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Chapter 6 Discussion and Conclusion

6.2 Conclusion

Alguns afirmam que Reidy é o mais influenciado por Le Corbusier, Freqüen­

temente pensou em chamá-lo para fazer projetos, como o centro cívico da espla­ nada de Santo Antônio e Brasilia. Ele se considerava um discípulo de Le Corbusier?

t

difícil dizer isso publicamente, mas vou falar. No século X a profissão de arquiteto passou a ser extremamente delicada, pois pensar a cidade, essa nova moda­

lidade da prática da arquitetura, significa pensar escalas. Na Bauhaus. por exemplo, produzia-se desde desenho de objetos quotidianos, como cadeiras e talheres, até fábri­ cas, casas e museus; mobilizando, aSSim, diferentes escalas de concepção.

Dos arquitetos brasileiros, Reidy era o que estava há mais tempo tentando conceber em escala urbana, e talvez tivesse sido a pessoa mais preparada para desen­

volver o projeto de Brasllia. Não que o do Lúcio Costa não se sustente; é muito bom, sob

certos aspectos, mas sua experiência com dimensões de escala urbana era um pouco mais tênue do que a do Reidy. Por ser funcionário municipal desde a época de estagiário

do Agache, Reidy tinha uma consciência mais aguda da omplexidade do desen­ volvimento de projetos nessa escala. A oscilação na atividade projetual entre a manu­ tenção do que já é norma e o desvio para o novo era um exercício a que estes arquitetos

já estavam relativamente habituados. Do mesmo modo que aos sucessivos deslo­

camentos na passagem da teoria para o desenho, e deste para a forma. Em outras palavras, esse ir-e-vlr já havia alcançado um alto grau de complexidade nas obras de arquitetura de Oscar Niemeyer e de Lúcio Costa. Mas o Reidy, sem abdicar desse exercício

aerto em relação ao método, introduzia ainda uma nova complexidade a essa operação, aQ enfrentar diretamente como profissional a dimensão urbanística. De todos eles, era o

o desmonte do morro de Santo

Antônio abriu espaço para o projeto de urbanizaçao e construçáo de prédios da

administração da prefeitura do Distrito Federll O projeto de Reidy, que acabou nào sendo realizado, previa a abertura t duas avenidas. uma delas elevada. Que � ruzariam na esplanaa de Santo Mttt. Sibilitando a aticulação entre as n.

norte, centro e sul da cidade. O projeto,

. . baixa ocupaç�o e renta�lidade, foi mot1a de dlvergêncías com o prefeito Mendes Moraes e levou Reidy a abandonar a direçAo do Departamento de Ulb:mlSlO

Nele estava previsto um centro cívico,

composto do prédio da prefeitura, da

Camlra, museu, biblioteca e auditório. •

plte comercial Quatro blocos de 26

pavimentos para e<rio� e pQuns

edifíCIOS com CInemas, teatros e restaurantes A zona habitacional era composta por uma unidade de 12

pavimentos. para cerca de 8 mil �lnS

e escolas, centros de saúde. clube. A

existência de grandes espaços livres

possibilitada pelos altos prédios oOO� i

criaçM de áreas para circulaç�o e 'ClQ

da popula1o moradora e daquela que

teria que trabalhar no Centro Neste projeto estavam reunidos todos os

do que e considerava o padrAo de urbamsmo das ddades modernas

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Imagens do desmonte do Morro de Santo Antônio.

Margareth da Silva Pereira .

que mais havia estudado o planejamento das cidades e talvez fosse o que mais tenha acompanhado a evolução desse tema entre 1 930-1 950, basta pensar nos projetos da Esplanada do Castelo (1 938); de Santo Antônio (1 948-49); do Centro Tecnológico da Aeronáutica (1 947) e os conjuntos habitacionais para o Pedregulho (1 946); Catacumba ( 1 951) e Gávea (1 952).

Reidy critica o edital do concurso de Brasília, afirmando que o processo não era sério, pois quatro meses era um tempo insuficiente para a elaboração do projeto. Qual a verdadeira razão de sua recusa em paticipar do concurso?

Acho que os personagens ainda vivos não falarão sobre o assunto, mas é importante registrar a grande divergência, a espécie de secessão que dispersou essa tríade, em certo momento. Lúcio Costa tinha chamado dois alunos talentosos para compor o grupo do MEC: Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy; um era recém­ formado e o outro estava terminando a faculdade. Esse grupo caminhou mais ou menos junto até certo ponto, quando se dissolve e cada um passa a tomar seu caminho. Devem ter acontecido coisas graves, divergências profundas: ideológicas, existenciais, políticas. Na verdade, a história da arquitetura no Brasil apenas engatinha, seja para entender a longa tradição de construção de cidade no país, seja para compreender momentos da nossa história mais recente, como as diferentes formas de pensar a cidade e a vida em coletividade com a redemocratização do país em 1 945. Uma pessoa não se torna arquiteto de um dia para o outro. Estudando certas trajetórias é possível obselar como um arquiteto vai crescendo, formando suas convicções, mudando-as, moldando-as, amadurecendo, criando sua obra, às vezes num contínuo embate consigo mesmo, com as questões do seu tempo, com o que consegue estabelecer em comum com seus pares. Tem a questão da sua visão de mundo e de arquitetura que é central; tem a questão política; tem o rigor que exige de si próprio, tem o problema do método, da escala em que seu talento ou sua competência se exercita mais plenamente . . . são tantas as dimensões que permeiam uma obra e um grupo de atores que estão envolvidos em uma dada situação histórica . . .

Em seu livro sobre Burle Marx, Laurence Fleming afirma que Reidy envolveu-se com o projeto de Brasília a convite do marechal José Pessoa, presi-

8 Laorence Fleming, '966. dente da comissão de localização da nova capital.8

• o sonho utópico: R:i y e os modernos

Desde 1954, 55, o Reidy já estava envolvido no assunto O marechal José Pessoa o convidou para planejar a nova capital. Com sua trajetória, como funcionário municipal. diretor do Dep3tamento de Urbanismo da prefeitura do Distrito Federal em várias ocasiões, tendo participado de concursos para projetos arquitetônicos, era natural que o convite para planejar Brasília recaísse sobre o Reidy, pessoa habituada a pensar e traba­ lhar em escala urbana Acho que ele convidou O Le Corbusier para participar justamente porque estava temeroso diante do tamanho do desafio, da responsabilidade de construir uma cidade. Não se projeta uma cidade sozinho, é preciso agregar outras competências, você vai querer ouvir outros arquitetos que já pensaram naquele assunto. Por isso, acredito que a responsabilidade histórica da construção de Brasllia é que, mais do que qualquer relação de subserviência intelectual, está na raiz do convite a Le Corbusier

Quando Juscelino Kubitschek assume a presidência da República, decide fazer o concurso, como se sabe. E o Reidy considerou falho o edital do concurso, como de fato

era, pois ele era um urbanista como raros arquitetos podenam se considerar, naqueles

anos Problemas como o da internalização da capital, a disposição dos prédios públicos

sem que se planejasse um centro cívico para a cidade - o centro cívico era uma discussão importante em todo o mundo naquela época, entretanto estes pontos pareciam estar ausentes das preocupaçóes do edital, por exemplo. Por outro lado, como apontam al­ guns contemporâneos que entrevistei, no caso de ser escolhido como urbanista, existiam também suas dificuldades de relacionamento profissional com Oscar Niemeyer, já desig­ nado por Juscelino como o arquiteto para as obras da nova capital

Reidy teve alguma convivência com arquitetos que não petenciam ao grupo dos modernos? Atilio Corrêa Lima, por exemplo, ou mesmo Sabóia Ribeiro, que faz inúmeros projetos para o centro da cidade nos anos 30?

Até determinado momento, esse grupo todo e freqüenta, até porque não era muito grande. Evidentemente deve ter havido disputas profissionais, políticas e ideológicas. Sabemos que o Reidy trabalhou com o Jorge Moreira, com o Burle Marx, com Niemeyer até certo ponto, depois se afastam.

O grupo do MEC deve ter selado, a partir de 36, uma amizade entre o Reidy, Jorge Moreira e o Burle Marx, que ficaram muito próximos Por exemplo, na mesma época em que o Reidy está trabalhando no projeto para o concurso do Centro Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, o Burle Marx está muito próximo dali, construindo jardins para a fábrica dos Cobertores Parahyba, que era da família do Severo Gomes. Dez anos depois, o Burle Marx está ao lado do Reidy demarcando o local para a constituição de Brasilia. Essa amizade foi, de fato, muito estreita.

Uma pessoa fundamental na trajetória de Reidy foi sua mulher, a engenheira Carmen Potinha, Como a senhora analisa a influência de Carmen?

A engenheira e urbanista Carmen Portinha é um dos mais fortes exemplos do papel que a mulher passa a querer desempenhar, e desempenha, na sociedade moderna. A busca da igualdade de direitos entre classes, entre sexos, o respeito à contribuição social já dada pelos idosos e a ser dada pelos jovens; o desejo e o desafio de fazer da

Atílio Corrêa Lima (1901-1943)

formou-se arquiteto pela Escola NaCional de Belas Anes em 1925 e fez o curso de urbanismo no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris: em seguida, s . uml�

a cadeira de animo na Escola <lonil

e Belas Ats Entre seus traalhs o sudo da remo elação e NiterÓI e o Plano RegIOnal e do Vale do Paraiba, além do projeto da

estação de passageiros de hidroavK>es no aeroporto Santos Dumont Foi também um dos pioneiros do paisagismo no eral

Sabóia Ribeiro (1889-1967) era engenheiro civil formado pela Escola eli

técnica do Rio de Janeiro (1930)

Participou da Comissao do Plano da Cidade do Rio de Janeiro (1935) e traba­ lhou como engenheiro da anuga Inspe­ toria de Águas e Esgotos (1936) Em foi nomeado prefeito de São Luís (MA) Foi professor na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, criada em 1 945. onde veio a 5�t (de­ nadO( do curso de Urbanismo l1lOO.o s rabalhs para a locação da Universitâria a ue e da Comião

tiva de Urbanismo do Distrito Federal. realizano s primeiro. studs da t nada de Santo AntOnio Foi diretor do Departamento de Parques e Jardins da Prefeitura do Distrito Federal (1961) e diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil (1 964-67), Ver, a respeito. Maria Cristina da Silva Leme, 199

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Construção do MAM, março de 1956

Ao fundo Palácio Monroe e prédio da Mesbla

MargarPh a S,I"a Pereira .

vida uma experiência justa e plena são lutas inerentes ao movimento moderno. O direito

à cidade, aos seus bens e aos seus benefícios foi uma luta de Carmen Portinho Ela foi, desde muito jovem. modema como alguns indivíduos de seu tempo mas, sendo mulher,

essa sua atitude tem outro significado e abre caminho para sucessivas gerações de

profissionais mulheres No plano estritamente profissional, no meu modo de ver, Carmen Portinho influenciou o Reidy pelo menos em dois pontos: no aspecto plástico e na dimensão pública Primeiro, ela fez com que ele pensasse sempre na questão estrutural do projeto, esse lado mais positivo e da racionalidade da arquitetura

o fato de ela ser engenheira deve ter contribuído, pois não basta o projeto ser boníto, tem que ficar em pé.

Sim, essa preocupação a Carmen sempre alimentou no Reidy: o lado constru­ tivo. E o segundo aspecto, que faz aquele casamento ser muito bonito, é a dimensão pública; ambos eram pessoas movidas por convicções. A Carmen era muito competente na negociação polltica de suas idéias e deve ter ajudado muito o Reidy nisso. Na verdade.

todo projeto exige também competência no convencimento; isto é, o arquiteto tem que ter uma certa competência na defesa pública e política de sua proposta. Nabil Bonduki

salienta que, sem ela, realizações como o MAM, que demoram, exigem longas tratativas, têm avanços e recuos, não teriam sido possíveis O Reidy era tão firme quanto ela nas convicções, mas era uma pessoa mais cristalina; às vezes ele se recusava a negociar, como quando pediu demissão do cargo de diretor do Depatamento de Urbanismo porque não teve sua idéia para a área do Santo Antônio aprovada pelo prefeito Mendes

de Morais.

• o nho utópico: Reidy e os modernos

Depois de 1937, é um governo autoritário que vai dar espaço e con­ sagrar os arquitetos modernos. Sem a clarividência do ministro Capanema, como registra a memória da arquitetura brasileira em livos como o de Henrique Mindlin, ou a possibilidade de tomar decisões sem qualquer consulta, não teria

havido o prédio do MEC, e os modernos não teriam tido o poder que tiveram.9 9 Henique M;ndHn, 1999 Certamente o grupo moderno teve em Capanema um apoio, apoio visto

retrospectivamente ora como decisivo - e o foi - ora como autoritário - e também o foi. Mas em nosso livro Le Corbusier e o Brasil, por exemplo, já mostrávamos que esso noção de clarividência precisava ser relativizada e que essos afirmações nem sempre slo tão critalinas. 10 Precisamos avançar mais no estudo de aspectos da história social e cultural no Brasil precisamente no período 1 930-45. O poder que os modernos tiveram durante o Estado Novo não foi grande. Depois de 45, tem fatores estratégicos de política interna­ cional, tem a guerra fria, mais uma vez é preciso olhar o assunto de vários ângulos. Novamente temos que pensar em termos de escala, Vejamos a questão no Estado Novo. Uma coisa é resolver o prédio do MEC, um edifício, Outra, muito mais complicada, foi o

problema que o Capanema enfrentou para realizar, por exemplo, o projeto da Cidade

Universitária do Brasil - basta pesquisar seu arquivo no Cpdoc. Ali já era outra escala de

negociação, envolvendo tempo e atores diferentes. Imaginem agora um plano de cidade, independentemente de regimes políticos, abrangendo questões fundiárias, interesses econômicos, empresas instaladas e que terão seu capital e seus serviços otimizados, de acordo com o rumo que tome a decisão do poder público. São escalas distintas. Em termos

urbanísticos não se pode dizer que a facção mais moderna dos modernos teve poder.

Além disso, uma coisa é planejar uma cidade num terreno vazio, outra é o urbanismo numa cidade com quase 4.Oanos, com todos os interesses, abso­ lutamente legítimos, dos grupos da sociedade, Assim, os modernos precisavam muito do apoio estatal pois, sem ele, nem mesmo s prédios teriam sido construídos. Certamente.

t

nesse sentido que o Reidy (e a Carmen Potinha) tinham não só

uma experiência em escala urbana, mas um contato com a multiplicidade de interesses

que regem a Vida de uma cidade muito maior do que os outros. Ele esbarrava nas coisas concretas da sociedade. A presença do poder público se faz necessária a partir de uma determinada escala de intervenção; isso as vanguardas européias começaram a perceber já no final dos anos 20. E o Reidy vai perceber isso de dentro da administração pública; para ele, que está pensando em urbanismo, o importante era considerar a arquitetura não mais isoladamente, mas como pate de um modo de funcionamento social din�mico, e por ISSO a presença do poder público era fundamental.

10 Ccilia Rodrigs o . Santos, Margareth Campos da Silva Pereira.

Rom)o Veano da Silva Pereira � Vaco

Caldeira da Silva, 1 987

o Pedregulho é um monumento, um dos