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Durante os últimos anos a comunidade científica tem avaliado diversas modificações nos critérios para aceitação das bioisenções, fundamentando-as em comprovação científica para tais modificações (GUPTA et al., 2006).

Os critérios que definem alta solubilidade requerem que a concentração mais alta do fármaco seja solúvel em 250 mL de meio aquoso, ou menos, dentro da faixa de pH de 1,0 – 7,5. Esta faixa de pH tem sido considerada muito conservadora e desnecessária segundo alguns autores (YU et al., 2002).

O trabalho de Yu e colaboradores (2002) sugere que a faixa de pH referente ao critério de alta solubilidade seja alterada de 1,0 – 7,5 para 1,0 – 6,8; uma vez que esta última faixa é mais relevante considerando as modificações de pH ao longo do trato gastrintestinal superior (LENNERNNÄS; ABRAHAMSSON, 2005).

O volume de 250 mL também tem sido considerado conservador pela comunidade científica. O volume fisiológico do intestino delgado varia entre 50 a 1100 mL, com média de 500 mL sob condições de jejum. Quando administrado com um copo de água, o medicamento é imerso em aproximadamente 250 mL de líquido no estômago. Se o fármaco não estiver em solução no estômago, o esvaziamento gástrico irá levá-lo ao intestino delgado e o restante do fármaco que ainda estiver sólido será dissolvido pelo efeito dos fluidos do intestino delgado. Devido à alta variabilidade de volume no intestino delgado, seria difícil estabelecer uma definição mais apropriada dos critérios de volume que definem alta solubilidade (YU et al., 2002).

Outro fator que pode influenciar a solubilidade in vivo é a solubilização de fármacos que ocorre com os sais de bile. A solubilidade intestinal é muito importante

uma vez que o intestino corresponde à região de absorção para a maioria dos fármacos (YU et al., 2002).

O potencial para definir uma classe de solubilidade intermediária para os fármacos da Classe II foi pesquisado por YAZDANIAN e colaboradores (2004) e neste trabalho os autores sugeriram que a definição de alta solubilidade, presente no guia de bioisenção da FDA, é muito rigorosa para fármacos que são ácidos fracos. Essa proposta foi baseada no fato que diversos antiinflamatórios não esteroidais, como naproxeno e cetoprofeno, apresentam boa absorção, mas seriam classificados como fármacos da Classe II.

Ocorre que tanto o naproxeno como o cetoprofeno são fracamente solúveis no estômago, mas são altamente solúveis nas porções distais do intestino, chegando a apresentar biodisponibilidade absoluta de 90%, portanto, exibem comportamento semelhante ao dos fármacos de Classe I (YAZDANIAN et al., 2004).

Rinaki e colaboradores (2004) identificaram que as bioisenções podem ser aplicáveis para produtos de dissolução rápida (> 85% em 30 minutos usando USP aparato I ou II em um volume < 900 mL de solução tampão) contendo fármacos da Classe II com propriedades de ácidos fracos e que demonstrem alta solubilidade em pH 6,8 e baixa solubilidade em pH 4,5 ou 1,2.

De acordo com essa linha de pensamento, a solubilidade limitada de um fármaco em meio ácido não é fisiologicamente relevante, sendo que a solubilidade em pH maior que 5 é mais apropriada uma vez que a maioria dos fármacos são absorvidos principalmente na região do intestino (RINAKI et al., 2004; YAZDANIAN et al., 2004).

Com base nestas características, foi sugerido que fármacos com baixa solubilidade no estômago e alta solubilidade no intestino possam ser elegíveis para as bioisenções (RINAKI et al., 2004).

Maiores oportunidades para fármacos da Classe II serem incorporados à Classe I estão baseadas na escolha do meio de dissolução simulando uma situação fisiologicamente relevante in vivo (TUBIC-GROZDANIS; BOLGER; LANGGUTH, 2008).

Em um estudo utilizando tecnologia de simulação gastrintestinal como ferramenta para recomendar as extensões de bioisenções para alguns fármacos da Classe II, foram realizadas simulações para avaliar como as diferenças na dissolução

podem afetar a biodisponibilidade de fármacos da Classe II. Mesmo apresentando diferenças na dissolução, os perfis farmacocinéticos resultantes ainda poderiam ser considerados bioequivalentes, justificando, então, uma isenção de estudos de bioequivalência também para os fármacos da Classe II (TUBIC-GROZDANIS; BOLGER; LANGGUTH, 2008).

Segundo os autores do trabalho acima referido, os ácidos e bases fracas da Classe II, em formas farmacêuticas de liberação imediata, podem ser elegíveis para bioisenções, desde que a dose dissolva completamente antes de atingir a porção média do jejuno (TUBIC-GROZDANIS; BOLGER; LANGGUTH, 2008).

Em um outro trabalho, o conceito de bioisenção para fármacos da Classe II foi aplicado utilizando a carbamazepina como fármaco modelo (KOVACEVIC et al., 2009).

A carbamazepina é um fármaco antiepiléptico, amplamente utilizado, que apresenta baixa solubilidade e alta permeabilidade, sendo, portanto, da Classe II. Além de sua baixa solubilidade, possui índice terapêutico estreito, bem como tem características de fármaco de alta variabilidade, o que proporciona obstáculos para a sua substituição por medicamentos genéricos (KOVACEVIC et al., 2009).

Os autores do trabalho propuseram investigar a possibilidade de bioisenção para uma formulação de carbamazepina de liberação imediata, com a utilização de fluido gastrintestinal simulado como meio de dissolução que pudesse ser preditivo do comportamento do fármaco no trato gastrintestinal. O fluido gastrintestinal simulado foi usado para prever as seguintes condições: (a) fração de dose absorvida e (b) perfis de concentração plasmática versus tempo verificados com os diferentes tempos de dissolução. A justificativa da bioisenção foi fundamentada na extensão pela qual os perfis simulados in vivo foram afetados pelas diferentes velocidades de dissolução observadas in vitro (KOVACEVIC et al., 2009).

Os resultados demonstraram que o perfil plasmático simulado era quase idêntico ao observado in vivo, no entanto, a velocidade de dissolução se apresentou mais elevada. Tal fato está em concordância com os dados de literatura, os quais relatam que produtos à base de carbamazepina com cinéticas de dissolução diferentes, demonstraram ser bioequivalentes (KOVACEVIC et al., 2009).

A metodologia proposta para a simulação com fluido gastrintestinal e correlação

in vitro – in vivo sugerem que existe coerência na consideração de uma extensão da

bioisenção. No entanto, outros fatores devem ser levados em consideração para a aceitação da bioisenção, como o fato do fármaco possuir índice terapêutico estreito e ser de indicação clínica vital. Nesse tipo de caso, deve haver uma avaliação do risco associado a uma falha terapêutica e a ocorrência de eventos adversos dose- dependentes (KOVACEVIC et al., 2009).

O documento da OMS “Multisource (generic) pharmaceutical products: guidelines

on registration requirements to establish interchangeability” (Annex 7) também

estabelece que o critério de alta solubilidade deva ser medido dentro da faixa de pH de 1,0 – 6,8 (WHO, 2006b).

Trabalhos recentes conduzidos pela comunidade científica concluíram que há necessidade de obtenção de métodos de dissolução mais robustos antes de se recomendar amplamente a bioisenção para fármacos da Classe II (POLLI et al., 2008).

A dissolução de formulações contendo fármacos da Classe II pode requerer a adição de lauril sulfato de sódio ou outro tensoativo para simular a solubilização in vivo. Apesar de os meios de dissolução que contenham concentrações variadas de tensoativos serem adequados para o controle de qualidade, isso não é suficiente para a previsão da dissolução in vivo. Há necessidade de maiores estudos que desenvolvam meios de dissolução que reflitam as condições in vivo (YU et al., 2002).

Durante o Workshop sobre o Sistema de Classificação Biofarmacêutica, realizado entre 21 e 23 de Maio de 2007 nos Estados Unidos, foi relatado que uma quantidade significativa de novos fármacos em desenvolvimento apresentam uma tendência de serem classificados como sendo de Classe II. Essa perspectiva implica que serão necessárias pesquisas adicionais a respeito da Classe II, incluindo uma reconsideração sobre os limites que definem alta ou baixa solubilidade (POLLI et al., 2008).

Uma questão que merece uma discussão mais ampla está relacionada com os efeitos da formulação, ou seja, como as mudanças na formulação podem afetar a classificação dos fármacos de maneira a interferir com o SCB? (POLLI et al., 2008).

5.3.2. Modificação dos limites de permeabilidade