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De acordo com Fachada (2010), “uma das exigências fundamentais para que as relações interpessoais se tornem progressivamente ricas, positivas e maduras, é a necessidade de compreensão de si próprio e dos outros.” (p.107)

Gostaríamos ainda de sublinhar, que numa relação interpessoal é extremamente importante que o eu, o sujeito humano que é uma pessoa, terá diante de si um outro sujeito humano, outra pessoa, o mais inteligente, livre e responsável possível que o reconheça ao mesmo nível em que ele próprio reconhece, confirma e aceita o outro em toda a sua dignidade e com todas as suas possibilidades e autonomia. Isto é, aceitar o outro como ele é, de um modo positivo e incondicional, ser capaz de se colocar no seu lugar, confirmá-lo em todas as suas virtudes actuais e potenciais. (Tavares, 1996)

3.2 As qualidades e atributos das relações interpessoais

Para compreender melhor as relações interpessoais, será necessário conhecer as características que as integram, as suas qualidades e atributos, que já tivemos oportunidade de mencionar ao longo deste trabalho, mas que agora iremos especificar segundo Tavares (1996).

Assim começaremos pela entreajuda que procura ajudar mais no sentido de criar ou possibilitar uma margem de liberdade e de espaço para evitar obstáculos e sentir-se permanentemente mais seguro e informado através de um acompanhamento sistemático para resolver por si próprio os problemas que vão surgindo. Para Tavares (1996) “ É através da compreensão este tipo de relações que se consegue entrar verdadeiramente dentro das pessoas, senti-las, compreendê-las pelo lado de dentro, respeitá-las, amá-las, desenvolver atitudes verdadeiramente empáticas.” (p.55)

A reciprocidade constitui outra qualidade do relacionamento interpessoal e tal como nos diz Tavares (1996) “(…) pressupõe respeito, aceitação do outro como ele é, uma pessoa em desenvolvimento a tornar-se mais pessoa; pressupõe atenção, justiça, cuidado pelo outro, autenticidade, verdade, liberdade, amizade (…)” (p.57) e onde também está presente a ajuda e deixar-se ajudar, ou seja, a melhor forma de ajudar é poder ser ajudado. Pressupõe uma comunicação entre duas pessoas de modo franco, aberto, espontâneo e nos dois sentidos, isto é, a pessoa dá e recebe na mesma medida e vice-versa.

A assimetria também se apresenta como uma das qualidades da relação interpessoal que implica um grau de elevada interdependência, de partilha, de troca e de discussão de concepções e de práticas que possibilitam o desenvolvimento de uma relação formativa de colaboração.

A dialecticidade vem confirmar e reforçar a qualidade anterior, ou seja, “uma relação para ser dialéctica exige que os dois pólos da mesma se mantenham firmes um diante do outro, confirmando-se um ao outro numa verdadeira relação dialogal, recíproca e assimétrica, mas sem se diminuírem, reduzirem ou anularem.” (Tavares, 1996, p.58) O mesmo autor refere ainda que a dialecticidade deve proporcionar uma relação “em que os dois sujeitos da relação se apresentam e confirmam mutuamente como pessoas, um diante do outro, abertos um para o outro, de forma autónoma, responsável e livre.” (p.58)

A autenticidade é um dos atributos do relacionamento interpessoal, que “transparece nos gestos e, sobretudo, no rosto das pessoas” (Tavares, 1996, p.64), já que numa relação, tal como menciona o mesmo autor, “comunicamos muito mais que através de palavras”. (p.65) Quando aceitamos o outro de forma positiva e incondicional, “temos de fazê-lo com verdade e com autenticidade para que assim seja entendido na linguagem gestual e, sobretudo, no face-a- face do rosto, em que essa linguagem atinge a sua maior força de expressão.” (Tavares, 1996, p.65) Deste modo, para o autor a “relação tornar-se-á verdadeiramente empática e autêntica, será interpessoal estabelecendo o contacto ao nível da pessoalidade, tocando o outro no seu próprio “self”.” (p.65)

Para Tavares (1996), as relações interpessoais que são recíprocas, assimétricas, dialécticas, verdadeiras e autênticas somente são possíveis porque na interacção de pessoas que lhes servem de suporte, subsistem as dimensões da sociabilidade, da unicidade que faz delas seres livres e autónomos, responsáveis pela sua própria construção pessoal. “Ser social e único, alter e idêntico a si mesmo constitui a essência da pessoalidade do ser humano” (Tavares, 1996, p.65), capacitando-o de ser livre na sua acção, como sujeito de acções inteligentes, autónomas, responsáveis e empenhadas.

Alarcão e Tavares (2003) referem que a atmosfera do processo de supervisão pedagógica deve assentar numa boa relação entre o supervisor e o professor em formação e por isso,

“é desejável e necessário desfazer, quanto antes, toda uma série de preconceitos e até alguns mitos que se foram criando e alimentando ao longo do tempo, em torno do estatuto e do relacionamento entre o supervisor e o professor em

formação, tais como: superior-inferior, independente-subordinado, professor- aluno, avaliador-avaliado, “fiscalizador-fiscalizado” e pôr mais em relevo as características e os comportamentos e atitudes de entreajuda, de colaboração entre colegas num processo em que se procura atingir os mesmos objectivos, ainda que de pontos de vista e planos diferentes: o seu desenvolvimento humano e profissional como um factor importante de competência para poder intervir de um modo mais eficiente na educação dos alunos.” (p. 62)

Pensamos que também seria importante referir que na análise do processo de supervisão como ensino e formação de professores, “o modelo rogeriano, cujo objectivo terapêutico principal é o de ajudar o indivíduo a tornar-se pessoa, assenta em três atitudes essenciais: o realismo, a aceitação e a empatia” (Alarcão e Tavares, 2003, p.64), fundamentais ao estabelecimento de uma relação interpessoal. “É também sobre estas três atitudes que é possível estabelecer uma relação positiva, congruente, responsável, comprometida entre supervisor e o professor, que permitirá a criação de uma atmosfera de confiança autêntica e colaborante.” (Alarcão e Tavares, 2003, p.64)

As relações interpessoais constroem-se através dos sentimentos, das emoções, das percepções e do significado profundo que a pessoalidade do sujeito tem para com outro sujeito na interacção recíproca da dinâmica intersubjectiva em cada um dos seus momentos.

Para que a relação entre supervisor e supervisionado se processe de forma autêntica será necessário, como referem Alarcão e Tavares (2003):

“ (…) a circulação espontânea e sem barreira entre o mundo do supervisor e o mundo do professor. Isso pressupõe maturidade humana que se alicerça num bom conhecimento de si mesmo e dos seus interlocutores, dos outros, abertura de espírito, compreensão, sensibilidade que vêm à presença no contacto social e, sobretudo, num olhar positivo e acolhedor – uma das expressões mais fortes do humano - e em todos os outros domínios da comunicação verbal e não verbal.” (p.64 e 65)

Gostaríamos ainda de salientar que, tal como define Castanyer (2002),

“ o facto de uma interacção resultar satisfatória depende de nos sentirmos valorizados e respeitados e isto, por sua vez, não depende tanto dos outros, mas do facto de possuirmos uma série de competências para responder correctamente a uma série de convicções ou esquemas mentais que nos façam sentir bem connosco próprios.” (p.21)

Assim numa relação humana não basta estabelecer uma relação interpessoal com os outros, será principalmente necessário estabelecer uma relação intrapessoal, ou seja, para nos

relacionarmos bem com os outros temos de relacionarmos bem com nós próprios, querendo-se essa relação segura e em que o sujeito é capaz de se afirmar e corresponder ao que os outros pretendem de si.

A assertividade é, sem dúvida, uma atitude fundamental na relação intrapessoal e interpessoal, que preconiza a auto estima e a auto confiança do sujeito, defendendo sem agressão e com honestidade as suas ideias e posições e expressando compreensão face às posições, sentimentos e exigência dos outros. O comportamento assertivo terá consequências no ambiente envolvente, no seu comportamento e no comportamento dos outros; saber ouvir e escutar, saber aceitar os erros e lidar com a crítica, conseguir refrear quem o ataca, fazer com que os outros se sintam respeitados e valorizados, discordar abertamente e exprimir a sua opinião, são algumas delas.

Segundo Vieira (1992), o estabelecimento de uma relação interpessoal é pois fundamental para o sucesso da formação do futuro professor:

“Ao longo da minha experiência (como professora, supervisora, supervisora/pedagógica, co-investigadora) tenho-me apercebido da importância fulcral dos modelos de relação estabelecidos na dimensão afectiva relacional. Não se trata do grau de informalidade da relação, mas antes da sua clareza e honestidade.

Existe um «sentido da verdade» na relação (formador/formando) que motiva o envolvimento de ambos enquanto parceiros num empreendimento para o qual devem existir algumas metas comuns.

Sem esse sentido, penso que se torna muito difícil realizar um trabalho verdadeiramente colaborativo e formativo” (p.29)