Chapter 5: Conclusion, limitations and further research
5.1 Conclusion
Desde meados dos anos 80, não apenas no Brasil, mas também em outros países, o renascimento gradativo do associativismo e da cooperação entre trabalhadores no campo econômico como uma superação do modo de produção capitalista e das
59 formações sociais que lhe são próprias vem se expandindo (SINGER, 2002; FRANÇA FILHO, 2002; GAIGER 2003; CRUZ, 2004; GALLO et al, 200-).
No Brasil, enquanto o movimento de Economia Solidária ganhava força no seio de campanhas como a Ação da Cidadania contra a Fome em 1992, liderada pelo sociólogo Betinho, no Rio de Janeiro, o questionamento sobre a função social das universidades e para que de fato servia a tecnologia por elas pesquisada também crescia significativamente e não demorou para que esse entrelaçamento viesse a acontecer:
A consciência de que a mera ação de distribuição de alimentos teria que ser ampliada com iniciativas visando era gerar trabalho e renda deu origem, também no Rio de Janeiro, a uma parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz e a Universidade de Santa Maria, do Rio Grande do Sul, onde se ministrava um curso de cooperativismo com o objetivo de criar uma cooperativa a Cooperativa Manguinhos formada por pessoas que moravam em favelas nas vizinhanças da Fiocruz (DAGNINO, 2002).
Foi a partir dessa iniciativa que um grupo de professores, alunos e funcionários, pensando em uma alternativa em relação a dois programas clássicos de combate ao desemprego financiados pelo governo federal - incubadoras de empresas e os programas para qualificação para o trabalho – criaram em 1995 a primeira Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) como um programa de extensão universitária do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Por meio do suporte à formação e desenvolvimento, ou incubação, de empreendimentos solidários autogestionários, a ITCP foi concebida como um centro de tecnologia que tornaria disponíveis os conhecimentos e os recursos acumulados na universidade pública para gerar alternativas de trabalho, renda e cidadania para indivíduos e grupos em situação de vulnerabilidade social e econômica; a metodologia de incubação das ITCPs e a tecnologia social gerada por esse trabalho logo seriam difundidas como referência para outras universidades num movimento reforçado pela Rede de ITCPs, inicialmente ligadas à Rede Unitrabalho (CRUZ, 2004; DAGNINO, 2002; PRONINC/FINEP, 2016).
O conceito de ITCP deriva da mesma ideia de incubadoras de empresa, porém assumem contornos e organização diferentes a partir das atividades de extensão universitárias (FRAGA, 2012). França Filho e Cunha (2009) também apontam diferenças entre a incubação de empreendimentos solidários e a incubação empresarial como: ser voltado para a baixa renda, estar organizados em pequenas cooperativas que
60 não estão de fato abrigadas nas instalações das incubadoras, não haver taxas e por fim abarcar preferencialmente empreendimentos solidários, incitando a constituição de processos de autogestão nas iniciativas criadas.
Dagnino (2002) demonstra que, apesar do movimento das ITCPs ser coerente com a ideia de que a universidade pode e deve servir a todos, algumas questões institucionais importantes revelavam-se em desafios para suas práticas, como por exemplo, como o conhecimento já produzido deveria ser servido às camadas populares? Esse conhecimento científico e tecnológico gerado não está mais orientado para as grandes empresas do que para as necessidades que a sociedade demanda? E por fim, será que a universidade é capaz de promover uma reflexão teórica que permita uma verdadeira inserção da sociedade no debate acadêmico e na sua agenda de pesquisa mais do que a sua simples inserção no campus?
Isto porque a ideia de transferência de conhecimento sempre esteve presente na relação entre universidade e a sociedade, estando também na origem do termo extensão; a concepção de que a universidade é detentora do saber, único, verdadeiro, iluminado que, por um lado, deveria ser transferido à população e, por outro, deveria ser colocado para assisti-la com o provimento de algum serviço está na sua prática (FRAGA, 2012, DAGNINO 2002, 2004; ALMEIDA, 2010).
Embora Fraga (2012) não discorde sobre as afirmações que remetem a eficácia das ITCPs, que levam inúmeros efeitos positivos no esforço da universidade ao se colocar a serviço das classes populares, a autora questiona a falta de reflexões mais elaboradas na literatura a partir de uma crítica interna dos seus impactos de maneira sistemática. Chama a sua atenção: a) o debate da sustentabilidade dos grupos incubados, ressaltando que aparentemente, como política pública, a incubação não está sendo suficiente para a desejada inserção econômica desses trabalhadores; e b) o debate metodológico, observando dois tipos de incubadoras, uma com atuação mais técnica, com divisão em núcleos disciplinares em detrimento a equipes multidisciplinares - que, segundo a autora, parece ter perdido força - e outra com atuação mais política, combinada à formação técnica, liderada por Paul Singer.
Para Dubeux (2004, apud FRAGA, 2012) o caráter ofertista da tecnologia e do conhecimento continua como traço marcante de ambos os debates metodológicos, isto porque a ideia de transferência de conhecimento ainda está presente nas ITCPs, em parte pela contradição de que se deve possibilitar o acesso dos empreendimentos incubados ao conhecimento gerado na universidade, porém sem impô-lo, respeitando os
61 saberes populares e promovendo trocas de saber. Mais recentemente, a autora concorda que as Incubadoras vêm avançando bastante em termos de práticas e metodologias de incubação que parecem consolidar um novo tipo de tecnologia, uma tecnologia social que está mais voltada para o processo do que para o produto e que “expressa uma concepção de intervenção social que é inclusiva em todos os seus momentos; uma forma participativa de produzir conhecimento, de fazer C&T” (DUBEUX, 2007, p. 13).
Todavia, uma análise de Santana (2012) sobre os projetos de extensão universitária, direcionados à Economia Solidária a partir de quatro ITCPs, observou que, embora elas apresentem uma rica proposta extensionista, capaz de construir possibilidades concretas de uma práxis transformadora, a implementação dessas ações revelou, entre outra coisas, uma visão metodológica de incubação simplesmente resumida às técnicas.
Fraga (2012) também demonstra evidências em seus estudos de que tradicionalmente essa extensão universitária, mesmo que com alguns avanços, ainda vem atuando mais na transferência de conhecimento do que na sua construção coletiva. Para a autora, “mais do que afirmar que o processo de incubação é dialógico e respeita o saber popular (...), é preciso trocar experiências sobre as dificuldades em ser dialógico” (FRAGA, 2012, p. 143).
Muito antes dessas publicações, Cruz (2004) já ressaltava que era preciso observar esse tipo de dados com cuidado antes de se fazer críticas sobre as metodologias das ITCPs, já que a maior parte das pesquisas exploratórias não representa o todo da ação por contemplarem uma ou outra ITCP mais conhecida, o autor concorda que as diferenças regionais das comunidades atendidas, as diferenças institucionais das várias universidades e as diferentes perspectivas teórico-metodológicas dos atores envolvidos levaram ao aparecimento de diferentes processos; mais importantes do que criticá-los é entender as suas diversas estruturas e metodologias, não para criar uma “metodologia única”, mas para aumentar o debate e o diálogo entre elas.
Gallo et al. (200-) também ressaltam que a inserção das cooperativas em uma sociedade herdeira de deficiências educacionais e tendo que lidar com contextos autoritários, preconceituosos e burocráticos, não deixa de ser um problema que deve ser enfrentado de forma pragmática, porém, para Fraga (2012), uma condição importante para aqueles que se propõe a trabalhar com interesses populares a partir da universidade é não cair na armadilha da crença de um saber tecnocientífico neutro, objetivo, fora das contradições da sociedade; citando Thiollent (2002, apud FRAGA, 2012), ainda que
62 nem todos os projetos de extensão atuem de maneira emancipatória, este é um ideal a ser perseguido.
Outro problema relatado por Dubeux (2007) no processo de afirmação das incubadoras, tão complexo quanto sua conceituação e metodologia, está na sua institucionalização e financiamento; para a autora, o reconhecimento amplo do Ministério da Educação, pelos diferentes departamentos e centros acadêmicos e pela administração central da universidade, é o caminho para que as incubadoras tenham seu próprio orçamento, sua própria equipe e não fiquem a mercê da aprovação de editais para o financiamento das ações de incubação como um laboratório vivo de integração entre a pesquisa, o ensino e a extensão.
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