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Como inicialmente mencionado, um dos objetivos deste capítulo é elaborar uma interlocução entre os conceitos teóricos dos documentos com alguns aspectos

teóricos da TOPE. Desse modo, abaixo seguem conceitos linguísticos como

linguagem, língua, atividade epilinguística e metalinguagem, utilizados no embasamento teórico da construção dos PCN, os quais, muito embora não façam referência direta aos conceitos da teoria de Culioli, tangenciam as definições teóricas centrais para a TOPE.

3.2.2.1 Linguagem e Língua

Segundo as considerações dos PCN, a linguagem teria a função estritamente de interlocução, isto é, seria uma atividade discursiva, viabilizando a interação entre indivíduos por meio de práticas sociais existentes, como pontua o documento:.

linguagem aqui se entende, no fundamental, como ação interindividual orientada por uma finalidade específica, um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos de sua história. Os homens e as mulheres interagem pela linguagem tanto numa conversa informal, entre amigos, ou na redação de uma carta pessoal, quanto na produção de uma crônica, uma novela, um poema, um relatório profissional.” (BRASIL ,1998, p. 20)

Já a língua seria o sistema de signos específico de representação dessa linguagem, o qual permeado por aspectos culturais, possibilitaria a significação do mundo extralinguístico. Aqui, a língua também é relacionada à referenciação aos objetos do mundo. Nota-se, tanto na definição de língua como nas categorizações gramaticais, que há a relação com o empírico, isto é, entre forma e conteúdo.

Nessa perspectiva, língua é um sistema de signos específico, histórico e social, que possibilita a homens e mulheres significar o mundo e a sociedade. Aprendê-la é aprender não somente palavras e saber combiná-las em expressões complexas, mas apreender pragmaticamente seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas entendem e interpretam a realidade e a si mesmas.” (BRASIL ,1998, p.20)

Em comparação a essas definições, cabe aqui situar a perspectiva teórica escolhida para este estudo, a TOPE. Como já mencionado no capítulo 2 deste trabalho, para Culioli (1990, p.14, tradução nossa),

[...] a atividade de linguagem remete-se a uma atividade de produção e reconhecimento de formas, no entanto, essas formas não podem

ser estudadas independentemente dos textos e os textos não podem ser independentes das línguas112.

Sendo assim, diferentemente do que é proposto pelos PCN, a linguagem para a teoria em questão, não é somente um meio de comunicação, nem apenas um meio de interação. A linguagem é indeterminada por princípio, pois para a TOPE é um processo de equilibração interna. É uma sofisticação do mecanismo de equilibração entre o “eu” e o “outro”.

A língua por sua vez, em um esquema de interação de produções enunciativas, é a materialidade indeterminada da linguagem, ou, como afirma Rezende (2001 p.14), “são arranjos léxico-gramaticais” que apontam para alguns sentidos. Dessa forma, é somente o sujeito, ao representar o ato enunciativo, que conseguirá em um processo de equilibração com o outro, diferenciar as propriedades das noções semânticas. Nesse processo de equilibração com o outro, a atividade epilinguística de cada um dos enunciadores deliberará sobre as ocorrências de noção comuns dos enunciados, comparando, identificando, aproximando as paráfrases dos centros atratores, desambiguizando as ocorrências. Produzindo assim, por meio da metalinguagem, representações que serão acessíveis e compreensíveis a ambos.

3.2.2.2 Atividade epilinguística e Metalinguagem nos PCN

No tópico referente à reflexão gramatical, os PCN apontam que dentre todas as atividades linguísticas, a mais importante é a de

[...] criar situações em que os alunos possam operar sobre a própria linguagem [...] colocando atenção sobre similaridades, regularidades e diferenças de formas e de usos linguísticos, levantando hipóteses sobre condições contextuais e estruturais em que se dão.(BRASIL,1998, p. 28).

Essa atividade é denominada pelo documento como atividade epilinguística, uma questão central e como afirmado “a mais importante”. Entretanto, a explicação da natureza dessa atividade é colocada em uma nota de rodapé e, em todo o documento, é citada por apenas quatro vezes, sempre de forma muito incipiente.

De acordo com a definição inicial dos PCN “[...] por atividade epilinguística se entendem processos e operações que o sujeito faz sobre a própria linguagem (em

112 Trecho original em francês: [...] L’activité de langage renvoie à une activité de production et de

reconnaissance des formes, or, ces formes ne peuvent pas être étudiées indépendedamment des textes, et les textes ne peuvent être indépendants des langues.

uma complexa relação de exterioridade e interioridade)” (BRASIL, 1998, p. 28). Nota-se, ainda, que, nos referenciais, ao se desenvolver o raciocínio sobre o movimento existente entre a atividade epilinguística e metalinguística, a definição empregada ancora a atividade epilinguística em uma situação muito específica de reformulação, autocorreção e ressignificação de expressões.

A atividade epilinguística está fortemente inserida no processo mesmo da aquisição e desenvolvimento da linguagem. Ela se observa muito cedo na aquisição, como primeira manifestação de um trabalho sobre a língua e sobre suas propriedades (fonológicas, morfológicas, lexicais, sintáticas, semânticas) relativamente independente do espelhamento na linguagem do adulto. Ela prossegue indefinidamente na linguagem madura: está, por exemplo, nas transformações conscientes que o falante faz de seus textos e, particularmente, se manifesta no trocadilho, nas anedotas, na busca de efeitos de sentido que se expressam pela ressignificação das expressões e pela reconstrução da linguagem, visíveis em muitos textos literários. (BRASIL ,1998, p.28)

Deve-se constatar que essa definição sobre atividade epilinguística é restrita apesar de ser considerada fundamental aos PCN, isto é, há referência a Franchi (2006), mas sem a referência teórica da origem e da fundamentação do termo/conceito. Ainda assim, observa-se que, mesmo de maneira superficial, essa definição tangencia o que a TOPE propõe como atividade epilinguística. Como o objetivo deste subitem é fazer um paralelo entre os principais conceitos sobre linguagem, língua e análise linguística empregados nos documentos oficiais da Federação e do Estado em relação à teoria que é base deste estudo, serão expostas as definições e as explicações sobre atividade epilinguística pela TOPE.

Vê-se aparente similaridade conceitual entre PCN e TOPE, por exemplo, como é postulado no texto em um dos diálogos do livro Onze rencontres113, em entrevista à Claudine Normand, Culioli afirma que a formalização em linguística é ao mesmo tempo um interior e um exterior que pode ser formalizado. É um interior (atividade interna) que passa por uma exteriorização, ou seja, é a atividade epilinguística que se formaliza em metalinguística. Este movimento de fazer emergir pela metalinguagem o que está inacessível – o não consciente -, ao exterior, é que pode ser identificado com a atividade epilinguística nos PCN.

Já em outros textos de Culioli como em La linguistique: de l’empirique au

formel114, os distanciamentos conceituais aparecem de forma mais nítida, por exemplo, na situação em que autor afirma que o linguista ao trabalhar com as formas (textos-língua) faz aflorar uma atividade “metalinguística não consciente”, a qual pode ser denominada atividade epilinguística. Ainda, em outro texto La

formalisation em linguistique do Tome 1, Culioli afirma que “A linguagem é uma

atividade que se supõe ser perpetuamente uma atividade epilinguística (definida como atividade metalinguística não consciente)[...] 115”(CULIOLI, 1999b, p.19, tradução nossa).

Outros aspectos que são discrepantes em relação à definição de atividade epilinguística dos PCN em relação à TOPE, uma vez que não há referência nem citação direta do primeiro ao segundo, aludem à interpretação sobre as marcas que surgem na exteriorização metalinguística. A consideração sobre o que são essas marcas diverge entre o que é definido pela TOPE em comparação ao que é exemplificado pelos parâmetros. Enquanto essas marcas são somente manifestadas pelos PCN como trocadilhos, anedotas ou em ressignifações textuais, de acordo com a TOPE, são os rastros das operações quantitativas e qualitativas da linguagem expressas na produção de enunciados das línguas. Sendo essas as mais variadas possíveis, não se restringindo às situações especificadas pelos PCN.

Sobre a atividade metalinguística, esta é definida pelos parâmetros que a definem da seguinte maneira:

por atividade metalingüística se entendem aquelas que se relacionam à análise e reflexão voltada para a descrição, por meio da categorização e sistematização dos conhecimentos, formulando um quadro nocional intuitivo que pode ser remetido a construções de especialistas. (BRASIL ,1998, p.28)

Já para a TOPE, a atividade metalinguística pode ser empregada de duas maneiras. A primeira faz referência à constituição de uma terminologia técnica como a apresentada pelos parâmetros, isto é, determina um sistema de descrição. A segunda, por sua vez, é relativa às “[...] operações de representação e de construção da referência subjacente a um enunciado, por exemplo, à operação de

114

Culioli, 1990, p.18.

115 Culioli, 1999a, p.19. Trecho original em francês: Le langage est une actvité qui suppose, elle-

repérage [...]116"(GROUSSIER; RIVIÈRE, 1996, p. 118, tradução nossa) dentre as outras operações. Como afirma Rezende (2001) a atividade de metalinguagem é a de controle consciente, controle formal da atividade epilinguística.

Considerações finais

Ao se observar a proposta formativa dos PCN, vê-se a importância dada às conceituações teóricas que fundamentam todo o encadeamento da proposta e que, como consequência, apontam para o desenvolvimento da prática reflexiva da língua que será analisado a seguir. Diferentemente do que é apresentado nas gramáticas citadas neste e nos capítulos anteriores, os conceitos centrais que direcionaram a proposta de estudo gramatical (denominado como análise linguística pelo PCN) são expostos no documento.

Como inicialmente referido, os conceitos linguísticos, apesar de não terem referência direta à teoria culioliana, se tangenciam em alguns poucos momentos. Observa-se primeiramente, que a linguagem tem uma conceituação bem distanciada, pois é considerada um meio de comunicação nos PCN, por outro lado, é uma atividade, uma mecanismo sofisticado de equilibração para a TOPE.

Outro conceito chave também citado tanto pelos PCN como pela TOPE é a atividade epilinguística. Existe um ponto aparente de similaridade entre as conceituações, principalmente ao se pensar que é uma atividade interior que pode ser formalizada, porém, as aproximações não se ampliam. A teoria culioliana apresenta um aprofundamento acerca dessa questão, o qual aponta um distanciamento fundamental ao se postular a atividade epilinguística como uma atividade não-consciente.

De qualquer modo, apesar dos distanciamentos teóricos, fato é que o documento oficial se preocupa, uma vez que tem a indicação formativa, em expor aos professores os eixos norteadores que embasam as discussões teórico-práticas.

116 Groussier, M.L; Rivière, C. 1996, p. 118. Trecho original em francês; […] les operations de

représentations et de construction de la référence sous-jacentes à un énoncé, par example, l’óperation de repérage symbolisée par l’opérateur epsilon est une opération métalinguistique.

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