Para que seja possível traçar um panorama referente aos aspectos envolvidos com a adoção da sustentabilidade em cadeias, foram ainda levantados alguns motivadores envolvidos nessa questão. Da mesma maneira como no caso das barreiras, esses motivadores podem influenciar as organizações de maneiras diferentes, em função dos distintos contextos vivenciados e setores envolvidos.
Destaca-se que esses motivadores não foram levantados por revisão sistemática da literatura, e se basearam em estudo de Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012). Nesse estudo, os autores traçam um framework referente à gestão sustentável de suprimentos, e destacam diversas razões que impulsionam organizações a adotar esse tipo de prática, especialmente junto aos fornecedores. Além deste trabalho, foram ainda consultados alguns artigos seminais em GSCS, que também trazem algumas dessas justificativas. Os artigos selecionados, assim como os motivos que serão analisados, podem ser observados no Quadro 4, sendo posteriormente detalhados.
Motivadores Srivastava (2007) Carter, Rogers (2008) Seuring, Muller (2008) Pagell, Wu (2009) Ageron, Gunasekaran, Spalanzani (2012) Visão da alta gerência X X X Expectativas de consumidores X X X X Iniciativas de fornecedores X Natureza do negócio X Ações de competidores X X Cumprimento de legislação X X X X X Pressões de outros stakeholders (ONGs) X X X Redução de Custos X X Diferenciação de Produto X X
Visão da alta gerência
Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012) destacam a importância da atuação da alta gerência para que a sustentabilidade seja incorporada não só nas firmas, mas nas cadeias de suprimentos de uma maneira geral. As iniciativas em sustentabilidade e as estratégias corporativas devem ser interligadas, havendo um alinhamento do TBL com as estratégias de negócios, a partir de uma mudança de cultura e mentalidade (CARTER; ROGERS, 2008). Nesse contexto, para que a sustentabilidade possa ser vista como fazendo parte das estratégias de negócios, é fundamental que se tenha uma ação interessada dos CEOs envolvidos nas CSs, de forma a encorajar e apoiar as ações e decisões em sustentabilidade em nível gerencial (CARTER; ROGERS, 2008; PAGELL; WU, 2008; AGERON; GUNASEKARAN; SPALANZANI, 2012). Pagell e Wu (2008) ainda destacam que as responsabilidades em sustentabilidade devem fazer parte do trabalho de todos, começando pela alta gerência.
Expectativas de consumidores e natureza do negócio
Outro motivador importante são as expectativas dos consumidores, cuja demanda para que as firmas adotem ações sustentáveis em seus processos tem aumentado. Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012) apontam que essa pressão é significativa ao longo das cadeias de suprimentos, uma vez que são eles os maiores beneficiados com a criação de valor. Destaca-se ainda que os consumidores estão cada vez mais dispostos a pagar mais por produtos socioambientalmente adequados, o que pode ser visto como um estímulo à adoção dessas práticas (SRIVASTAVA, 2007; AGERON; GUNASEKARAN; SPALANZANI, 2012). Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012) ainda destacam que, quando empresas não tomam esse tipo de ação, podem sofrer boicotes por parte dos consumidores. Sendo assim, a adoção dessas práticas pode tornar as firmas mais atrativas aos clientes, resultando ainda em melhoria de imagem (CARTER; ROGERS, 2008).
Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012) também apontam que a natureza do negócio pode motivar a adoção de práticas sustentáveis. Desta forma, organizações que geram impactos ambientais, como as de transporte ou de químicos, podem adotar as práticas como uma forma de melhoria da imagem associada a seus produtos.
Cumprimento de legislações e Pressões de ONGs
É também importante destacar que todas as formas de controle do governo, seja em comunidades locais, nacionais ou multinacionais, são de grande relevância para a adoção da sustentabilidade (SEURING; MÜLLER, 2008). Ageron, Gunasekaran e Spalanzani (2012)
destacam que as pressões regulatórias exercem um importante papel na adoção de práticas sustentáveis, podendo afetar negativamente as firmas em função da aplicação de penalidades e multas àquelas empresas que não respeitarem a legislação. Nesse sentido, o engajamento proativo em práticas sustentáveis pode diminuir os riscos de novas e custosas regulamentações (PORTER, LINDE, 1995), e ainda se transformar em vantagem competitiva a medida antecipam requerimentos regulatórios, influenciando-os (CARTER; ROGERS, 2008).
Também se destacam nesse cenário a importância de Organizações Não Governamentais. As ONGs, por meio de suas ações, são capazes de desenvolver uma consciência socioambiental coletiva, podendo influenciar as percepções que a comunidade tem de determinada empresa, podendo levar a perda de reputação das firmas (SEURING; MÜLLER, 2008; AGERON; GUNASEKARAN; SPALANZANI, 2012). Carvalho (2012) destaca em sua tese a crescente influência das ONGs no monitoramento de empresas, para que atuem de maneira responsável. O autor destaca que essas organizações se beneficiam das novas tecnologias de informação para atuarem de forma interconectada, tornando cada vez mais difícil que empresas operem de forma velada.
Ações de fornecedores e competidores
As ações de fornecedores também constituem uma relevante motivação à GSCS, uma vez que representam um importante elemento para o sucesso da sustentabilidade (AGERON; GUNASEKARAN; SPALANZANI, 2012). Dessa forma, fornecedores podem colaborar com a indução da sustentabilidade nas cadeias a partir do uso de matérias primas menos danosas ao ambiente, ou ainda passíveis de reciclagem o reuso, podendo influenciar a empresa foco. Além disso, como já citado, cada vez mais as firmas tem estendido as questões de sustentabilidade a seus fornecedores, requisitando que esses possuam programas sociais e ambientais, ou ainda uma série de padrões e certificações (CARTER; ROGERS, 2008; SEURING, MÜLLER, 2008), como uma maneira de garantir que a sustentabilidade esteja sendo cumprida.
Além disso, destaca-se ainda as ações de competidores, que também podem influenciar na tomada de decisão de outras organizações com relação à sustentabilidade. Assim, quando as organizações competidoras superam as exigências mínimas impostas pelas legislações, ou atendem às expectativas de consumidores, podem melhorar seu desempenho sustentável, e ainda sua competitividade (AGERON, GUNASEKARAN, SPALANZANI, 2012).
Redução de custo e diferenciação
Carter e Rogers (2008) também abordam a importância da adoção dessas práticas visando-se a redução de custos. Dentre as atividades que se encontram na interseção dos três elementos do TBL - consideradas como sustentáveis – há uma série de vantagens econômicas associadas, como redução de custos com embalagens; redução de custos com saúde e segurança; redução de custos de trabalho; redução de absenteísmo; adequação proativa a regulamentações e melhor reputação organizacional (CARTER; ROGERS, 2008; CARTER; EASTON, 2011).
Esses mesmos autores também apontam que a diferenciação desses produtos desenvolvidos de maneira sustentável pode ser vista como um atrativo pelas organizações. Sendo assim, quando se combinam objetivos econômicos no desenvolvimento de estratégias de longo prazo para a sustentabilidade, as empresas são capazes de criar processos mais duradouros, e de difícil imitação por parte dos competidores (CARTER; ROGERS, 2008).