organização, tornando-o essencial para o desenvolvimento dos produtos e serviços almejados. (FLORIDA, 2002; BENDASSOLLI et al: 2009)

Cauduro (2003), em estudo sobre competências organizacionais e gerenciais associadas à gestão de empresas de produção artística e cultural, destaca as características tidas como comuns de atividades artísticas e culturais. O quadro 17 apresenta as principais características levantadas pela autora.

Característica Descrição Autor

Gerenciamento Descontínuo Produção baseada em projetos Evrard (2000) Gerenciamento de

trabalhadores ocasionais ou temporários

Consequência da produção baseada em projetos. Leva ao desenvolvimento de uma rede de fornecedores/colaboradores

Evrard (2000)

Ambiente de constante

inovação Cada produto é novo e diferente do anterior, levando a inovação constante Busson (1993) Cada oferta de produto é

única

Cada produção se difere das demais pelo conjunto de fatores e recursos envolvidos, pela criatividade e talento oriundo do grupo de trabalho

Busson (1993)

Mercado Complexo e Fragmentado

Ausência de barreiras de entrada, mas existência de barreiras de saída agregado à prevalência dos valores artísticos pelos indivíduos envolvidos.

Daghfous e Ndiaye (2002) Forte Concorrência Concorrência entre produtos de mesmo setor e produtos substitutos Busson, 1993 QUADRO 17 - Principais características das atividades culturais

Fonte: Adaptado de Cauduro (2003, p. 3)

A autora levanta seis categorias de análise referentes ao setor artístico cultural, a saber: mercado, instabilidade, influência política, patrocínio, público e concorrência, conforme disposto no quadro 18.

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Categorias de

Análise Características predominantes relacionadas

Mercado

Mercado Incipiente

Mercado em processo de regulamentação Mercado com possibilidade de crescimento

Carência de empresas mais profissionais (no sentido administrativo) Instabilidade Influências Macroeconômicas Influências político-administrativas

Influência Política Incerteza quanto à política a ser adotada no caso de transições de partidos políticos no governo

Patrocínio

Crescimento da utilização de leis de patrocínio por parte das empresas

Possibilidade de desenvolvimento (no sentido de expansão) por parte das empresas artísticas e culturais

Público Desenvolvimento de público influencia todo o setor Desenvolvimento de público influencia o setor a médio e longo prazo Concorrência Disputa acirrada por espaços públicos de apresentação (Teatros) Concorrência com outros setores econômicos pelo tempo livre das pessoas QUADRO 18 - Características predominantes relacionadas ao mercado do setor artístico cultural Fonte: Adaptado de Cauduro (2003, p. 8)

Caves (2003) compreende a criatividade como fator essencial do processo produtivo. Para o autor há a necessidade de bases organizacionais estruturadas e integradas ao mercado de forma a ampliar a capacidade produtiva, gerando impactos sócio-econômicos. Howkins (2001) compreende a criatividade como associada à inventividade, à inovação, sendo sua manifestação autônoma e independente de impactos econômicos maiores que a auto- empregabilidade.

De qualquer forma, torna-se mister a capacidade de desenvolver, atrair e manter indivíduos criativos, amparados por uma estrutura capaz de fornecer os incentivos necessários a sua atuação (FLORIDA, 2002; HARTLEY: 2005).